a muito tempo…

Publicado: 29 de setembro de 2009 em Sem Categoria

São Paulo ficou para trás. Três meses já se passaram, ainda me lembro da madrugada em que cheguei, da senhora que vinha visitar sua filha e neta e que me pagou um café na rodoviária, me lembro de tocar o violão no metrô. Na manhã seguinte me lembro da festa boliviana em frente à Catedral da Sé, e das roupas coloridas e dos brocados, dos sorrisos com ouro, das canções simples.
Mas isso ficou para trás e também meus planos de voltar ao Brasil em novembro para morar na grande metrópole sul-americana. E agora os planos se voltam para outras opções fora da pátria mãe.
São três meses de volta aos EUA, de volta à montanha. O que passou?
Os planos de trabalhar no recrutamento se mostraram inúteis quando as diferenças de gênios entre eu e a diretora desse departamento se mostraram grandes demais. Mesmo assim trabalhei lá por dois meses, até que pudesse assumir uma vaga como Team Leader.
Estar na montanha como funcionário é uma experiência muito diferente de estar aqui como voluntário. Embora a maioria dos voluntários não perceba isso, fazer parte dos que trabalham gera muito mais conflitos internos do que o período de voluntario, ao menos é o que acontece comigo. Por quê?
Um voluntário pode sentir livre para ser el@ mesm@. Enquanto trabalho aqui sinto que estou sob constante vigilância e essa sensação de viver num Big Brother me tira a liberdade de ser o que sou. Às vezes, carregado de obrigações, percebo que poderia fazer tudo ao meu modo em um quinto do tempo, mas não posso, tenho que seguir as regras e isso me frustra. Talvez seja apenas meu gênio, meu jeito de ver as coisas que me faz sentir falta de colocar as mãos no trabalho, de suar trabalhando no campo, e esse trabalho aqui; um intermédio entre esse mundo “normal nosso de cada dia” e o campo de trabalho na África e na América do sul; me parece às vezes tão vazio, sem perspectiva.
O que torna a montanha suportável, o que nos mantêm aqui são, e sempre foram, dois fatores. Primeiro, a perspectiva do futuro, o trabalho em outro país, na África, na América do Sul, para a maioria dos que aqui estão, é uma força tão grande que nos guia e puxa e empurra durante todo o programa. Segundo, as pessoas. O encontro com pessoas de diferentes passados, com diferentes histórias e a oportunidade de compartilhar com elas esses sentimentos, criando laços de amizade que em alguns casos vão perdurar por anos, é outra força que nos compele. No meu caso acho que esta ultima é a principal.

Anúncios

Dia 18, meu ultimo dia em Cuiabá, cidade onde nasci e cresci. Minhas raízes estão lá, mas o vento balança minhas folhas em muitas direções. Me encontro com alguns amigos e sinto falta de alguns rostos, mas todos os corações estão ali, para mais uma vez me dar adeus, até logo! Eu os amo e a cada vez que posso vê-los, posso vê-los ainda mais. Além das cortinas, além do véu e de coração puro, com o ego vazio, digo a um que seus passos estão certos, digo a um que aceite mudar, digo a uma que vá devagar e a outra que procure se encontrar. Digo a um menino que ainda há muito por viver e a uma menina que o amar é saber esperar. Digo a uma moça que tudo acontece ao seu tempo e que o acaso nos guia. Ao meu pai digo que no caminho que escolhi, ando com os passos que ele me ensinou e digo aos meus irmãos que nunca lhes dei motivos para não se orgulharem da família.
É noite, dou até mais para aqueles corações generosos e entro no ônibus sorrindo e com 8 reais no bolso. Uma alma leve, um coração cheio e um bolso vazio.
São onze e quarenta da noite e o ônibus começa a se mover. Está frio e lento. Por algum motivo a idéia que o sonho da áfrica acabou volta a minha mente. Os lugares já serão os mesmos, ou serão as pessoas e o tempo suficientes para torná-los novos?
No ônibus não há jovens. Acho que sou o jovem aqui, a maioria já dorme, cobertos e com seus travesseiros. Eu vejo a cidade passar na janela devagar. Minha mente divaga. Quando voltarei aqui? Quem sentirá minha falta? O que deixei de fazer? O que fica para trás? O passado, o presente é o ônibus indo embora. Melancólico, durmo.
Acordo em Campo Grande, lembro dos amigos aqui, companheiros de viagens, companheiros de lutas. Tenho simpatia por este lugar e nunca entendi a rivalidade entre os dois estados. E me encantam as ruas largas e avenidas limpas da cidade. Não descemos e ficamos pouco tempo na rodoviária. Tomei um copo de café na próxima parada e na seguinte, por volta das uma e trinta da tarde, comprei uma esfiha e uma cream cracker. E guardo o troco para o metro quando em São Paulo.
Na viagem a tarde, olhando a paisagem do cerrado que sempre achei parecidas com as matas lá do outro lado. Pensando no numero enormes de pessoas que poderiam, me assusto com o pequeno numero das que realmente se doam ao próximo. E penso que a nossa pequena burguesia se acha mais perto da elite ao doar materialmente, o fato de dar dinheiro não lhes parece humilhante como lhes parece trabalhar gratuitamente. Na lógica capitalista lhes parece idiota trabalhar sem retorno, mas dar dinheiro aos pobres lhes afasta desse pesadelo e os aproxima do sonho burguês, assim pensam!
Continua…

