Arquivo de maio, 2009

21 dias… parte final.

Publicado: 7 de maio de 2009 em Sem Categoria

Acordamos cedo. Sete e meia chamei Rodrigo para irmos ao Emigration Headquarter. De dia deu para ver melhor o hotel. Piscina, mas estava muito frio para pensar em banho, havia também uma loja com artesanato logo ao lado da entrada do estacionamento. Eu não tinha visto tão diverso e tão colorido artesanato.
Saímos e a água da chuva que caiu durante a noite transformou a rua numa olaria. Mas há apenas uma quadra chegávamos ao asfalto. Mais cedo, enquanto esperava Rodrigo pedi informações sobre o caminho, não era longe. Saíamos do hotel, virando na primeira direita e à direita novamente. Seguindo por umas 6 quadras nessa rua, virando à esquerda no semáforo. Logo a direita fica o Emigration Headquarter.
Mas nesse caminho atravessávamos o centro comercial da cidade de Blantyre. Era uma cidade limpa, com carros tipo turismo, importados, de pessoas elegantes e bem vestidas. Havia muitos bancos, lojas de carro, prédios. Mas impressionava o pouco movimento. Uma cidade tão desenvolvida, mas vazia.dscf4707
Quando nos aproximamos do nosso destino encontramos um aglomerado de pessoas. Muitas pessoas dançando na rua. Alguns com o corpo todo pintado de branco. Havia algumas faixas, mas escritas em Shona, dialeto comum da região. Passamos por eles e chegando, entramos no pátio do prédio. Tudo estava vazio e a porta fechada. Nos aproximamos do salvador “guardinha” e perguntamos que horas iria abrir. Ele nos explicou que era feriado nacional, dia da Independência do Malawi! E então tudo fez sentido.
Fomos embora por outro caminho, encontramos então um mercado de artesanato enorme. Muitas esculturas, objetos decorativos e colares, e brincos e pulseiras de madeira, de metal, de pedra. Centenas de pinturas nas paredes, cores absolutamente estonteantes. Fomos cercados por todo tipo de objetos, os vendedores estendiam suas mãos cheias de colares. Meio agressivo, mas não violento. Conseguimos passar sem problemas. Paramos para um café. Pedimos o café logo que entramos. Uma menina indiana almoçava com uma menina ruiva, e uma senhora loira, muito branca e de olhos escuros tomava chá. Nos sentamos entre as duas mesas. Conversando planejamos o que fazer. Passar mais um dia no hotel era o que tinha que ser feito, mas, problema um, eu não tinha dinheiro, dois, não tinha como conseguir dinheiro até chegar a Moçambique novamente. Então resolvemos que mandaria um email para minha irmã no Brasil, usando a net do hotel. Ela depositaria o dinheiro na conta da mãe dele e ele poderia sacar com um cartão internacional.
Ao pagar o café descobrimos que cada expresso custava o equivalente a cinco reais! Meio estranho, mas era o preço na tabela. Nas ruas a cidade estava em festa, passava um desfile de bonecos e pessoas pintadas, cantando e dançando.dscf4692dscf4699 dscf4702Mas era curioso perceber que a festa de independência da colônia era comandada por uma dezena de brancos sorridentes.
Encontramos Laura no hotel e fomos passear na cidade, ver umas ruas e almoçar num restaurante etíope. dscf4704Nada demais e nem caro. 4 dolares pela comida e uma bebida. Dali fomos ao mercado, compramos algumas lembranças e voltamos para o hotel para dormir e descansar. Me parecia que depois de viajar balançando naquelas vans apertadas e quentes, dormir nunca seria suficiente para recuperar minhas costas e força.
Quando acordei estavam todos na sala de estar do hotel. Uma coreana, uma israelense, um casal australiano, um britânico, nós dois brasileiros e Laura italiana. Uma pequena aldeia global! E ficamos conversando até tarde ali. E então uma chuva torrencial caiu e foi nos deixando sonolentos e lá fui eu de volta pra cama.
