Arquivo de junho, 2009

Dia 18, meu ultimo dia em Cuiabá, cidade onde nasci e cresci. Minhas raízes estão lá, mas o vento balança minhas folhas em muitas direções. Me encontro com alguns amigos e sinto falta de alguns rostos, mas todos os corações estão ali, para mais uma vez me dar adeus, até logo! Eu os amo e a cada vez que posso vê-los, posso vê-los ainda mais. Além das cortinas, além do véu e de coração puro, com o ego vazio, digo a um que seus passos estão certos, digo a um que aceite mudar, digo a uma que vá devagar e a outra que procure se encontrar. Digo a um menino que ainda há muito por viver e a uma menina que o amar é saber esperar. Digo a uma moça que tudo acontece ao seu tempo e que o acaso nos guia. Ao meu pai digo que no caminho que escolhi, ando com os passos que ele me ensinou e digo aos meus irmãos que nunca lhes dei motivos para não se orgulharem da família.
É noite, dou até mais para aqueles corações generosos e entro no ônibus sorrindo e com 8 reais no bolso. Uma alma leve, um coração cheio e um bolso vazio.
São onze e quarenta da noite e o ônibus começa a se mover. Está frio e lento. Por algum motivo a idéia que o sonho da áfrica acabou volta a minha mente. Os lugares já serão os mesmos, ou serão as pessoas e o tempo suficientes para torná-los novos?
No ônibus não há jovens. Acho que sou o jovem aqui, a maioria já dorme, cobertos e com seus travesseiros. Eu vejo a cidade passar na janela devagar. Minha mente divaga. Quando voltarei aqui? Quem sentirá minha falta? O que deixei de fazer? O que fica para trás? O passado, o presente é o ônibus indo embora. Melancólico, durmo.
Acordo em Campo Grande, lembro dos amigos aqui, companheiros de viagens, companheiros de lutas. Tenho simpatia por este lugar e nunca entendi a rivalidade entre os dois estados. E me encantam as ruas largas e avenidas limpas da cidade. Não descemos e ficamos pouco tempo na rodoviária. Tomei um copo de café na próxima parada e na seguinte, por volta das uma e trinta da tarde, comprei uma esfiha e uma cream cracker. E guardo o troco para o metro quando em São Paulo.
Na viagem a tarde, olhando a paisagem do cerrado que sempre achei parecidas com as matas lá do outro lado. Pensando no numero enormes de pessoas que poderiam, me assusto com o pequeno numero das que realmente se doam ao próximo. E penso que a nossa pequena burguesia se acha mais perto da elite ao doar materialmente, o fato de dar dinheiro não lhes parece humilhante como lhes parece trabalhar gratuitamente. Na lógica capitalista lhes parece idiota trabalhar sem retorno, mas dar dinheiro aos pobres lhes afasta desse pesadelo e os aproxima do sonho burguês, assim pensam!
Continua…

violão e estrada

Publicado: 3 de junho de 2009 em Sem Categoria

na estrada sempre surge um momento prá tirar o violão da sacola…

dourados 01

dourados 02

dourados 03

dourados 04

Cuiabá 01

Cuiabá 02

todos pro buteco…

Publicado: 1 de junho de 2009 em Sem Categoria

Há uns meses criei um outro espaço virtual para trocar idéias com os amigos. O Dharma’s Pub é um blog de troca de idéias, opiniões, músicas, livros e afins. Leia, comente, recomende e faça seus pedidos, a despesa sempre é por conta da casa!

capa

de volta pra casa…

Publicado: 1 de junho de 2009 em Sem Categoria

Dia 01 de maio eu saía da áfrica rumo à minha casa. Deixava para trás amigos, laços, memórias, sentimentos, pessoas, lugares, coisas, momentos. Enquanto eu estava só, vivendo na remota região do Niassa, o desejo de ver e conversar com pessoas do mesmo contexto que eu, me fazia desejar voltar para casa. Mas ali, no momento de entrar no ônibus e sair de Maputo, já não estava tão certo de partir. E prometi a mim mesmo que iria voltar a pisar aquelas terras. Mais cedo ou mais tarde. As praias azuis de Nacala, o por do sol colorido de Téte, o frio aconchegante de Niassa, a urbanidade paradoxal de Maputo, as plantações de chá de Guroé. E posso ouvir, num fechar de olhos, todas as canções que costumava ouvir quando a luz se ia, as fogueiras se acendiam e as pessoas cantavam noite adentro nas suas pequenas casas de barro e palhas, nas suas vilas de sete ou oito casinhas iguais.

Quando me sentei ali, no final do corredor do avião, numa poltrona com janela, eu olhei por ela e de coração e com ele, dei adeus àquela terra, assim como disse olá, sentindo que ali era; de alguma forma, em algum tempo e de alguma maneira, minha casa, minha terra, meu berço. Acompanhei o solo atravessando verdes planícies, desertos, rochas, montes, areia e por fim, praias, o mar dançava lá embaixo.

Pisando em São Paulo, reencontrando amigos, revendo uma cidade, reconhecendo uma multidão. Estar no Brasil foi uma vontade contraditória durante os últimos meses. Isa, uma menina que era voluntária em Macuze me disse que “as pessoas têm medo de sair de casa, mas quem já saiu, tem mais medo de voltar!”. E estar novamente naquilo que já chamou de “seu” dá medo. Reencontrar os amigos preocupa. Abraçar sua família lhe aflige.

Tive crise de pânico, fiquei trancado no AP do Leandro e da Rosa, amigos que me receberam nesse período de “reassentamento”. Aos poucos fui caminhando pelo bairro, algumas quadras, depois mais longe e por fim, peguei o metrô. E São Paulo, com sua delicadeza peculiar me mostrou que já não estava entre aqueles rostos sorridentes, que não adiantava saudar as pessoas e que aquela inocência tinha ficado para trás. Ainda assim, São Paulo me chama, e se lá morasse, lá seria feliz.

Ainda não faltava chegar em casa. Fui para Campo Grande, depois Dourados, depois para o Paraguai e voltando mais uma vez Campo Grande, onde Kleomar e Fernanda me receberam como irmão, e só depois descobri que eu seria o irmão mais velho, bem mais velho. E de lá a ultima noite de viagem para Cuiabá. Onde nasci, mas que não ouso chamar de minha terra, já que nada é meu. eu

No reencontro com os amigos, um alívio. No abraço da família, uma paz! Estava em casa, em paz, tranqüilo, sereno. Vejo o por-do-sol da janela do quarto onde durmo e sei que não é o mesmo que via um mês atrás, e me lembro que cada um deles é único, e que lá, como cá há cores demais! Umas tristes, tantas alegres.

pôr do sol da universidade

pôr do sol da universidade