violão e estrada

Publicado: 3 de junho de 2009 em Sem Categoria

na estrada sempre surge um momento prá tirar o violão da sacola…

dourados 01

dourados 02

dourados 03

dourados 04

Cuiabá 01

Cuiabá 02

todos pro buteco…

Publicado: 1 de junho de 2009 em Sem Categoria

Há uns meses criei um outro espaço virtual para trocar idéias com os amigos. O Dharma’s Pub é um blog de troca de idéias, opiniões, músicas, livros e afins. Leia, comente, recomende e faça seus pedidos, a despesa sempre é por conta da casa!

capa

de volta pra casa…

Publicado: 1 de junho de 2009 em Sem Categoria

Dia 01 de maio eu saía da áfrica rumo à minha casa. Deixava para trás amigos, laços, memórias, sentimentos, pessoas, lugares, coisas, momentos. Enquanto eu estava só, vivendo na remota região do Niassa, o desejo de ver e conversar com pessoas do mesmo contexto que eu, me fazia desejar voltar para casa. Mas ali, no momento de entrar no ônibus e sair de Maputo, já não estava tão certo de partir. E prometi a mim mesmo que iria voltar a pisar aquelas terras. Mais cedo ou mais tarde. As praias azuis de Nacala, o por do sol colorido de Téte, o frio aconchegante de Niassa, a urbanidade paradoxal de Maputo, as plantações de chá de Guroé. E posso ouvir, num fechar de olhos, todas as canções que costumava ouvir quando a luz se ia, as fogueiras se acendiam e as pessoas cantavam noite adentro nas suas pequenas casas de barro e palhas, nas suas vilas de sete ou oito casinhas iguais.

Quando me sentei ali, no final do corredor do avião, numa poltrona com janela, eu olhei por ela e de coração e com ele, dei adeus àquela terra, assim como disse olá, sentindo que ali era; de alguma forma, em algum tempo e de alguma maneira, minha casa, minha terra, meu berço. Acompanhei o solo atravessando verdes planícies, desertos, rochas, montes, areia e por fim, praias, o mar dançava lá embaixo.

Pisando em São Paulo, reencontrando amigos, revendo uma cidade, reconhecendo uma multidão. Estar no Brasil foi uma vontade contraditória durante os últimos meses. Isa, uma menina que era voluntária em Macuze me disse que “as pessoas têm medo de sair de casa, mas quem já saiu, tem mais medo de voltar!”. E estar novamente naquilo que já chamou de “seu” dá medo. Reencontrar os amigos preocupa. Abraçar sua família lhe aflige.

Tive crise de pânico, fiquei trancado no AP do Leandro e da Rosa, amigos que me receberam nesse período de “reassentamento”. Aos poucos fui caminhando pelo bairro, algumas quadras, depois mais longe e por fim, peguei o metrô. E São Paulo, com sua delicadeza peculiar me mostrou que já não estava entre aqueles rostos sorridentes, que não adiantava saudar as pessoas e que aquela inocência tinha ficado para trás. Ainda assim, São Paulo me chama, e se lá morasse, lá seria feliz.

