Arquivo de abril, 2009

21 dias… VI parte

Publicado: 12 de abril de 2009 em Sem Categoria

Passei sete dias em Téte. Acordava cedo, ia para a construção, trabalhando até a hora do almoço, almoçava em casa, descansava e voltava para a construção até o final da tarde. obraCada fim de tarde era único. O pôr do sol em Téte é algo fantástico! O céu azul vai sendo tomado por cores e mais cores, tonalidades infinitas de laranja, vermelho, rosa, amarelo, algo divino. por-do-sol2Às vezes chovia no meio da tarde devido ao forte calor. E um banho de chuva era a melhor idéia.banho-de-chuva1

À noite o céu, sempre limpo, brilhava cheio de estrelas depois de desligado o gerador. Nos sentávamos do lado de fora da casa e ficávamos contanto estrelas cadentes. Eram noites tranqüilas, de conversas leves e sorridentes. Escrevi um poemeto nessas noites, nada demais, mas expressando minha sensação naqueles dias:

 

Em Téte, nas tarde de verão,

Felicidade era um homem

Que ancioso,

Esperava pelo anoitecer…

 

No quinto dia chegaram duas amigas de Lucia. Federica e Érika. Aeromoças, tinham conseguido passagens por menos da metade do preço e vieram passar uns dias em Moçambique.

erika, lucia e federica

erika, lucia e federica

Érika meiga, simples e muito sociável. Seus olhos estavam arregalados com tudo a sua volta e dizia a cada minuto “olha isso! Olha essas cores! Olha esse verde!”. Foi fácil simpatizá-la. Federica, ou só Fêde, sorriso largo, olhos inquisitivos, pele morena e longos cabelos negros. Quando ela desceu do carro e se aproximou de Lucia deu pra sentir a tensão no ar. Eram amigas sim, mas havia ali uma certa competição. Era como ver uma leoa entrar no território de outra leoa. Não sei explicar. Mas fiquei com a impressão de que naquele momento, em que se abraçaram, tinha haver com aquela imagem das leoas se rodeando, se reconhecendo, onde se define quem é quem dentro território.

Eu devia ir embora nesse dia, mas achei melhor ficar, porque as meninas chegavam, e no outro dia chegaria mais um amigo, de Nacala. Foi o primeiro chute no balde nessa viagem. Ou pelo menos o primeiro com bons resultados. Ficar mais esses dias foi fechar com chave de ouro. Elas haviam trazido comida da Itália, sorvete, bolos, tudo! Ficamos comendo, cantando, conversando até tarde da noite.

Rodrigo chegou na manhã do outro dia. Havia dormido em Téte e pegou o primeiro carro para Chiúta. Rodrigo é brasileiro, cearense com sotaque e já estava indo embora para a Inglaterra.

Naquela tarde fomos todos a uma escola perto do projeto. Uma pequena vila ao redor e uma escolinha de duas salas.escola Lucia fazia isso desde que chegou. Levava papel e lapiz de cor para as crianças desenharem e depois servia um lanche, bolachas com refresco, algo assim. Não vou tentar descrever. Só vivendo aquele momento. Mas posso dizer que a alma estava mais leve depois de deixarmos a vila. despedida Enquanto nos afastávamos as crianças subiram nos telhados de algumas casas e nos davam adeus de longe, outras nos acompanharam até o riacho que separava a escola da vila.

A noite fizemos uma festinha. Com musica moçambicana dançamos passadas, depois forró, depois samba. E uma tarantela é claro!festinha

Acordamos cedo, as meninas iam para a cidade, eu e Rodrigo iríamos embora e Lucia ficava no projeto. Era a segunda vez que lhe dava adeus e não foi mais fácil que a primeira. Lucia foi uma força inspiradora, o trabalho dela me motivou muito. É uma amiga que somente o Tao sabe quando iremos nos encontrar novamente.

Partimos com lagrimas nos olhos. No caminho, Rodrigo me diz que Laura, de Chimoio, estava vindo e que juntos eles iriam para o Malawi. Eu perguntei se ele tinha visto, disse que não. E me convidou a ir com eles. E pedi um tempo para pensar.

Quando chegamos na cidade corremos a agencia da LAM, Linhas Áreas Moçambicanas. Onde a meninas trocaram suas passagens. Voltamos e paramos para o café da manha numa padaria, Esperança. Nome perfeito! Sai com Federica para trocar dólares por meticais. Consegui um bom preço no mercado negro, 28 meticais por cada dólar.

