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De Lichinga a Nampula, 45 minutos de vôo. Isso aconteceu no dia 23. Estava calor, muito calor em Nampula. Um aeroporto pequeno, um taxista que me cobrou três vezes o valor da corrida, um chapa que demorou um hora ou mais para começar a andar, pessoas sentadas em todos os lugares possíveis, um truque para passar pelos guardas e lá fomos nós para as quase 4 horas de Nampula para Nacala.

no caminho

no caminho

O caminho entre as duas cidades é cheio de vida. A mata é exuberante. Baobás gigantes, dando sombra e algo mais para famílias desprovidas. Montes formados por apenas uma rocha enorme. Topos arredondados, formas leves e graciosas. Na estrada há um sem numero de pessoas que transitam de um lado para o outro. O motorista apontou uma senhora na rua e disse que ela fazia o caminho nampula-nacala todos os dias a pé. Se verdade ou não, não sei, mas a distancia é de uns 200 km. Há também muito caju! Muitos! Embora não tenha visto nenhum fruto, algumas centenas de pessoas na estrada estavam vendendo castanhas de caju torradas. O carro parou varias vezes e era comumente cercado por vendedores. Frutas, refrigerantes, biscoitos, comida, galinhas, tudo entrava pelas janelas e era quase que lançado no colo dos passageiros. A senhora ao meu lado compra um pouco de tudo, vai jogando as coisas no chão, no colo e quando não cabe mais pede se posso carregar. Enfim, carrego. Ela diz que é fã de novelas brasileiras, adora brasileiros, já teve amigos brasileiros. Eu sorri diante da inocência dela, reflexo de toda uma nação que vê o Brasil como uma esperança de algo melhor.
Chegamos ao fim da tarde a Nacala, mais uns 30 minutos de táxi e estou na escola. Já está escuro e as pessoas estão preparando o jantar. Naquela penumbra alguns sorrisos se aproximaram, me abraçaram, me disseram bem-vindo e me beijaram. Eu estava conhecendo as pessoas com as quais passaria os próximos dias. Natal e Ano Novo. E fiquei feliz de poder fazê-lo!
A escola de Nacala fica a poucos km da praia. Dois ou três. A casa dos voluntários fica numa encosta na beira da praia. Eu estava de férias, mas me perguntava como deveria ser trabalhar lá. Com tanta beleza a nos convidar a só ficar de olhos abertos e sentados. Nacala, praias de areia clara e águas de variados tons de azul. Lindo. Os próximos dias, de 23 a 30 de dezembro, passei ali, em companhia de excelentes pessoas. Estávamos em 25 voluntários. Brasileiros eram nove, depois italianos com seis, portugueses dois, japoneses dois e outros… pessoas diferentes, com motivos diferentes, mas com o coração no lugar certo.

nacala

nacala

Música, teatro, e comida foram a atração do natal. Eu fiz um peixe do mar do jeito que meu pai costumava fazer lá meio do mato grosso com os peixes de água doce. Deu certo. A festa foi animada e com alguns fui à praia de madrugada. Por conta de um plâncton as águas brilhavam fosforescentes quando agitadas. Impressionante. Eu, que nunca tinha passado muito tempo junto ao mar, via agora, à luz da lua, as ondas trazendo milhares de pequenas estrelas. Andar, correr na água se tornou mágico. Alguém perguntou “por que as águas brilham?” alguém respondeu “por conta do plâncton.” Mas alguém retrucou, “não, não é plâncton, é simples mágica!”.

nacala

nacala

Na manha seguinte, cinco pessoas com malária. Mesmo dormindo na varanda da casa não tive malaria. Meu canal inflamou, doeu muito e quando a maioria saiu para a Ilha de Moçambique, no dia 27, eu fiquei com os doentes, os sem grana e os sem folga. Foi ótimo poder ficar e conhecer mais de perto os que ali estavam. Francesca, Lucia, Joana, Noemi, Brusco, Érika, Isabela e Isadora. Pessoas muito queridas, das quais trago boas lembranças.
No dia 30, cedo, fomos à ilha. Num pequeno caminhão, sentamos todos. E onde deveriam ir doze pessoas, foram umas 25. Espremidos entre malas e sacos de comida, sentado sobre um saco de peixe, ou sobre mochilas, com chapéus ou capulanas, passamos pelas 3 horas de viagem debaixo do sol.