Ainda não faltava chegar em casa. Fui para Campo Grande, depois Dourados, depois para o Paraguai e voltando mais uma vez Campo Grande, onde Kleomar e Fernanda me receberam como irmão, e só depois descobri que eu seria o irmão mais velho, bem mais velho. E de lá a ultima noite de viagem para Cuiabá. Onde nasci, mas que não ouso chamar de minha terra, já que nada é meu. eu

No reencontro com os amigos, um alívio. No abraço da família, uma paz! Estava em casa, em paz, tranqüilo, sereno. Vejo o por-do-sol da janela do quarto onde durmo e sei que não é o mesmo que via um mês atrás, e me lembro que cada um deles é único, e que lá, como cá há cores demais! Umas tristes, tantas alegres.

pôr do sol da universidade

pôr do sol da universidade

21 dias… parte final.

Publicado: 7 de maio de 2009 em Sem Categoria

Acordamos cedo. Sete e meia chamei Rodrigo para irmos ao Emigration Headquarter. De dia deu para ver melhor o hotel. Piscina, mas estava muito frio para pensar em banho, havia também uma loja com artesanato logo ao lado da entrada do estacionamento. Eu não tinha visto tão diverso e tão colorido artesanato.
Saímos e a água da chuva que caiu durante a noite transformou a rua numa olaria. Mas há apenas uma quadra chegávamos ao asfalto. Mais cedo, enquanto esperava Rodrigo pedi informações sobre o caminho, não era longe. Saíamos do hotel, virando na primeira direita e à direita novamente. Seguindo por umas 6 quadras nessa rua, virando à esquerda no semáforo. Logo a direita fica o Emigration Headquarter.
Mas nesse caminho atravessávamos o centro comercial da cidade de Blantyre. Era uma cidade limpa, com carros tipo turismo, importados, de pessoas elegantes e bem vestidas. Havia muitos bancos, lojas de carro, prédios. Mas impressionava o pouco movimento. Uma cidade tão desenvolvida, mas vazia.dscf4707
Quando nos aproximamos do nosso destino encontramos um aglomerado de pessoas. Muitas pessoas dançando na rua. Alguns com o corpo todo pintado de branco. Havia algumas faixas, mas escritas em Shona, dialeto comum da região. Passamos por eles e chegando, entramos no pátio do prédio. Tudo estava vazio e a porta fechada. Nos aproximamos do salvador “guardinha” e perguntamos que horas iria abrir. Ele nos explicou que era feriado nacional, dia da Independência do Malawi! E então tudo fez sentido.
Fomos embora por outro caminho, encontramos então um mercado de artesanato enorme. Muitas esculturas, objetos decorativos e colares, e brincos e pulseiras de madeira, de metal, de pedra. Centenas de pinturas nas paredes, cores absolutamente estonteantes. Fomos cercados por todo tipo de objetos, os vendedores estendiam suas mãos cheias de colares. Meio agressivo, mas não violento. Conseguimos passar sem problemas. Paramos para um café. Pedimos o café logo que entramos. Uma menina indiana almoçava com uma menina ruiva, e uma senhora loira, muito branca e de olhos escuros tomava chá. Nos sentamos entre as duas mesas. Conversando planejamos o que fazer. Passar mais um dia no hotel era o que tinha que ser feito, mas, problema um, eu não tinha dinheiro, dois, não tinha como conseguir dinheiro até chegar a Moçambique novamente. Então resolvemos que mandaria um email para minha irmã no Brasil, usando a net do hotel. Ela depositaria o dinheiro na conta da mãe dele e ele poderia sacar com um cartão internacional.
Ao pagar o café descobrimos que cada expresso custava o equivalente a cinco reais! Meio estranho, mas era o preço na tabela. Nas ruas a cidade estava em festa, passava um desfile de bonecos e pessoas pintadas, cantando e dançando.dscf4692dscf4699 dscf4702Mas era curioso perceber que a festa de independência da colônia era comandada por uma dezena de brancos sorridentes.
Encontramos Laura no hotel e fomos passear na cidade, ver umas ruas e almoçar num restaurante etíope. dscf4704Nada demais e nem caro. 4 dolares pela comida e uma bebida. Dali fomos ao mercado, compramos algumas lembranças e voltamos para o hotel para dormir e descansar. Me parecia que depois de viajar balançando naquelas vans apertadas e quentes, dormir nunca seria suficiente para recuperar minhas costas e força.