Acordamos numa correria. Tínhamos que pegar os vistos, arrumar as malas e enquanto eles iam para o Parque Liwonde eu tinha que deixar o país. Os vistos foram rápidos e logo estávamos na rua correndo atrás de carros. Um policial muito engraçado nos parou, fez algumas perguntas e nos mostrou o caminho. É engraçado como os turistas são tratados de uma forma diferente aqui. Em Moçambique, desde que você fale português, é difícil que os vendedores e outras pessoas tentem de enganar para ganhar uma grana. No Malawi a coisa é outra. Se você não prestar atenção e não tiver uma percepção de valores vai acabar gastando mais do que devia.
No caminho para a fronteira, atravessando o país, vejo que existe grande diferença entre cá e lá. Não vi nenhuma casa de barro e com telhados de palha. São casas de tijolo exposto e telhados de chapas de zinco, mas casas! Portas e janelas com vidro. Toda a distância entre uma ponta e outra do Malawi é coberta por asfalto de boa qualidade. Em algumas horas chegamos ao Parque. Viajar de mochila significa dar adeus em cada parada e assim foi. Rodrigo dali iria para o Brasil e Laura eu ainda veria na época de ir embora.dscf4712
Estava sozinho mais uma vez e no silencio do meu banco via as paisagens passarem e tirava algumas fotos. Me parecia mais verde e mais sereno que Moçambique.
Cheguei a Magochi no final da tarde. E precisava correr para a fronteira, ainda faltava umas duas ou mais horas de viagem e isso é sempre um problema, digo, é sempre um problema calcular distancia por aqui, as informações são sempre desconexas da realidade. Entrei no primeiro carro qure saia. Uma pequena camionete, parecida com uma antiga Ford Pampa e como todo branco fui colocado no banco da frente. Enquanto esperava o carro sair chegou uma pessoa com o mesmo ou maior status que o meu, um chefe local. Ele foi colocado no banco na frente junto comigo. Uma situação nada confortável para nenhum de nós. O carro não tinha faróis, apenas lanterna e os freios eram péssimos. Subindo as encostas que rodeavam o lago Malawi o meu medo só crescia. Sem faróis a estrada não era visível e as vezes o motorista colocava o rosto para fora do carro para seguir a estrada se guiando pelas faixas. O chefe ficou no meio do caminho. O carro precisou ser empurrado duas vezes na escuridão, mas por fim vi as luzes de Chiponde, a última vila no Malawi. Mas já era tarde e a fronteira estava fechada. Eu teria que dormir do lado de cá. Dormir implicava em comer alguma coisa, quase sem grana um mini-pacote de bolacha com um refrigerante em garrafa serviu bem. Fui pro quarto e cai num sono misturado de cansaço e excitação.dscf4744
Acordei correndo para a fronteira. O agente não queria aceitar meu visto. Disse que faltava um numero de serie e tals. Sem grana, cansado e sabendo que era o mesmo agente que não me deixou entrar no Malawi 21 dias atrás, explodi. “Amigo, se você pagar a minha passagem de ida e volta, estadia no hotel e meu restaurante eu volto, caso contrario carimba essa p… e me deixa ir embora!”. Funcionou. Sai dali, peguei o taxi-bicicleta e cheguei do lado moçambicano da fronteira. 3 dolares para entrar e segui novamente na bicicleta. Quando cheguei em Mandimba eu não tinha grana para a passagem até Lichinga, a cidade mais próxima do meu destino final. O primeiro carro não me deu ouvidos. No segundo um pouco de sorte e um pouco de exagero da minha parte e lá fui para a capital do Niassa.dscf4774
Quando cheguei em Lichinga, ainda era dia. Duas da tarde. Estava cansado, com fome, e devendo 95 meticais para o motorista do caminhão que me trouxe até a cidade. Estava feliz.
21 dias depois, minha viagem terminava.