21 dias… parte IV

Publicado: 20 de março de 2009 em Sem Categoria

Na Young me recebeu com um carinho terno, um abraço longo, aconchegante. E me senti a salvo. Estava escuro e ficamos ali trocando pequenas frases de quem não se via há muito tempo. Me conduziu então até a casa dos voluntários. Foi feliz reencontrar amigos com os quais tinha passado o natal passado. A casa na verdade eram casas, três casinhas redondas, em cada qual viviam dois voluntários. Ficamos na ultima, onde moravam Laura e Noemi, ambas italianas. Era como chegar em casa novamente. A casa me lembrava a minha casa, com tudo espalhado numa bagunça jovial, numa desordem que me acalmava. Livros, papeis, capulanas, roupas, sapatos, malas, tudo ali, despojadamente organizado em caos. Há ali dois beliches em cada quarto, a meninas dormiam nas camas debaixo, Na Young na de cima e eu no chão.

Laura é uma mulher de 33 anos. Lúcida, organizada no seu modo, ativa. Morena, de cabelos negros, um corpo esguio e um sorriso largo. Ela estava sempre atarefada, o que me deu um inveja saudável, uma vontade de fazer igual. Ela trabalha recolhendo crianças de rua e encaminhando para a escola de alfabetização. Leva dois ou três meses com cada criança até que elas tenham confiança suficiente para acompanhá-la até a escola. Um trabalho bonito e comovente.

Noemi é o oposto. Loira, alta, corpulenta. De uma lucidez louca, falando de tudo ao mesmo tempo, pulando de um assunto para o outro sem pormenores e sem métodos. Uma torrente fluente de tudo. Impropérios e bênçãos saindo ao mesmo tempo. Não encontrei conversa mais instigante do que as que tive com ela. Ela trabalha na construção de escolas e poços de água. Quando está trabalhando é séria e leva tudo como uma chefe de obras das mais exigentes e justas. Mas ali, na intimidade do quarto era santa louca vertendo sabedoria insana. Numa das primeiras noites, passei seis dias em Chimoio, ela tocou violão e cantava musicas populares de seus país. Me atrevi a tocar com ela uma das minhas duas canções e levados os dois pela musica e outras coisas, compomos um arranjo todo novo, uma melodia toda nova e foi assim que passamos as noites, cantando e falando até um sono além de nós nos arrebatar.

Durante o dia andava pelo projeto com Na Young. Conversando, relembrando e vivendo um algo novo. Mas algo tinha se perdido e embora ficássemos juntos o tempo todo, percebia que não estávamos no mesmo lugar e momento. Mesmo assim, foram dias felizes.

No terceiro dia que estava ali, Junior e Lívia, amigos que conhecia desde os EUA vieram para uma visita surpresa e por fim, fomos todos, eles mais eu e Na Young para a cidade deles, Gôndola, a 15 minutos de carro de Chimoio, para passar a noite e um dia.

Gôndola era um importante entreposto comercial da linha do trem. A arquitetura portuguesa está por todo lado, e as casas me lembravam antigos subúrbios do Rio de Janeiro, com casas de janelas largas e altas e varandas que circundavam toda a casa. O centro, a parte principal da cidade é toda assim, portuguesa. Há até um clube com piscina olímpica, um estádio de futebol e uma quase imponente estação de trem. Mas após o fim do período colônia, tudo foi abandonado. A piscina é cheia de sapos, o estádio exceto pelo campo, virou latrina e a estação de trem não funciona como nos tempos passados. É um passado que morre em vida.

Fizemos “vaca atolada”, carne com mandioca cozida, para celebrar e me deliciei com esse sabor de casa. Conversar com Junior é sempre uma experiência divertida e apaga as preocupações da vida. Um bom rapaz, com um bom coração, um bom amigo.