Quando acordei estavam todos na sala de estar do hotel. Uma coreana, uma israelense, um casal australiano, um britânico, nós dois brasileiros e Laura italiana. Uma pequena aldeia global! E ficamos conversando até tarde ali. E então uma chuva torrencial caiu e foi nos deixando sonolentos e lá fui eu de volta pra cama.
Acordamos numa correria. Tínhamos que pegar os vistos, arrumar as malas e enquanto eles iam para o Parque Liwonde eu tinha que deixar o país. Os vistos foram rápidos e logo estávamos na rua correndo atrás de carros. Um policial muito engraçado nos parou, fez algumas perguntas e nos mostrou o caminho. É engraçado como os turistas são tratados de uma forma diferente aqui. Em Moçambique, desde que você fale português, é difícil que os vendedores e outras pessoas tentem de enganar para ganhar uma grana. No Malawi a coisa é outra. Se você não prestar atenção e não tiver uma percepção de valores vai acabar gastando mais do que devia.
No caminho para a fronteira, atravessando o país, vejo que existe grande diferença entre cá e lá. Não vi nenhuma casa de barro e com telhados de palha. São casas de tijolo exposto e telhados de chapas de zinco, mas casas! Portas e janelas com vidro. Toda a distância entre uma ponta e outra do Malawi é coberta por asfalto de boa qualidade. Em algumas horas chegamos ao Parque. Viajar de mochila significa dar adeus em cada parada e assim foi. Rodrigo dali iria para o Brasil e Laura eu ainda veria na época de ir embora.dscf4712
Estava sozinho mais uma vez e no silencio do meu banco via as paisagens passarem e tirava algumas fotos. Me parecia mais verde e mais sereno que Moçambique.
Cheguei a Magochi no final da tarde. E precisava correr para a fronteira, ainda faltava umas duas ou mais horas de viagem e isso é sempre um problema, digo, é sempre um problema calcular distancia por aqui, as informações são sempre desconexas da realidade. Entrei no primeiro carro qure saia. Uma pequena camionete, parecida com uma antiga Ford Pampa e como todo branco fui colocado no banco da frente. Enquanto esperava o carro sair chegou uma pessoa com o mesmo ou maior status que o meu, um chefe local. Ele foi colocado no banco na frente junto comigo. Uma situação nada confortável para nenhum de nós. O carro não tinha faróis, apenas lanterna e os freios eram péssimos. Subindo as encostas que rodeavam o lago Malawi o meu medo só crescia. Sem faróis a estrada não era visível e as vezes o motorista colocava o rosto para fora do carro para seguir a estrada se guiando pelas faixas. O chefe ficou no meio do caminho. O carro precisou ser empurrado duas vezes na escuridão, mas por fim vi as luzes de Chiponde, a última vila no Malawi. Mas já era tarde e a fronteira estava fechada. Eu teria que dormir do lado de cá. Dormir implicava em comer alguma coisa, quase sem grana um mini-pacote de bolacha com um refrigerante em garrafa serviu bem. Fui pro quarto e cai num sono misturado de cansaço e excitação.dscf4744
Acordei correndo para a fronteira. O agente não queria aceitar meu visto. Disse que faltava um numero de serie e tals. Sem grana, cansado e sabendo que era o mesmo agente que não me deixou entrar no Malawi 21 dias atrás, explodi. “Amigo, se você pagar a minha passagem de ida e volta, estadia no hotel e meu restaurante eu volto, caso contrario carimba essa p… e me deixa ir embora!”. Funcionou. Sai dali, peguei o taxi-bicicleta e cheguei do lado moçambicano da fronteira. 3 dolares para entrar e segui novamente na bicicleta. Quando cheguei em Mandimba eu não tinha grana para a passagem até Lichinga, a cidade mais próxima do meu destino final. O primeiro carro não me deu ouvidos. No segundo um pouco de sorte e um pouco de exagero da minha parte e lá fui para a capital do Niassa.dscf4774
Quando cheguei em Lichinga, ainda era dia. Duas da tarde. Estava cansado, com fome, e devendo 95 meticais para o motorista do caminhão que me trouxe até a cidade. Estava feliz.
21 dias depois, minha viagem terminava.

