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30 horas…

Publicado: 3 de dezembro de 2008 em Sem Categoria
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barracas de boas-vindas...

barracas de boas-vindas...

Começo sentado na poltrona do avião. É ainda uma da manha no Brasil quando vejo pela primeira vez o sol se levantar em solo africano. Um sol de um laranja fulgurante, que nasce devagar, como se soubesse que não precisa de pressa para mostrar a que veio. Quando sobrevôo Johanesburg, ou Josi como dizem aqui, sinto que estou voltando para casa, lá no intimo, uma parte de mim sabe que daqui todos nos viemos.

 

            Mas em Josi, no aeroporto de Josi, não vejo a África que esperava. Vejo uma África branca, com clientes brancos e empregados negros. Alguém disse “ah! e’ um começo!” , mas não posso concordar. Para mim e’ apenas mais do mesmo, a mesma relação hierárquica de sempre. Ainda pior agora que estamos em solo negro.

            No caminho para a rodoviária nosso motorista nos diz que somos bem vindos `a Terra Mãe, me lembro da canção brasileira que canta Mama África, mas sinto que essa mãe deve estar muito triste com a relação entre seus filhos mais velhos e esses mais novos.

            Na rodoviária os sentimentos são diversos. Há a apreensão num ambiente que aparenta ser hostil, ao mesmo tempo em que fico maravilhado ao sentir que estamos cada vez mais em África, e estamos falando português com moçambicanos, apenas a algumas horas de entrarmos no pai’s.

            E’ sim um povo de sorriso fácil, mas com um olhar triste, de uma tristeza que ate então não sabia de onde via. E essa coisa triste se espalha por outras facetas da vida, da’ uma falta de vontade que se sente toda vez se precisa de algo, de um serviço. Um desanimo que só sente quem tem a certeza de que não há nada melhor esperando por você, não importa o que se faca.

            O ônibus estava lotado. São muitos os moçambicanos que estão voltando pra casa, fugindo dos massacres xenofóbicos que ocorreram e que podem voltar a acontecer a qualquer momento. São na maioria homens, jovens, que tentam trazer dinheiro suficiente para comprar um terreno e construir uma casa, como disse Paito, um rapaz mais moço que eu, que viajou ao meu lado. Surpreso, ele ouviu atento aos meus relatos sobre a realidade brasileira. Ao final disse “não vejo nada disso na novela”. Conversamos sobre a guerra civil, sobre Renamo, Frelimo e o terror de se esconder para não ser capturado pelos exércitos.

            Viajamos toda a noite cruzando a África do Sul. O caminho para Moçambique também não e’ condizente com retrato da África que temos. O país e’ rico, e embora haja sim pobreza, as cidades e suas estruturas, como rodovias, viadutos, lojas, são bem melhores do que no Brasil por exemplo. Mas as 5 da manha, quando o dia estava raiando e o ônibus parava na fronteira, Moçambique da uma mostra do que vem por aí.

            A fronteira só abriria as 6, de modo que tínhamos que esperar por volta de uma hora. A principio estava com medo de descer do ônibus, mas por fim sai para ver mais de perto o que de dentro já me impressionava. Algumas dezenas de barraquinhas, do que parecia ser algum tipo de carne assada na brasa, estavam ali apinhadas numa leve ribanceira. Para chegar ate’ elas era preciso cruzar pequenas pontes, que passavam sobre uma água escura e parada que não havia de ser menos do que esgoto. Algumas pessoas estavam comendo, mas a maioria das barracas estava vazia, com uma senhora de vestido colorido e olhar vazio a abanar as moscas. Há uma fila de carros, vans, camionetes e ônibus, todos esperando a abertura da fronteira. Entre eles uma pequena multidão de ambulantes tenta vender um pouco de tudo. E ali, entre eles, começa uma discussão. Falando em dialeto, eles cercam um rapaz e começam a espancá-lo brutalmente. Ele e’ surrado ate’ cair, e depois de tombado os outros cospem nele. Eles cercam outro jovem, os braços agitados para o alto e os gritos em uma língua que eu não entendia continuavam. Este ultimo deu sorte, a multidão violenta vê que o primeiro se levantou e começou a correr. Eles então, correm para apanhá-lo mais uma vez, não conseguindo atiram-lhe pedras, mas em vão, não o acertam e o menino consegue escapar. Ao redor varias pessoas assistiam como que sem se importar. Foi a primeira vez que me vi sozinho, sem nenhuma possibilidade de comunicação verbal. E assim, me sentindo um tanto perdido, voltei ao ônibus.

            A fronteira fica numa região bastante pobre, isolada, há ali, do lado de Moçambique, uma vila onde o silencio só era interrompido pelo som de um facão cortando madeira e o balido de pequenas cabras.

            Primeiro se carimba a saída da África do Sul, então cruzamos a fronteira a pe, uns 400 mts, ate dar-mos entrada em Moçambique. Na pequena multidão que cruza a borda só os voluntários são brancos. Há um casal branco, converso com eles e descubro que são voluntários do Peace Corp. Acho graça que no meio de tudo isso, da miséria, da sujeira, desse desespero velado, exista ali uma loja Duty Free.

São 100 km ate Maputo. Extensas áreas rurais com uma ou outra casinha de palha. Paito diz que essas casas tem apenas um cômodo, mas posso ver famílias inteiras trabalhando nas roças ao redor da casa. Ele me pergunta se esse tipo de moradia existe no Brasil, digo que sim, e ele diz que não vai mais ver novelas.

            São 11 da manha quando chegamos a Maputo.