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Moçambique é o 175º país dos 179 listados no Human Development Index (Índice de Desenvolvimento Humano), documento elaborado pela ONU, publicado em 2008 com base em dados colhidos em 2006. O documento classifica os países em três grupos, Alto, Médio e Baixo Desenvolvimento. Moçambique esta no ultimo grupo, é claro. O Brasil é o 70º país da lista. Está no grupo do Alto Desenvolvimento. O Índice leva em consideração a expectativa de vida, alfabetização, educação e qualidade de vida dos paises analisados. Mas o que separa de fato o Brasil e Moçambique nesta lista? Qual a diferença entre eles, o que acontece entre essas 105 posições que separam os dois?

lucro acima do povo?

lucro acima do povo?

Moçambique tornou-se independente de Portugal em 25 de junho de 1975. Logo em seguida entra em guerra civil, onde duas forças políticas, hoje partidos, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) esquerda socialista e a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana) centro-direito neoliberal, se enfrentaram pelo controle do país. As duas forças assinaram um tratado de paz em 1995. Mas por conta de dificuldades econômicas, ainda 1987 (logo após o “acidente aéreo” que matou Samora Machel, primeiro presidente do país), Moçambique assinou acordos com o Banco Mundial e o FMI. O que condicionava o país a abandonar definitivamente o caráter socialista de seu governo. Primeiro veio a desindexação dos preços dos produtos de consumo e mais tarde a privatização de empresas estatais. Nos anos mais recentes o País, para poder cumprir com a cartilha do FMI e banco Mundial, tem feito, além de constantes cortes orçamentários nos serviços públicos, reformas nestes para que os mesmos possam alcançar números. Na educação, por exemplo, a reforma curricular dos cursos de magistério estipulou a redução da duração destes cursos de dois e meio, para apenas um ano.

O numero de professores necessários é enorme, e o governo pretende atingi-lo em quatro anos! A corrida pela quantidade desconhece o mínimo de qualidade. As escolas primárias, de primeira a sétima classe, usam sistema de aprovação semi-automática. Aqueles que conhecem o sistema de educação do Brasil têm uma idéia do que isso causa na qualidade dos estudantes aprovados. Alunos mal preparados, professores desqualificados! Um ciclo que daqui a quatro anos, no meu entender, vai estar maior e pior. As escolas privadas, cobrando absurdos da população pobre, começam a aparecer mesmo nas zonas mais remotas, como onde estou, e já arrebatam os filhos de quem pode pagar.

No Brasil, programas como Brasil Alfabetizado continuam produzindo números, e o descaso com a educação publica faz com que a educação seja um dos negócios mais lucrativos que alguém possa ter. O numero escalabroso de universidades privadas que pipocaram no país depois dos acordos assinados com BM e FMI mostra que o cenário moçambicano não é único. Vale lembrar aqui que o ultimo acordo de 30 bilhões de dólares entre o Brasil e o FMI ocorreu em pleno período eleitoral de 2002, e que o fato de Lula concordar com este acordo permitiu a classe-média, a pequena burguesia brasileira, se sentisse confortável em votar num candidato que não era nem a sombra daquele que em 1994 foi boicotado pela edição do debate na TV global.

Outro fato curioso em Moçambique, no aspecto sóciopolítico, é que os “intelectuais” e a juventude “politicamente engajada” são de direita. Uma amiga que estava na Venezuela me disse que o mesmo ocorre lá. A FRELIMO (socialista) é o partido majoritário, algo em torno de 95% das cadeiras das assembléias, congressos, prefeituras e por ai vai. Mas a RENAMO, Resistência Nacional, (neoliberal) agrega os “pensadores”, os “revolucionários”. Dizem que mesmo integrantes do Partido Nacional, FRELIMO, votam na oposição, já que o voto é secreto. Recentemente o líder da RENAMO, Afonso Dhlakama, em uma entrevista ao vivo, brincava de responder um repórter da TV Moçambique, obviamente da FRELIMO. As perguntas com intuito de desmoralizar a pessoa de Dhlakama e seu partido eram respondidas com uma sagacidade digna das velhas raposas políticas internacionais. Assim, há um espectro de democracia no país. A FRELIMO domina tudo e todos. Abusa da máquina do estado durante campanhas. Pessoas para exercerem cargos públicos, como diretor de escolas, chefes hospitalares, administradores públicos, qualquer função, precisam ter a carteira do partido, precisam ser filiados. O partido tem uma grife, lojas no shopping em Maputo. E mesmo no interior, as lojas de decido vendem uma capulana, rouba tradicional para mulheres, com estampas de Samora e Josina Machel, ou mesmo, com os brasões do partido. Na verdade não há opção. A FRELIMO é o único partido a ser votado! E como todo eleitor não quer perder seu voto, vota naquele que sabe que vai ganhar. Num país em a média de analfabetismo chega a 51,9% da população e 66,7% das mulheres, não é espanto algum encontrar analfabetismo político.

