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The Only Days

Publicado: 14 de janeiro de 2011 em Sem Categoria

Nostalgia

Publicado: 12 de dezembro de 2010 em Sem Categoria
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por do sol em coimbra

Nostalgia. Uma saudade bem especifica. Lembro das coisas que se passaram a tantos anos. Tantos anos. Lembro da rua, da calçada, daquele buraco no poste de luz, de onde às vezes saíam abelhas. Olho para a cicatriz no meu pulso e lembro-me do exato momento, perdido nos anos, mas único e inesquecível em que cortei o braço correndo na rua. Quantos anos? Não lembro.
A cor da minha casa. A telha solta que indicava onde entrar pelo teto. A antena de alumínio que tinha que girar. O pé de goiaba, a amoreira de onde minha mãe tirava varinhas pra me bater, ou ameaçar pelo menos. As corridas, a sujeira no pescoço, os socos, os chutes, as pedras. A palha de arroz… tantos anos! Quantos? Não lembro.
Ainda hoje conto essas histórias. Quem sabe o que delas ainda é verdade? Minha memória diz que sim, mas sei que aqui e ali um ponto e uma vírgula mudaram no decorrer dos anos para adocicar a lembrança. E aqui, olhando para o passado, começo a pensar que “nos meus anos” as crianças eram mais simples, as ambições menores e o futuro mais simples. Talvez seja só minha opinião. Será? Não sei.
Gosto de lembrar essas coisas. Gosto de olhar prá trás e procurar um pequeno detalhes que mudou o rumo da conversa e mudou o fim da história. Me parece certo tirar idéias, lições, aprendizados do que passou. Quanto mais você puxa o elástico, mais longe vai a pedra, li há muito tempo, não sei aonde, não sei de quem. E talvez seja pretensão minha, só talvez, observar essa geração que já faz revival dos anos 90, e concluir que já não se puxa o elástico tanto assim.
Nessas lembranças estão minha mãe e suas lições. Sua vida toda uma lição. Meu pai, como eu, apenas humano, mas ainda assim tanta coisa. Meu irmão, minha irmã, meus irmãos. Família. Tomei decisões e assumi posturas e responsabilidades que me levaram a caminhar no escuro, caminhar sozinho. É fácil, e até lugar comum, ficar perdido e desesperado de vez em quando. E o poder mágico da memória é saber que há ali, um alicerce sobre você se ergueu e que mesmo agora, tão longe no tempo e espaço, ainda lhe segura e, se for o caso, guia.
Meus amigos, minhas amigas, meus inimigos. Acho que é a primeira vez que admito meus inimigos. Mas estão ali, nas memórias, as discussões, as brigas, a corrida pela vantagem. Hoje posso sorrir da competição por amigos, popularidade, “moral”. Mas naqueles anos quão importante era ser aceito, ser respeitado! E valia qualquer coisa. Hoje é um sorriso. E amigos! Tantos! Lembro dos nomes de crianças de 6 anos de idade. Lembro dos desenhos, das brincadeiras, das musicas. Dos cadernos. Das perguntas das respostas. Hoje, vivo me empurrando para frente. Meus amigos esperam mais de mim do que eu mesmo. São capazes de ver coisas que não posso, e como se me conhecem mais do que eu mesmo sou capaz, me ajudam quando preciso e me deixam voar sozinho quando é o momento. Não lhes peço, não preciso, eles sabem e tudo acontece com fluidez.
A verdade é que o passado responde-nos quando perguntamos quem somos. Felizes aqueles que podem sorrir com a resposta.

Em Coimbra já… parte II

Publicado: 3 de setembro de 2010 em Sem Categoria

continuando a saga, chego à Itália…

Pandino (Milão)

A viagem do norte da Alemanha para o norte da Itália me levou a cruzar a Suíça de trem. Acordei de manhã bem cedo em Bassel. Fazia frio e eu tinha vaga idéia de onde estava. Na estação de trem onde esperava pela conexão percebi pessoas falando francês, alemão, italiano e espanhol. Pelo noticiário que passava percebi que estava no país neutro. Dali para a Itália foi a viagem de trem com a vista mais impressionante que já fiz. Os tão falados Alpes só fazem sentido vendo-os com os próprios olhos, ao vivo, e perceber o tamanho real das montanhas, sua magnitude e então se sentir pequenino em frente àquela grandiosa obra da natureza. Os Alpes impressionam. Faz muito sentido que um país portador de tamanha beleza, de tamanho colosso, tenha adotado uma postura neutra em todas as guerras.

