Arquivo de janeiro, 2010

São quase cinco da tarde quando passo pela placa de boas vindas ao estado do Tenesse. Mais de dez horas depois de cruzar a fronteira entre Massachusetts e o estado de Nova York chego ao estado que a casa de um grande amigo meu, Jack Daniel’s. Atravessando Pensilvânia, Maryland, West Virginia, Virginia, e depois de mais algumas horas chego à Carolina do Norte, destino final dessa viagem de 14 horas de volante e pé na estrada.

No carro estão Shermel e Samantha, norte americanas, e Leila, sul coreana. Estamos fugindo. Fugindo da Montanha, fugindo do frio e da neve, fugindo da dor do adeus para aqueles que vão para a África. Estamos fugindo e em toda fuga, não se pensa muito, apenas vamos.

À medida que avançamos ao sul a paisagem muda, a neve fica para trás, o frio também. Ah, mas a saudade está ali, no rosto de Leila, sempre que olho no retrovisor, uma lagrima é testemunha fiel de que ainda vai levar alguns dias para esquecer o adeus na porta da casa dos voluntários. Mas é assim quando se decide pela vida de mochileiro/voluntário/viajante/impermanente. Saberá alguém medir até aonde deixar os laços se estreitarem para não sofrer na partida? Acredito que não. Colocamos o coração em cada amizade transeunte que fazemos, em cada amor passageiro que vivemos e a intensidade destes, não é menor do que daqueles que deixamos no que outrora chamávamos de lar. Com a memória ainda viva, olho para trás, para os “adeuses” que dei e recebi; cada um com sua dor. Lembro das lagrimas, algumas tão alegres que se confundiam no sorriso, outras nem tanto.

Chegando à Carolina do Norte uma cadeia de montes e montanhas no recebem de cara feia. Chove, mas já sentia saudades da chuva e assim paro o carro num mirante para olhar as montanhas e me molhar na chuva fria. É bom estar na estrada novamente. Cada vez que vejo algo, alguém, e uma novidade. E olhos transbordam de êxtase inundados de novas paisagens e pessoas. Toda vez que penso em voltar para casa, me pergunto o que colocaria no lugar desse prazer de ver o novo, de viver o novo. Talvez caísse numa nada produtiva busca de novos prazeres, talvez alguns nada construtivos. E assim olho para o futuro próximo e procuro portas que digam “bem-vindos viajantes insaciáveis!”.

Chegamos à Asheville, chove muito. A cidade parece triste e encolhida. Há muitas sombras e cada esquina parece tão ameaçadora que as meninas começam a se arrepender da escolha do local de fundraising. Em meio à água e às sombras seguimos as direções na folha de papel que nos levam até à casa onde passaremos a noite e o resto da semana. No escuro a casa parece assustadora, há moto-serras por toda parte, coisas espalhadas pelo chão ao redor de todo o lugar. Mais tarde vou saber, são memórias no chão, na parede, nas estantes, no teto. Algumas bem mais antigas que a própria casa, ou que Mike, nosso anfitrião.

Mike nos recebe com grande sorriso, abraço e um forte sotaque sulista. E me perdoem aqui os sulistas brasileiros, aqui, ao contrario de lá, quando mais vamos ao sul, mas amigáveis são as pessoas. Logo estamos em casa. Seu casal de filhos o está visitando. Um menino de treze anos, que toca violão e teclados, e uma menina de onze que pinta quadros. Coincidência ou não, são todos piscianos. Derramamos as nossas bagagens pela casa e logo, pouco depois de uma rodada de sanduiches de salada de frango, estou me esforçando muito para acompanhar Mike e seu filho num Jam Sesion. São as musicas dele, e as uma vez ou outra, uma minha, outra venezuelana e assim, passamos do frio nortista, para o calor aconchegante do sul.

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