No caminho de volta ela segura meu braço e diz que gostaria de meu e-mail, “a gente nunca sabe o que o amanhã pode trazer!” foi o motivo para o pedido. Trocamos endereços de e-mail. Mais tarde pedi a Érika também. Quando chegamos de volta, tinham mudado de restaurante e estavam no mesmo que comi no primeiro dia. A conversa ia animada com um senhor de seus quase 70 acredito, grego, morou no Brasil, jogou bola com o Pelé, e conversava em fluente com as três meninas italianas e em ótimo português comigo e Rodrigo. Foi ali que dei o segundo chute no balde e decidir ir com Rodrigo e Laura. Não tinha um visto, mas agora tinha compania, e mandar três embora seria mais complicado que mandar só um. Decidi ir. Na despedida das meninas recitei para elas o ultimo verso do soneto “Duas Almas” de Alceu Wamosy que diz:

 

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:

Há de ficar comigo uma saudade tua…

Hás de levar contigo uma saudade minha…

 

Deixamos as meninas na cidade e fomos embora. Atravessamos a ponte mais uma vez e num golpe de sorte depois de pedir carona por uns 30 minutos, um ônibus direto até Blantyre. Era um ônibus azul, com o formato daqueles amarelos de escola que aparecem nos filmes. Dentro a língua já era o inglês. Um cara gordo, com uma voz alta e grave e com um rosto me lembrando o cara de “A espera de um Milagre!”, saca? Era o cobrador. Compramos a passagem até a fronteira, pois não tínhamos certeza se iríamos passar ou não. O ônibus balançava bastante e à medida que subia a estrada ia ficando mais frio e isso foi nos adormecendo.

Chegamos a fronteira. Para sair de Moçambique nenhum problema. Pessoas tentando vender dinheiro malawiano ou cartões de telefone celular. Atravessamos. Estávamos agora naquela terra de ninguém entre um país e o outro. Quando chegamos na fronteira do Malawi a coisa já se mostrava diferente. Mais limpo, maior, mais organizado. Havia uma fila para as pessoas lavarem as mãos antes de entrar na recepção e lavar os pés com água sanitária. Laura foi primeiro, com o passaporte da união européia só precisou carimbar a entrada no país. Quando chegou a vez de Rodrigo e eu, os brasileiros tiveram muito problema. Os agentes da alfândega não queriam deixar-nos entrar. E ficou naquele, espera um pouco, senta ali, vem aqui, me mostra tal documento, me mostra tal coisa, até que alguém fez a pergunta mágica. “E como é que a gente pode resolver isso?”. O agente pediu 500 meticais. Poucos segundos depois de pagarmos, o chefe da alfândega chegou e perguntou o que acontecia. Explicamos tudo, ele nos deu uma autorização de 48 para irmos até Blantyre, tirar o visto na embaixada. Isso demorou mais de duas horas. Perdemos o ônibus e tivemos que conseguir uma carona. Sorte novamente. Um jovem empresário estava indo para lá, numa camionete cabine dupla e com ar-condicionado. Lá fomos nós e uma hora e meia chegávamos à cidade. Procuramos por um hotel, eo guia de mochileiro de Rodrigo indicava um lugar chamado Doogles.

Fomo para lá. Com alguns brancos e um bar legal, o hotel era com toda certeza a melhor opção. Quartos coletivos para mochileiros custavam apenas o equivalente 16 reais. Água quente no chuveiro, cerveja carlsberg, comida mexicana. Maravilhoso! Esravamos no Malawi. Tínhamos entrado, só faltava o visto, mas isso ficava para amanha. Hoje era dia de festejar!

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O coração moçambicano.

Publicado: 6 de abril de 2009 em Sem Categoria

O que move Moçambique? Não é calor do Téte, não é frio do Niassa. Não os montes da Zambezia, não as praias de Nampula. Não é a calma da Ilha, não é a agitação de Maputo. O que move Moçambique?
Suas machambas de milho, suas plantações de caju, suas colheitas de feijão? A vida que pulsa nos mercados livres, a vida em comunhão nas suas vilas? Será o ritmo dos jovens que dançam ao som da marrabenta? Os casais que se abraçam numa passada?
Será esse viver com tão pouco que do melhor não se faz falta? Essa preocupação pelo pão de cada dia que não deixa espaço para a inveja, a maldade e a malicia? Esse coração enorme que faz quem não tem dividir o pouco que tem? Esse brilho simples e honesto no olhar de cada lavrador, de cada dona de casa, de cada estudante passando de uniforme na rua?
O que move Moçambique é um povo que luta todo dia! É um povo que ama o sonho que seu país pode ser, tendo a certeza de que não viverão o suficiente para vê-lo. Um povo de senhores de poucas palavras, mãos calejadas e o corpo talhado pelo campo. Senhoras de sorriso largo, de fala tímida, que buscam uma igualdade sem saber bem o que é, mas que levam famílias inteiras nos seus ombros. De crianças fortes, espertas, felizes como só os simples podem ser. Ah, Moçambique, quem me dera ter coração assim como teu! Esse povo que pulsa e que te mantém vivo, esse é teu coração jovem e ancestral ao mesmo tempo! Moderno e feudal! Inocente e grande, largo.
Volto pra casa com essa certeza, de que somos irmãos. De que o que sofremos aqui, sofremos lá, e compartilhamos as mesmas alegrias. E além do português, tantos outros laços nos tornam iguais. As mesmas opressões, os mesmo assaltos ao nosso povo e cultura. A mesma vontade de viver melhor, sem saber ao certo o que é viver.
A verdade é que somos assim irmanados, todos os povos ao sul do globo, compartilhando as mesmas benesses e agruras. Do alto dos Andes, ao pico do Kilimanjaro. Do Ganges ao Amazonas, um só povo.
Que o nosso coração saiba sempre reconhecer um irmão. Amém.