A seguir vem a parte Italiana dos Alpes e dezenas de pequenas cidades ao redor de imensos lagos. Já é meio do ano e ainda há muita neve sobre os picos.

Chego em Milão pela manhã, algo por volta de 10 da manhã. A estação de trem é por si só um monumento e enquanto procuro o terminal de metro aproveito para olhar ao redor. Encontro o metro e diferente dos que tinha visto até então na Alemanha e na França, este aqui tem sim catracas de cobrança, e finalmente começo a ver pedintes. Aqui na Itália são norte-africanos (nigerianos, marroquinos), outros do leste europeu e os “ciganos”.

Apanho o metro, até a estação final e de lá, descubro, tenho que apanhar um ônibus por 2,70 euros, o taxista queria 70 euros, até a casa de Lucia, em Pandino. Uma hora, pouco menos de estrada até lá, com uma boa dezena de prostitutas pelo caminho. Elas estão por toda parte e ao contrário de que muitos pensam, ao menos aos meus olhos, não são brasileiras.

Pandino é uma vila pequena, povoado dizem por aqui. Mas tem ali o seu castelo e sua cadetral e fica ao meio caminho. Daqui Milão, Verona, Veneza, Bérgamo e os Alpes estão todos há de uma há algumas horas de viagem.

De lá caminho por uma meia hora até encontrar a casa. A mãe e o pai de Lucia me recebem com muito bom humor e vendo meu estado deplorável me oferecem uma ducha, comida e cama e logo estou dormindo. Quando Lucia por fim retorna, me encontra abraçado ao travesseiro.

De Pandino fui a Milão, sua catedral é fantástica. Muitos parques, muitos arcos, castelos, fontes, misturados a um ar moderno e de moda. É como andar numa passarela. Brasileiros são fáceis de encontrar e por acidente acabei num restaurante brasileiro, onde serviam X-Tudo, não pude evitar.

Fui também a Bérgamo. A parte alta da cidade é medieval em essência. O vinho é da região, o queijo, o salame. Tudo tradicional, do modo de fazer ao modo de comer. A cidade tem também uma cadetral, e isso seria a maior aventura de um fotografo na Itália, tentar fotografar todas as igrejas do pais, são certamente milhares. Nesta, em Bérgamo, aconteceia um casamento e pelo idioma que falavam de um casal alemão, mas poderia ser suíço. Vale muito a caminhada pela cidade e em vários ponto existem mirantes em todas as direções. Os Alpes são visíveis dali, assim como uma sombra ao longe onde fica Milão.

Fui a Verona, clássica cidade dos amantes e da historia de Romeu e Julieta. A casa de Julieta, controversa, tem milhares de dezenas de mensagem escritas nas paredes, em bilhetes colados por toda a parte. A lenda diz que se esfregar o seio direito da estatua de Julieta encontrara um novo amor. Lógico que não deixei essa oportunidade escapar! Há por aqui uma praça dedicada a Dante Alighieri, nela um trio feminino tocava com flauta doce, violino e violão clássico, temas medievais. Encantandor.

Aqui, nos pequenos vilarejos italianos, como Pandino, há uma tradição interessante. A cada cinco anos, todas as pessoas nascidas no mesmo ano se encontram para celebrarem uma noite juntos. Coincidentemente na semana que estava lá era a semanada festa de Lucia e sua “classe”. Todos se encontram no café do vilarejo, apanham um ônibus alugado e se dirigem a um Buffet de festas. O Buffet não era reservado para essa festa, mas várias. Noivados, aniversários, despedidas de solteiros, formaturas, etc. Todas as festas num só local, todos celebrando no mesmo momento. Quando por fim voltamos pra casa, já era dia.

A Itália fez lembrar-me de casa. Amizades fáceis, sorrisos, hospitalidade. E a cozinha! Há tanta coisa! Itália, Itália, vale muito a pena. E nem falei de futebol!

Ficaram no passado, geografico e temporal, Berlin, Straburgo, Hamburgo, Milão e Bilbao. Não pude, não deu tempo, não consegui acompanhar a viagem e escrever, fazer vídeos e tirar todas as fotos que queria. Com tantas imagens passando, com tantas coisas acontecendo, com tantas pessoas para conhecer, andar com a câmera sempre à mão me pareceu um pouco estúpido, sem sentido e incomodo. E na ânsia de não ser só um turista, mas sim de viver como se vive lá ou cá, as fotos e vídeos ficaram para trás. Mas o que passou? Onde passou (ou passei)? Desde o principio foi assim…

Berlin.