ilha de moçambique

ilha de moçambique

Para chegar à ilha há uma comprida ponte de mão única. Se outro carro vem na direção contrária, existem pequenas áreas de estacionamento ao longo da ponte, de modo que um dos carros deve parar ali. A ilha é patrimônio histórico da humanidade, tombado pela UNESCO e de primeira vista já impressiona. Cruzando a ponte você passa por uma extensa aérea de águas azuis turquesa, alguns botes, alguns barcos a velas, dezenas de pescadores. A arquitetura é colonial, mas a maior parte esta em ruínas, marcas da guerra civil por todo lado. A ilha foi a primeira capital do país, há a casa de Camões aqui, de Vasco da Gama, um palácio imperial, um hospital enorme, uma catedral, porém tudo corroído pelo tempo, pela guerra, pela ganância. Andar no hospital da ilha hoje é fonte de desespero e tristeza.
Alguns brancos já perceberam o potencial turístico da ilha, existem, pois, alguns bares e restaurantes, lojas e hotéis que embora não tragam nenhuma placa dizendo “só para brancos!”, deixam claro quem é o seu público pelos valores que cobram. E assim acontece de se encontrarem todos os dias as mesmas pessoas, nos mesmos lugares, se você se comportar como um mucunha. Mas se estiver disposto, como nós estávamos a conhecer a ilha, pelos olhos de quem nela vive, há muitas surpresas a esperar.

ilha de moçambique

ilha de moçambique

Quando era dia 31 à tarde, meu nome já era um pouco conhecido na ilha, e ao caminharmos alguns gritavam de longe, outros vinham para um abraço. Recebemos convites para as festas de Ano Novo, todos os bairros, pequenos guetos, preparavam sua festa, pintando os muros com frases felizes, colocando fitas coloridas, tocando passadas e marrabentas e alguns já dançando. Nós fomos a uma festa preparada por alguns jovens locais, Gito e Hand. Alguns desses jovens falavam francês, italiano, inglês. E desesperadamente tentavam impressionar as garotas brasileiras, italianas, brancas em geral. Alguns, com efeito, conseguiam. Embora não tenha visto nenhum contato além dos já comuns abraços e beijos no rosto, era claro que algumas meninas estavam deslumbradas. A província de Nampula, dizem, tem a população mais bonita de Moça. As meninas são realmente lindas aqui. O gosto moçambicano é para as meninas mais cheias, com carne! Mas na ilha e em Nacala a maioria é magra, de quadril largo, seios generosos e cabelos longos de tranças finas. São lindas. Com roupas coloridas, capulanas, combinando sempre os seus padrões de cor e desenho.
Na hora da virada, estávamos na praia, água nas canelas e fizemos a contagem juntos. Não houve fogos, não houve gritaria, baderna. Apenas musica e a alegria genuína de pessoas mais felizes por estarem juntas do que por uma data qualquer. Nós saímos de festa em festa, felicitando pessoas nas ruas, nas casas. Por fim ficamos numa festa popular, gratuita, onde ouvimos de tudo um pouco. Um dos pontos altos da noite foi Bon Jovi, do qual fiz um vídeo da explosão de alegria com a musica tocando. Quando começou a amanhecer fomos à beira da praia para ver o sol nascer no primeiro dia do ano. Enquanto estávamos contemplando a aurora, alguns meninos pulavam no mar do alto de uma murada de uns cinco metros. Caminhamos pra casa felizes. Abraçávamos-nos sorrindo, beijos entre amigos que se encontravam pela primeira vez. E conversamos ainda até que começamos um por um a dormir. Felizes e gratos.
O dia primeiro passou num vôo, a ultima noite juntos, conversamos até de madrugada. Rimos, de um riso com um que de triste, já nostálgico. Saímos todos juntos, os últimos 60 km juntos, a primeira turma de dividiu no cruzamento para Nacala, outros em outro carro, e fui com esses outros, por mais dez minutos, e por fim, antes do meio dia eu já estava sozinho novamente.
Não demorou muito para sentir o peso do silêncio e da solidão novamente. No hotel, ouvia as musicas que ouvia com os novos amigos, lembrava as conversas e as risadas, as boas histórias. Ria sozinho, e sabia, ou melhor, e sei que vai ser assim por um bom tempo agora.
No dia 3, quando cheguei à escola, encontrando todos novamente, e contanto como foram as minhas férias, eu sentia muita falta do pessoal de Nacala, da Ilha, dos novos amigos. E talvez eu me sinta mais só agora do que antes. Mas esta tudo bem, pois na memória, trago motivos pra sorrir novamente. Sempre.
Eram cinco e trinta hoje quando vi andorinhas brincando no vendo depois da chuva, indo em direção ao oeste, vão cruzar o lago Niassa, o Malawi, e passarão por cima do Tete, queria ir com elas.

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