Não defendo o neoliberalismo da RENAMO, mas tão pouco apoio o pseudo-socialismo da FRELIMO. Nenhum e nem o outro traz verdadeira esperança de libertação para um povo que está acostumado, depois de séculos de colonização, a ser dominado e que infelizmente continua a baixar a cabeça para lideranças incapazes e corruptas.

No Brasil, analfabetismo político, campanhas com o uso da máquina e do dinheiro publico, somada às campanhas publicitárias que dão a impressão da existência de apenas três ou duas opções, montam um quadro no mínimo semelhante.

Há ainda mais a ser dito, corrupção política e policial, saúde pública, comércio externo, agricultura. As semelhanças vão crescendo, mas a novelas, especialmente a juvenil global, pinta uma figura distorcida da realidade e alimenta esperanças nos corações inocentes dos que acreditam que é realmente assim como aparece na TV. Brasil, o primo rico, está mais para o primo mais velho que comete erros à nossa frente. Oportunidade de aprender com os erros dele!

 

frente de libertação?!

frente de libertação?!

Obs: minhas noites solitárias na savana produziram isso aqui:

 – pra lhe entregar

Maputo

Publicado: 5 de dezembro de 2008 em Sem Categoria
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flores nas ruas de maputo

flores nas ruas de maputo

Passei uma semana em Maputo, mais um dia. É vã a tentativa de descrever o que se vê ao caminhar pelas ruas dessa cidade, tentarei colocar a minha impressão, que será diferente da sua quando cá vier. Pois Maputo é assim, uma confusão de sensações, opiniões, visões. Há quem se apaixone num primeiro olhar, há os que não querem nem olhar. Durante meses esperei pelo dia que chegaria aqui, e quando esse dia chegou percebi que nada poderia ter me preparado para esse encontro.

 

 

            No primeiro dia passamos de ônibus pelas ruas principais. Não há novidade nesse passeio. As ruas são apinhadas de carros velhos, e vans que fazem o transporte público, chamadas de Chapas. Há pessoas nas ruas, vendedores de tudo. Logo que se entra há um pedágio, depois uma rotatória. Em direção ao centro, na sua esquerda há um mercado, uma feira, uma centena mais ou menos de barracas que vendem verduras, ovos, roupas, sapatos, etc. Não espere ver um branco por aqui. Muitas crianças andam para lá e para cá nas calcadas, e atravessam as ruas, cruzando um transito não muito, mas um pouco bagunçado. Aqui dirigem do lado direito, e isso também assusta um pouco.

            Quando chegamos ao centro podemos ver alguns edifícios abandonados desde a guerra. Há em cada esquina, roupas de segunda mão penduras num varal, sapatos na calçada e um ou dois vendedores de créditos de celular pré-pago. Eu procuro marcas da guerra, furos na parede, algo quebrado… não vejo nada, apenas os prédios abandonados. Há um clima revolucionário nas paredes. Símbolos e frases socialistas estão em todo lugar, nos muros, nas casas, nos carros e nas roupas. A cidade estava também em período de eleições municipais, aqui chamadas de Eleições Autárquicas. A Frêlimo, quase um partido único com seus 96% dos candidatos inscritos, tem cartazes e faixas colocadas em toda parte.

            A Frêlimo foi a força revolucionaria que lutou contra a outra frente, a Rênamo, durante a guerra civil. As promessas foram as de sempre, igualdade para todos, educação, saúde e o tudo o que vem nesses discursos prontos. Mas, alguns anos depois do fim da guerra, não vejo nada disso nas ruas. Não que eu seja contra um e a favor do outro, é mais provável que a Rênamo fizesse o mesmo se tivesse vencido a guerra. O que dói é ver o que sobrou das promessas.