Carlos, meu amigo cuiabano morando em Berlin, me deixou bem claro que eu não veria nenhum ponto turístico. E assim foi. Nos dias que passei lá, via ao longe a famosa torre de TV, mas nada alem disso. Da janela do metrô vi, uma ou duas vezes o muro de Berlin. Mas fez falta? Na verdade quando comecei essa viagem não queria realmente visitar os pontos turísticos. Não penso que isso seja realmente conhecer um lugar, sua cultura e sua gente. Saindo todas as noites, andando nas ruas, de clube em clube, comendo e bebendo onde comem a gente, ah sim, isso sim me mostra como é estar lá. E Berlin, mais do que qualquer outro lugar na Europa te dá sempre um lugar para ir. Há uma mistura enorme de gente. Tal como Roma séculos atrás, Berlin hoje é o centro da Europa. Todos os caminhos, hoje, levam para lá. E isso se reflete nas opções de clubes, bares, restaurantes e musica. À pé, de bicicleta ou metrô você pode em minutos passar do reggae ao eletrônico, do folk ao metal, assim, quase que num passe mágica.

Talvez minha maior surpresa, mais do que a diversidade de culturas presentes, tenha sido a personalidade dos alemães que tive oportunidade de conhecer, e o comportamento geral que pude observar. A imagem de um povo de comportamento restrito, quase calculado e fechado, não se enquadrava no que via. É fácil encontrar alemães ostentando extensos e densos cabelos rastafári. Um senso de moda bastante particular, individual, que dificultava um pouco definir tribos urbanas. Também a idéia, que eu tinha, de um povo recatado e não dado a interação caiu por terra. Especialmente no que se refere ao eterno teatro entre “homens e mulheres” os berlinenses me surpreenderam. As meninas, incrivelmente lindas e numa quantidade estonteante, vêm e vão a seu bel prazer. Dançam contigo, te abraçam, te beijam e assim como chegaram, se vão. Sem nomes, telefones ou qualquer outra referencia. Aconteceu aqui, agora e é pouco provável que vá acontecer novamente. Portanto, aproveite, e muito!

Em Berlin não perca o Yaam, Bar 25, Havanna e o Berghain. E não se furte de comer um Kebab, simplesmente a melhor comida por 3 euros.

É uma cidade que assusta pelo clima generalizado de País das Maravilhas misturado com Terra do Nunca. Tive que sair correndo de lá, poderia ter ficado preso. Há sempre um chamado nas ruas…

Estrasburgo

É uma pequena cidade no interior da França, na borda com a Alemanha. Durante todos os períodos de guerras entre as duas nações a cidade era simplesmente anexada ao território alemão. Como resultado muitas ruas e praças e outras localidades na cidade tem placas de sinalização nos dois idiomas. Em alguns casos, os nomes em alemão estão escritos, rabiscados, à mão. Uma história interessante é a de uma rua que se chamava Le Savage, por ocasião da II Grande Guerra, um cidadão francês foi recrutado pelos soldados alemães com a tarefa de traduzir os nomes das ruas e praças. Pois bem, chegando à rua Le Savage, o tradutor, num ato considerado de heróica resistência, traduziu Le Savage por Rua de Hitler, e assim permaneceu até os dias de hoje o sinal com os dois nomes.

Foi como sair de uma discoteca e chegar na paz do seu quarto. Estrasburgo é calma e tranqüila como toda boa cidade do interior o é. A cidade é cortada por um canal que proporciona para os turistas uma rota de passeio por barcas que levam centenas deles em city-tours.

A cidade vive no presente, mas respira no passado. O metrô de superfície, que também não se paga, me levou ao centro da cidade. Lá, o ar 800 anos ainda circula. Caminhei pelas ruas encantado com isso. Numa das praças está instalado um carrossel, pelas imagens vê-se que é da primeira metade do século passado, mas perfeitamente conservado, apenas contribuindo com aquele ar nostálgico. Caminhando ali e olhando as casas, as pessoas e lojas, não se tem exata noção de onde esta até virar a esquerda depois do carrossel. A catedral, também de Notre Damme, erguesse imponente ao fim da rua. Ao tocar as paredes quase pude ouvir as vozes de 800 anos atrás que erguiam essa obra.