21 dias… VI parte

Publicado: 12 de abril de 2009 em Sem Categoria

Passei sete dias em Téte. Acordava cedo, ia para a construção, trabalhando até a hora do almoço, almoçava em casa, descansava e voltava para a construção até o final da tarde. obraCada fim de tarde era único. O pôr do sol em Téte é algo fantástico! O céu azul vai sendo tomado por cores e mais cores, tonalidades infinitas de laranja, vermelho, rosa, amarelo, algo divino. por-do-sol2Às vezes chovia no meio da tarde devido ao forte calor. E um banho de chuva era a melhor idéia.banho-de-chuva1

À noite o céu, sempre limpo, brilhava cheio de estrelas depois de desligado o gerador. Nos sentávamos do lado de fora da casa e ficávamos contanto estrelas cadentes. Eram noites tranqüilas, de conversas leves e sorridentes. Escrevi um poemeto nessas noites, nada demais, mas expressando minha sensação naqueles dias:

 

Em Téte, nas tarde de verão,

Felicidade era um homem

Que ancioso,

Esperava pelo anoitecer…

 

No quinto dia chegaram duas amigas de Lucia. Federica e Érika. Aeromoças, tinham conseguido passagens por menos da metade do preço e vieram passar uns dias em Moçambique.

erika, lucia e federica

erika, lucia e federica

Érika meiga, simples e muito sociável. Seus olhos estavam arregalados com tudo a sua volta e dizia a cada minuto “olha isso! Olha essas cores! Olha esse verde!”. Foi fácil simpatizá-la. Federica, ou só Fêde, sorriso largo, olhos inquisitivos, pele morena e longos cabelos negros. Quando ela desceu do carro e se aproximou de Lucia deu pra sentir a tensão no ar. Eram amigas sim, mas havia ali uma certa competição. Era como ver uma leoa entrar no território de outra leoa. Não sei explicar. Mas fiquei com a impressão de que naquele momento, em que se abraçaram, tinha haver com aquela imagem das leoas se rodeando, se reconhecendo, onde se define quem é quem dentro território.

Eu devia ir embora nesse dia, mas achei melhor ficar, porque as meninas chegavam, e no outro dia chegaria mais um amigo, de Nacala. Foi o primeiro chute no balde nessa viagem. Ou pelo menos o primeiro com bons resultados. Ficar mais esses dias foi fechar com chave de ouro. Elas haviam trazido comida da Itália, sorvete, bolos, tudo! Ficamos comendo, cantando, conversando até tarde da noite.

Rodrigo chegou na manhã do outro dia. Havia dormido em Téte e pegou o primeiro carro para Chiúta. Rodrigo é brasileiro, cearense com sotaque e já estava indo embora para a Inglaterra.

Naquela tarde fomos todos a uma escola perto do projeto. Uma pequena vila ao redor e uma escolinha de duas salas.escola Lucia fazia isso desde que chegou. Levava papel e lapiz de cor para as crianças desenharem e depois servia um lanche, bolachas com refresco, algo assim. Não vou tentar descrever. Só vivendo aquele momento. Mas posso dizer que a alma estava mais leve depois de deixarmos a vila. despedida Enquanto nos afastávamos as crianças subiram nos telhados de algumas casas e nos davam adeus de longe, outras nos acompanharam até o riacho que separava a escola da vila.

A noite fizemos uma festinha. Com musica moçambicana dançamos passadas, depois forró, depois samba. E uma tarantela é claro!festinha

Acordamos cedo, as meninas iam para a cidade, eu e Rodrigo iríamos embora e Lucia ficava no projeto. Era a segunda vez que lhe dava adeus e não foi mais fácil que a primeira. Lucia foi uma força inspiradora, o trabalho dela me motivou muito. É uma amiga que somente o Tao sabe quando iremos nos encontrar novamente.

