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Maputo

Publicado: 5 de dezembro de 2008 em Sem Categoria
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flores nas ruas de maputo

flores nas ruas de maputo

Passei uma semana em Maputo, mais um dia. É vã a tentativa de descrever o que se vê ao caminhar pelas ruas dessa cidade, tentarei colocar a minha impressão, que será diferente da sua quando cá vier. Pois Maputo é assim, uma confusão de sensações, opiniões, visões. Há quem se apaixone num primeiro olhar, há os que não querem nem olhar. Durante meses esperei pelo dia que chegaria aqui, e quando esse dia chegou percebi que nada poderia ter me preparado para esse encontro.

 

 

            No primeiro dia passamos de ônibus pelas ruas principais. Não há novidade nesse passeio. As ruas são apinhadas de carros velhos, e vans que fazem o transporte público, chamadas de Chapas. Há pessoas nas ruas, vendedores de tudo. Logo que se entra há um pedágio, depois uma rotatória. Em direção ao centro, na sua esquerda há um mercado, uma feira, uma centena mais ou menos de barracas que vendem verduras, ovos, roupas, sapatos, etc. Não espere ver um branco por aqui. Muitas crianças andam para lá e para cá nas calcadas, e atravessam as ruas, cruzando um transito não muito, mas um pouco bagunçado. Aqui dirigem do lado direito, e isso também assusta um pouco.

            Quando chegamos ao centro podemos ver alguns edifícios abandonados desde a guerra. Há em cada esquina, roupas de segunda mão penduras num varal, sapatos na calçada e um ou dois vendedores de créditos de celular pré-pago. Eu procuro marcas da guerra, furos na parede, algo quebrado… não vejo nada, apenas os prédios abandonados. Há um clima revolucionário nas paredes. Símbolos e frases socialistas estão em todo lugar, nos muros, nas casas, nos carros e nas roupas. A cidade estava também em período de eleições municipais, aqui chamadas de Eleições Autárquicas. A Frêlimo, quase um partido único com seus 96% dos candidatos inscritos, tem cartazes e faixas colocadas em toda parte.

            A Frêlimo foi a força revolucionaria que lutou contra a outra frente, a Rênamo, durante a guerra civil. As promessas foram as de sempre, igualdade para todos, educação, saúde e o tudo o que vem nesses discursos prontos. Mas, alguns anos depois do fim da guerra, não vejo nada disso nas ruas. Não que eu seja contra um e a favor do outro, é mais provável que a Rênamo fizesse o mesmo se tivesse vencido a guerra. O que dói é ver o que sobrou das promessas.

            Quando o ônibus para não há uma rodoviária, a parada final é no inicio da Av. 24 de Julho, uma das principais. Somos cercados por dezenas de taxistas, taxeiros aqui. A luta por um cliente é grande, truculenta, por vezes violenta, de modo que a dona da empresa de ônibus tem que vir a rua e colocar um pouco de ordem na balburdia. Mas qual a realidade por traz do fato? Miséria, pobreza, necessidade. Por 400 meticais, algo em torno de 30 reais o motorista nos levou para o nosso destino, cerca 30 minutos.

            Chegamos a Machava. Um bairro periférico, numa cidade onde periferia e centro se confundem nas condições de vida. Na Machava estão estradas de terra, cortadas por água de esgoto correndo a céu aberto. Na rua onde fica a casa dos voluntários, já esperando por esses voluntários, existem pequenas vendas. Algumas construídas vendas, outras no quintal da casa, mesinhas de madeira com um sombreiro por cima. Tomates, pimentões, arroz, ovos, sardinhas em lata, e é claro, coca-cola. É mais fácil conseguir coca-cola do que água, e mais barato também.

            À noite saí com um amigo que mora aqui em Maputo, e foi ai que os contrastes começaram a aflorar. Maputo tem bares, restaurantes, festas badaladas e tudo mais que uma cidade rica tem. Há carros importados, mais caros do que os que vi no Brasil, alguns que nem na América vi. Fomos a uma recepção num centro de cultura brasileira, pessoas ricas, filhos de embaixadores, empresários. Há dinheiro aqui. Muitos estrangeiros, italianos, portugueses, outros europeus e muitos brasileiros. E brasileiro aqui tem status, muito status. São símbolo de uma vida melhor, são o primo que ficou rico, e muitos querem ser iguais a nós. Pedem para que eu fale com sotaque de brasileiro, e pedem para que eu ensine sotaque de brasileiro. Comida farta na mesa. Diferentes tipos de bebidas. Iluminação e musica eletrônica dão o tom da festa.

            Foi engraçado encontrar aqui, no meio disso tudo um amigo de Cuiabá, Wesley, musico da banda 47 Cromossomos, de uns idos 8 anos atrás. Conversamos sobre estes tempos, aqueles tempos e obviamente sobre o tamanho do mundo. É como dizia a canção do Bolseiro, depois que se coloca o pé na estrada, nunca se sabe até aonde ela te levará.

            Na manha seguinte fui convidado para um churrasco. Imagina! Churrasco na África! Carne de primeira, carneiro, picanha… essas coisas todas, num apartamento que se não era de tudo chique, era ao menos cobertura de frente pro mar. Era a casa de um voluntária dos Médicos sem Fronteiras. Uns seis ou sete deles estavam lá e me pareciam tristes e solitários. Dali, ao fim da tarde outro restaurante a beira mar, com musica ao vivo, um brasileiro, com a camisa da seleção, cantava aqueles clássicos de voz e violão dos barzinhos brasileiros. E a noite moçambicana, no restaurante moçambicano era toda dos brasileiros que se divertiam, e eram aplaudidos pelas pessoas presentes.

            No outro dia saio cedo para voltar a casa dos voluntários. Caminho pelas ruas, a diferença de se passar por aqui de carro é gritante. Percebe-se um ar melancólico nas pessoas. Boa parte bem vestida, homens de camisa e gravata e mulheres em seus vestidos coloridos bem arrumados. Mas há algo por trás dessa boa aparência, um não sei que, que não me deixa em paz. Obviamente as pessoas me olham como um animal de zoológico, mas não é esse o problema. Vou até a avenida para apanhar a Chapa. São carros velhos, microônibus e vans em péssimas condições. Entro e esta vazio agora. Descendo a avenida passamos pela mesma feira que passei quando cheguei. O motorista parou para abastecer, e o carro foi cercado por pessoas vendendo tomates, frutas e créditos de celular. E o ônibus começou a encher, a ficar lotado e logo não havia mais espaço para ninguém, embora o motorista parasse para colocar mais pessoas. O cobrador começou a empurrar as pessoas para trás, apertando a todos. O senhor ao meu lado conversa comigo. Primeiro diz que pelo meu olhar sabe que não sou daqui e que é a primeira vez que venho a Moçambique, com o que tenho que concordar. Depois as perguntas são as de sempre, futebol, rio de janeiro, são paulo e novelas.

            Na frente passou uma outra chapa, um menino cobrador pendurado na porta com o corpo para fora do veiculo gritava “Liberdade, Liberdade, Liberdade!” e eu demorei a perceber que ele chamava o destino do carro e não outra coisa. Se soubesse o significado do que clamava, talvez gritasse mais forte!

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