Estrasburgo é uma cidade do interior, com todo o clima de cidade do interior e vale a pena por lhe trazer todo esse bucolismo em cada fôlego que se toma.

Hamburgo

Hamburgo é uma cidade portuária. Nasceu e cresceu assim. Extremamente conservada, seus prédios antigos ainda sustentam a elegância e imponência de quando foram construídos. Por ter essa característica mercante a cidade acolhe diferentes culturas, diferentes povos e costumes. Mas ser brasileiro nessa parte da Europa é fantástico e quanto mais ao norte se vai, mas o fator Brasil facilita a sua vida.

Desembarquei na estação Central e demorou bastante até que encontrasse Julia (Yulia), minha anfitriã e amiga especial que conheci ainda nos EUA. Ela me recebe com sua costumeira cor azul turquesa, cheia de sorriso, olhos verdes e um beijo.

De lá tomamos um metrô, ou metrô de superfície, até sua casa numa pequena cidade contigua à Hamburgo. Ao chegarmos a casa, e isso foi uma parte interessante de conhecer uma casa de família alemã, comecei a perceber a diferença de costumes. A começar pelo fato de, embora esperasse passar as noites num colchão na sala ou algo similar, tínhamos uma cama de casal no chão do quarto dela. Enquanto eu olhava aquilo ainda embasbacado, sua mãe me perguntava se estaria confortável ali.

Hamburgo tem muitos lagos, os quais nessa época do ano, maio a julho, são bem visitados por banhistas e é outro momento que fator Brasil entra em campo. Basta ter um dourado na pele e você já se destaca, mas aqui, num bom sentido. Há uma cultura de esportes por aqui e muitas pessoas correm ao redor dos lagos, nadam ou simplesmente fazem exercícios no gramado. E bicicleta, todo mundo tem uma e vai a toda parte com ela.

Há também um bairro chamado Keis (quis) que é um tipo de Distrito Vermelho. São centenas de bares, streap-clubs, sex-shops, pubs, clubs e tudo o que a sua mente insana possa imaginar acontece ali. Há algumas dezenas de prostitutas nas ruas, mas a juventude em massa da cidade freqüenta esse espaço de sexta até domingo é esse o lugar para vir à noite. Das ruas de pode ver as mulheres semi-nuas dançando nos palcos dos clubes de streap, mas além disso há uma rua fechada para mulheres, só os homens podem entrar e, tal como o Distrito Vermelho de Amsterdam, aqui as mulheres estão dispostas em vitrines e você pode passar e escolher aquela que mais lhe agradar. Falam no mínimo quatro idiomas e vão da beleza clássica ao quase bizarro e em média 50 euros por hora. Simplesmente fantástico.

Hamburgo tem boas universidades e encontrei brasileiros fazendo um programa de intercambio chamado Erasmus. Visitando essas universidades, fica a dica, aproveite para almoçar, jantar ou sei lá. A comida é de primeira qualidade e custa bem pouco. Um almoço sai mais barato que um Kebab na rua.

Hamburgo foi excelente. Muito divertido e as pessoas me trataram muito bem. Mas os detalhes são muitos, não cabem aqui. Despedi-me de Julia e Tina na mesma estação de trem que cheguei. Enquanto o trem partia, eu pensava “isso nunca aconteceria comigo no Brasil!”

Berlin 72 horas – parte I

Publicado: 1 de junho de 2010 em Sem Categoria

São sete da manhã quando eu piso na Europa pela primeira vez. Pela janela do avião o que eu via era uma planície sem grandes relevos, muita água de rios que se encontravam com o mar e grandes campos coloridos com diferentes culturas ou período de plantação.

O agente de emigração parece com sono, definitivamente sou a primeira pessoa que ele fala nesse dia. Há problemas na máquina de scanner e ele demorar para finalmente me perguntar “qual o motivo de sua viagem”, digo férias, ele pergunta se tenho cartões de crédito ao que digo que sim. Pronto. “O senhor é muito bem-vindo à Europa”.

Mais algumas horas, outro vôo e por fim chego à Berlin. São onze e meia da manhã, mas meu relógio mostra cinco e meia da matina. Não tenho sono, no entanto. Espero a mochila, e quando estou quase saindo pelo portão de segurança outro agente de emigração pede para falar comigo. Pergunta o que venho fazer, se o violão é meu e me deseja boas-vindas.