De regresso a Chimoio, encontramos todos os outros voluntários. Gerard, Laura, Anna, Sandra e João. Gerard é um alemão jovem, 21 anos, cheio de energia. Empolgante, todo sorriso e gestos. Com braços e pernas longas, cada movimento seu tinha um que de caricato, mas autentico, só dele. Um sotaque estranho para inglês e português. Português que mesmo não dominando não tinha medo de usar. Laura é uma menina da Polônia, estava no fim do seu período. Calada, religiosa, meiga e atenciosa. Não falava muito de si e por motivos óbvios não dava muita abertura para conversas mais intimas. Anna é russa, magra e pequena, olhos azul cobalto, cabelos de um loiro escuro e sardas no rosto, tímida, mas que quando a vontade podia falar de tudo, e discutimos livros e constelações com a mesma facilidade. Foi engraçado como passamos de 1984 para o zodíaco como se tudo fosse uma coisa só. Sandra e João são um casal português. Mais velhos e adultos, eram também mais sérios e calados. Sandra sorria e trocava algumas frases amigáveis, já João apenas os cumprimentos normais do dia a dia. Talvez por não falarem inglês se mantinham a parte, já que entre russos, poloneses, alemães, coreanos e italianos ou falávamos inglês ou caminhávamos escorregando pelo português.

Na Young foi embora. Tínhamos tentado que ela viesse para o mesmo projeto que eu estou, plano que tínhamos desde os EUA, mas aqueles dias nos mostraram que não seria uma boa idéia. Por fim foi para Gaza, numa escola a 2 horas de Maputo. Foi uma despedida triste, mas realista. Era claro que éramos queridos um pelo outro, mas amigos além de qualquer outra coisa.

Eu fiquei. Ainda esperava pelo dinheiro para poder continuar a viagem. E esses dias foram ainda muito felizes, pois passava as noites com Noemi, Anna e Laura – a italiana – a cantar e contar. Noemi contava seus amores e elucidava os amores alheios, Anna devaneava filósofos russos e suas revoluções e Laura nos observava com um olhar de quem admirava a loucura alheia calando a sua própria. Durante o dia me agarrava a um livro que encontrei ali, George Orwell, Recordando a Guerra Civil. Um primor para entender as razões por trás do famoso 1984. E quando o pôr do sol aparecia, era o sinal de que logo estaríamos todos ali, bebendo de mais uma noite de extravagâncias filosóficas.

Quando por fim recebi o dinheiro para continuar, não tinha tanta certeza de querer ir. Ficar com mais voluntários naquele ambiente tão rico de trocas era tentador demais para quem ficava todos os dias a espera de uma boa conversa. Mas fui.

De madrugada, Laura – a polonesa -, Anna e eu pegamos uma carona com o carro da escola e fomos até a paragem de ônibus. Lembro que os telefones não funcionavam e por isso desde a noite anterios tentávamos desesperadamente uma maneira de ir até a paragem, já que Anna já havia comprado os bilhetes de passagem para viagem entre Chimoio e Téte. Entre ir a pé e correr o risco de um assalto quase certo e acordar os professores da escola, decidimos por acorda-los, mas por sorte um deles estava ali ainda acordado e decidiu nos dar a carona pessoalmente quando fosse o horário. Às três e meia da madrugada.

Ficamos, eu, Laura (ITA), Anna e Noemi acordados até aquele horário, trocando as ultimas palavras, as ultimas gargalhadas e jogando fora as ultimas certezas das conversas despropositadas mais coerentes que levávamos. Chegada a hora, saímos.

Chegamos e esperamos. O carro já tinha pessoas sentadas e dormindo também a esperar a partida. Subimos também e abracei a mochila no meu colo e adormeci, quando acordei, estávamos a uma hora do Téte. Era o dia 21 de fevereiro, décimo dia de estrada.

joão, laura (pol), sandra, noemi, laura (ita), na young e eu.

joão, laura (pol), sandra, noemi, laura (ita), na young e eu.

gondola

gondola

noemi

noemi

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