            Quando o ônibus para não há uma rodoviária, a parada final é no inicio da Av. 24 de Julho, uma das principais. Somos cercados por dezenas de taxistas, taxeiros aqui. A luta por um cliente é grande, truculenta, por vezes violenta, de modo que a dona da empresa de ônibus tem que vir a rua e colocar um pouco de ordem na balburdia. Mas qual a realidade por traz do fato? Miséria, pobreza, necessidade. Por 400 meticais, algo em torno de 30 reais o motorista nos levou para o nosso destino, cerca 30 minutos.

            Chegamos a Machava. Um bairro periférico, numa cidade onde periferia e centro se confundem nas condições de vida. Na Machava estão estradas de terra, cortadas por água de esgoto correndo a céu aberto. Na rua onde fica a casa dos voluntários, já esperando por esses voluntários, existem pequenas vendas. Algumas construídas vendas, outras no quintal da casa, mesinhas de madeira com um sombreiro por cima. Tomates, pimentões, arroz, ovos, sardinhas em lata, e é claro, coca-cola. É mais fácil conseguir coca-cola do que água, e mais barato também.

            À noite saí com um amigo que mora aqui em Maputo, e foi ai que os contrastes começaram a aflorar. Maputo tem bares, restaurantes, festas badaladas e tudo mais que uma cidade rica tem. Há carros importados, mais caros do que os que vi no Brasil, alguns que nem na América vi. Fomos a uma recepção num centro de cultura brasileira, pessoas ricas, filhos de embaixadores, empresários. Há dinheiro aqui. Muitos estrangeiros, italianos, portugueses, outros europeus e muitos brasileiros. E brasileiro aqui tem status, muito status. São símbolo de uma vida melhor, são o primo que ficou rico, e muitos querem ser iguais a nós. Pedem para que eu fale com sotaque de brasileiro, e pedem para que eu ensine sotaque de brasileiro. Comida farta na mesa. Diferentes tipos de bebidas. Iluminação e musica eletrônica dão o tom da festa.

            Foi engraçado encontrar aqui, no meio disso tudo um amigo de Cuiabá, Wesley, musico da banda 47 Cromossomos, de uns idos 8 anos atrás. Conversamos sobre estes tempos, aqueles tempos e obviamente sobre o tamanho do mundo. É como dizia a canção do Bolseiro, depois que se coloca o pé na estrada, nunca se sabe até aonde ela te levará.

            Na manha seguinte fui convidado para um churrasco. Imagina! Churrasco na África! Carne de primeira, carneiro, picanha… essas coisas todas, num apartamento que se não era de tudo chique, era ao menos cobertura de frente pro mar. Era a casa de um voluntária dos Médicos sem Fronteiras. Uns seis ou sete deles estavam lá e me pareciam tristes e solitários. Dali, ao fim da tarde outro restaurante a beira mar, com musica ao vivo, um brasileiro, com a camisa da seleção, cantava aqueles clássicos de voz e violão dos barzinhos brasileiros. E a noite moçambicana, no restaurante moçambicano era toda dos brasileiros que se divertiam, e eram aplaudidos pelas pessoas presentes.

            No outro dia saio cedo para voltar a casa dos voluntários. Caminho pelas ruas, a diferença de se passar por aqui de carro é gritante. Percebe-se um ar melancólico nas pessoas. Boa parte bem vestida, homens de camisa e gravata e mulheres em seus vestidos coloridos bem arrumados. Mas há algo por trás dessa boa aparência, um não sei que, que não me deixa em paz. Obviamente as pessoas me olham como um animal de zoológico, mas não é esse o problema. Vou até a avenida para apanhar a Chapa. São carros velhos, microônibus e vans em péssimas condições. Entro e esta vazio agora. Descendo a avenida passamos pela mesma feira que passei quando cheguei. O motorista parou para abastecer, e o carro foi cercado por pessoas vendendo tomates, frutas e créditos de celular. E o ônibus começou a encher, a ficar lotado e logo não havia mais espaço para ninguém, embora o motorista parasse para colocar mais pessoas. O cobrador começou a empurrar as pessoas para trás, apertando a todos. O senhor ao meu lado conversa comigo. Primeiro diz que pelo meu olhar sabe que não sou daqui e que é a primeira vez que venho a Moçambique, com o que tenho que concordar. Depois as perguntas são as de sempre, futebol, rio de janeiro, são paulo e novelas.

            Na frente passou uma outra chapa, um menino cobrador pendurado na porta com o corpo para fora do veiculo gritava “Liberdade, Liberdade, Liberdade!” e eu demorei a perceber que ele chamava o destino do carro e não outra coisa. Se soubesse o significado do que clamava, talvez gritasse mais forte!