Eu já tinha visto Carlinhos me esperando antes do guarda me parar. Carlinhos não envelhece. Com cabelos curtos e óculos escuro, tem o mesmo rosto jovem de 6 anos atrás, mas um ar confiante e um peito estufado que não recordava de ter visto antes.

Pegamos o ônibus, gasto minhas primeiras moedas de euro, e em seguida o metrô. É costume não pagar o metrô e assim vamos nós também. Berlin é grande, não cheia de arranha-céus como as cidades americanas, mas espalhada, elegante e a impressão que se tem pelo o que se vê nas calçadas é de uma cidade cosmopolita, multicultural e multi-étnica. Pessoas de todos os cantos do mundo vão de um lado para outro nas ruas. E no bairro onde ficamos essa sensação é ainda mais intensa.

Deixamos as coisas no apartamento, e saímos para comer. A comida mais popular aqui, ao contrário do que se espera não é a famosa salsicha com molho e sim o kebabs dos turcos e kurdos que moram em abundancia na cidade. Optamos pelo kebab. Diferente dos servidos no Brasil, esse aqui parece um grande sanduiche e sai por 2 ou 3 euros.

Voltamos para casa, e no caminho percebo que Carlinhos é mais conhecido com moeda de um centavo. Para aqui, para ali, fala com um e com outro. Mas estou ainda impressionado demais para conseguir conversar, e nem meu inglês e nem meu espanhol saem direito da minha boca. Mas as pessoas são muito amistosas nessa área da cidade.

Quando chegamos em casa, vou dormir. Meu anfitrião me acorda dizendo que já são 5 da tarde e que devemos sair. Olho o meu relógio que me diz que são 11 da manhã e vamos. É o Karneval der Kulturen e eu não estava preparado para o que vinha pela frente. Logo de cara chegamos num palco onde Salsa era tocada ao vivo e centenas de pessoas dançavam animadas. E com muita habilidade dublas dançavam fazendo performances dignas de um “dancing with the stars”! continuamos caminhando passamos pelo parque, onde dezenas de pequenos artistas faziam suas apresentações. Malabaristas, dançarinos, cantores, de tudo um pouco, e muita, muita gente. Seguramente mais de meio milhão de pessoas circulavam. Diferente dos EUA, aqui você pode beber na rua, e o preconceito contra a maconha é tão nulo que se fuma ao mesmo tempo em que conversa com qualquer um na rua.

Encontramos brasileiros ali, aqui e mais amigos de Carlinhos. Uma portuguesa chamada Josefina, Joe para todos, e um peruano que esqueci o nome. Vamos para o palco de musica latina e, com uma garrafa de rum e coca-cola, vamos entrando no clima da festa. Vamos bebendo, comendo, rindo e dançando e quando a música acaba aqui, nos dirigimos o Havana Club, a barraca de um bar local que como o nome bem indica é especializado em Salsa. Perto da meia noite, embora meu relógio continue dizendo seis da noite, vamos a outro clube. O carnaval de rua está acabando por hoje, mas a festa continue nas dezenas de clubes pela cidade.

Passamos num clube de musica russa. Para chegar lá são uns seis ou sete lances de escada e estou sem ar quando chego no ultimo degrau. Fico por ali mesmo. Duas meninas alemãs estão ali já e começamos a conversar em inglês alimentado pelo rum. Conversa vai e vem e por fim peço o telefone delas pois o grupo já tinha decidido ir para outro canto. E assim vamos.

Caminhando pela rua alguns dos amigos de Carlinhos já estão ficando pelo caminho. E quando decidimos o destino final da noite, apenas três guerreiros se apresentam, sendo eu e Carlos dois deles.

Yaam. Se musica eletrônica não é o seu forte não se preocupe. Embora a Alemanha seja a terra da musica eletrônica, há dezenas de bares espalhados pela cidade com temáticas as mais diversas possíveis. Yaam é um clube especializado em reggae music. Absolutamente extasiante! A música toca alto e vibra no seu peito e as pessoas, todos vindos do carnaval e outras baladas, bulam e dançam e se deixam levar pelo batida. Hoje a noite não é reggae e sim mais um hip-hop, mesmo assim não há do que reclamar. Para qualquer lado que se olhe um menina linda, seja negra, loira, turca, latina está dançando e suando a alma. A única que se pode fazer é também se deixar levar pela mágica.