Partimos com lagrimas nos olhos. No caminho, Rodrigo me diz que Laura, de Chimoio, estava vindo e que juntos eles iriam para o Malawi. Eu perguntei se ele tinha visto, disse que não. E me convidou a ir com eles. E pedi um tempo para pensar.

Quando chegamos na cidade corremos a agencia da LAM, Linhas Áreas Moçambicanas. Onde a meninas trocaram suas passagens. Voltamos e paramos para o café da manha numa padaria, Esperança. Nome perfeito! Sai com Federica para trocar dólares por meticais. Consegui um bom preço no mercado negro, 28 meticais por cada dólar.

No caminho de volta ela segura meu braço e diz que gostaria de meu e-mail, “a gente nunca sabe o que o amanhã pode trazer!” foi o motivo para o pedido. Trocamos endereços de e-mail. Mais tarde pedi a Érika também. Quando chegamos de volta, tinham mudado de restaurante e estavam no mesmo que comi no primeiro dia. A conversa ia animada com um senhor de seus quase 70 acredito, grego, morou no Brasil, jogou bola com o Pelé, e conversava em fluente com as três meninas italianas e em ótimo português comigo e Rodrigo. Foi ali que dei o segundo chute no balde e decidir ir com Rodrigo e Laura. Não tinha um visto, mas agora tinha compania, e mandar três embora seria mais complicado que mandar só um. Decidi ir. Na despedida das meninas recitei para elas o ultimo verso do soneto “Duas Almas” de Alceu Wamosy que diz:

 

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:

Há de ficar comigo uma saudade tua…

Hás de levar contigo uma saudade minha…

 

Deixamos as meninas na cidade e fomos embora. Atravessamos a ponte mais uma vez e num golpe de sorte depois de pedir carona por uns 30 minutos, um ônibus direto até Blantyre. Era um ônibus azul, com o formato daqueles amarelos de escola que aparecem nos filmes. Dentro a língua já era o inglês. Um cara gordo, com uma voz alta e grave e com um rosto me lembrando o cara de “A espera de um Milagre!”, saca? Era o cobrador. Compramos a passagem até a fronteira, pois não tínhamos certeza se iríamos passar ou não. O ônibus balançava bastante e à medida que subia a estrada ia ficando mais frio e isso foi nos adormecendo.

Chegamos a fronteira. Para sair de Moçambique nenhum problema. Pessoas tentando vender dinheiro malawiano ou cartões de telefone celular. Atravessamos. Estávamos agora naquela terra de ninguém entre um país e o outro. Quando chegamos na fronteira do Malawi a coisa já se mostrava diferente. Mais limpo, maior, mais organizado. Havia uma fila para as pessoas lavarem as mãos antes de entrar na recepção e lavar os pés com água sanitária. Laura foi primeiro, com o passaporte da união européia só precisou carimbar a entrada no país. Quando chegou a vez de Rodrigo e eu, os brasileiros tiveram muito problema. Os agentes da alfândega não queriam deixar-nos entrar. E ficou naquele, espera um pouco, senta ali, vem aqui, me mostra tal documento, me mostra tal coisa, até que alguém fez a pergunta mágica. “E como é que a gente pode resolver isso?”. O agente pediu 500 meticais. Poucos segundos depois de pagarmos, o chefe da alfândega chegou e perguntou o que acontecia. Explicamos tudo, ele nos deu uma autorização de 48 para irmos até Blantyre, tirar o visto na embaixada. Isso demorou mais de duas horas. Perdemos o ônibus e tivemos que conseguir uma carona. Sorte novamente. Um jovem empresário estava indo para lá, numa camionete cabine dupla e com ar-condicionado. Lá fomos nós e uma hora e meia chegávamos à cidade. Procuramos por um hotel, eo guia de mochileiro de Rodrigo indicava um lugar chamado Doogles.

Fomo para lá. Com alguns brancos e um bar legal, o hotel era com toda certeza a melhor opção. Quartos coletivos para mochileiros custavam apenas o equivalente 16 reais. Água quente no chuveiro, cerveja carlsberg, comida mexicana. Maravilhoso! Esravamos no Malawi. Tínhamos entrado, só faltava o visto, mas isso ficava para amanha. Hoje era dia de festejar!