Quando saímos, meu relógio marca 11 da noite, já esta claro lá fora e o relógio da estação de metrô marca 5 da manhã. Estou morto e destruído. Quando chegamos em casa Carlos diz, “descanse bastante, hoje a gente vai sair mais cedo para o carnaval!” Aff!

Out in Asheville

Publicado: 2 de fevereiro de 2010 em Sem Categoria

É quarta-feira a noite e Mike, 43 anos, pai de dois mas solteiro, tem seu telefone chamando a cada 10 minutos. OK, ele recebe muitas ligações do trabalho que realiza, mas essa noite, todas as noites, são na maioria ligações de meninas/mulheres que o convindam para esse ou aquele programa. Nessa quarta ele se prepara para sair com Sheina. Roupa limpa, barba feita, loção e tudo o mais. Até que ela liga e cancela tudo…

Mike entra num estado de frustração e desespero que chega a ser engraçado. “Hey man, I need to get out of here! Let’s go out tonight, huh? What you say?”. E eu digo “hell yeah! Let’s do it!”. É minha folga no dia seguinte, sem problemas então. É noite de chutar o balde!

Mo’s Daddy é o bar com musica ao vivo onde vamos. Samantha veio junto e Mike está dirigindo um caminhão de médio porte que ele usa na construção onde trabalha. Estou rindo de rachar. Mike é uma das melhores pessoas que conheci. Mas faz pensar em quão distorcida é essa imagem que temos da vida, de que ela, aos 30, aos 40, deveria já estar assim, formatada. Uma casa, filhos, familia, emprego e rotina. Não digo aqui que a rotina seja por ela mesma, ruim. Para muitos rotina significa segurança, para alguns é até uma necessaria medida de ordem. Mas ver Mike passando por entre as pessoas no bar, e cumprimentando a muitos e sendo cumprimentado, pessoas dizendo “Hey man, what pleasure to see you here!”, me faz realizar que ainda há muito tempo, e que querer colocar tudo numa caixa é besteira. É bom, reconfortante sentir que estamos entre amigos, e é a primeira vez que sinto, em solo americano, que todos se gostam.

A banda que toca se chama Ralph, ou esse o nome do cara que canta, não percebi. É uma boa mistura de rock balada com um toque cowntry music e soul music, não sei, está bem balanceado e toma conta do hambiente. A muita gente dançando, muitas meninas, há mais meninas que homens. É a primeira vez que vejo gringos dançando de forma tão natural. Não é como numa disco, ou outro tipo de festa. Estão livres, são livres. As roupas são outras, as maneiras, os sorrisos. É fácil se apaixonar aqui!

Deixamos o palco e vamos ao bar. Mike diz que a rodada é dele, e eu chamo meu amigo Jack para animar minha noite e ele não me desaponta. Voltamos ao palco. A banda tem um violão, um violino, um outro instrumento de seis cordas que não sei qual é e o baterista. Um vocal masculino e um feminino. O tom está perfeito e a musica nos leva facilmente. As pessoas conhecem as letras e cantam juntos, dançam, rodopiam, pulam, suam, se tocam e se abraçam. Alguns casais se beijam. Todos se amam. E estou em casa!

Mike me apresenta Heder, uma amiga, da amiga da namorada oficial dele! Ela é linda, cabelos negros, na altura do queixo, com uns olhos, ah uns olhos de ressaca. Ela está um pouco bebada e completamente fumada e seus olhos semi-abertos me encantam profundamente. Ela dança solta, louca, rodopiante, sem parar. Logo percebo que nada vai se passar, mas apenas olhar aquele espetáculo despretencioso me deixa feliz. Com meu copo de Jack e com um pouco de swing latino, deixo a noite correr solta, sem expectativas! É lindo estar alí.

Saimos para fumar, eu e Mike. Uma pessoa se aproxima, e por um momento penso que um mendigo. “Hey Mike, how are you brotha?”. É mais um conhecido/amigo de Mike. “Hey Jorge, qual é o nome que voce está usando agora?” pergunta Mike. “Eu tenho muitos nomes. Meus filhos me chamam ‘PaPa’ e você também pode me chamar assim se quiser!”.

Voltamos para dentro. Duas lindas meninas estão no palco. Uma canta e toca o violão, outra toca banjo e faz a segunda voz. Divino! É suave e vivo, é belo e envolvente. Sem perceber estou me movendo numa espécie dança que não me atreveria a descrever e nem a repedir em outro lugar! O cara do violino volta a tocar com elas e tudo fica ainda melhor. Encantado vejo as duas decerem do palco e já não me surpreendo quando elas veem falar com Mike.

A noite no bar se caminha para o fechamento e nós começamos a planejar o que vem depois. Mike conversa ali e aqui com varias pessoas. Parece que vai haver uma festa na casa de alguém. Ele  Heder, mas era claro que ela declinaria. Porém outras pessoas topam.

Subimos no caminhão e vamos outra vez…

São quase cinco da tarde quando passo pela placa de boas vindas ao estado do Tenesse. Mais de dez horas depois de cruzar a fronteira entre Massachusetts e o estado de Nova York chego ao estado que a casa de um grande amigo meu, Jack Daniel’s. Atravessando Pensilvânia, Maryland, West Virginia, Virginia, e depois de mais algumas horas chego à Carolina do Norte, destino final dessa viagem de 14 horas de volante e pé na estrada.

No carro estão Shermel e Samantha, norte americanas, e Leila, sul coreana. Estamos fugindo. Fugindo da Montanha, fugindo do frio e da neve, fugindo da dor do adeus para aqueles que vão para a África. Estamos fugindo e em toda fuga, não se pensa muito, apenas vamos.

À medida que avançamos ao sul a paisagem muda, a neve fica para trás, o frio também. Ah, mas a saudade está ali, no rosto de Leila, sempre que olho no retrovisor, uma lagrima é testemunha fiel de que ainda vai levar alguns dias para esquecer o adeus na porta da casa dos voluntários. Mas é assim quando se decide pela vida de mochileiro/voluntário/viajante/impermanente. Saberá alguém medir até aonde deixar os laços se estreitarem para não sofrer na partida? Acredito que não. Colocamos o coração em cada amizade transeunte que fazemos, em cada amor passageiro que vivemos e a intensidade destes, não é menor do que daqueles que deixamos no que outrora chamávamos de lar. Com a memória ainda viva, olho para trás, para os “adeuses” que dei e recebi; cada um com sua dor. Lembro das lagrimas, algumas tão alegres que se confundiam no sorriso, outras nem tanto.

Chegando à Carolina do Norte uma cadeia de montes e montanhas no recebem de cara feia. Chove, mas já sentia saudades da chuva e assim paro o carro num mirante para olhar as montanhas e me molhar na chuva fria. É bom estar na estrada novamente. Cada vez que vejo algo, alguém, e uma novidade. E olhos transbordam de êxtase inundados de novas paisagens e pessoas. Toda vez que penso em voltar para casa, me pergunto o que colocaria no lugar desse prazer de ver o novo, de viver o novo. Talvez caísse numa nada produtiva busca de novos prazeres, talvez alguns nada construtivos. E assim olho para o futuro próximo e procuro portas que digam “bem-vindos viajantes insaciáveis!”.

Chegamos à Asheville, chove muito. A cidade parece triste e encolhida. Há muitas sombras e cada esquina parece tão ameaçadora que as meninas começam a se arrepender da escolha do local de fundraising. Em meio à água e às sombras seguimos as direções na folha de papel que nos levam até à casa onde passaremos a noite e o resto da semana. No escuro a casa parece assustadora, há moto-serras por toda parte, coisas espalhadas pelo chão ao redor de todo o lugar. Mais tarde vou saber, são memórias no chão, na parede, nas estantes, no teto. Algumas bem mais antigas que a própria casa, ou que Mike, nosso anfitrião.

Mike nos recebe com grande sorriso, abraço e um forte sotaque sulista. E me perdoem aqui os sulistas brasileiros, aqui, ao contrario de lá, quando mais vamos ao sul, mas amigáveis são as pessoas. Logo estamos em casa. Seu casal de filhos o está visitando. Um menino de treze anos, que toca violão e teclados, e uma menina de onze que pinta quadros. Coincidência ou não, são todos piscianos. Derramamos as nossas bagagens pela casa e logo, pouco depois de uma rodada de sanduiches de salada de frango, estou me esforçando muito para acompanhar Mike e seu filho num Jam Sesion. São as musicas dele, e as uma vez ou outra, uma minha, outra venezuelana e assim, passamos do frio nortista, para o calor aconchegante do sul.