21 dias… parte III

Publicado: 15 de março de 2009 em Sem Categoria

O despertador toca e abro olhos num segundo seguinte. Parece não dormia tanto, mas estava revigorado. O irmão de Eliseu já estava acordado e em minutos saímos da casa. O caminho até a estrada é meio um labirinto, há uma pequena ponte de madeira, casas de barro e telhado de palha. O irmão nos guia sem o menor esforço.

Quando chegamos na estrada há luzes. Aquelas amarelas dos postes. A cidade ainda não acordou. Mas não há um silêncio. Há um murmurar no ar. E logo percebo que vem do rio que atravessa a cidade. Vamos cruzar a ponte, que com emblemas de portugal nas duas cabeceiras diz que a sua construção é de 1960 e alguma coisa. Enquanto atravessamos a ponte os dois me contam sobre os crocodilos que habitam o rio. Parece que uma menina foi morta há pouco tempo por um desses animais. Quando pergunto se os ataques sçao freqüentes a resposta é incrível. Eles dizem que depende dos feiticeiros e dos feitiços. Há dois tipos de crocodilos. Os crocodilos encantados, que obedecem às ordens de do feiticeiro. Estes apenas buscam a pessoa que o feiticeiro chama. Para que as pessoas não se afoguem debaixo da água, o crocodilo coloca a cabeça da pessoa debaixo de axila e ali ela consegue respirar. O outro tipo são as pessoas encantadas, que se transformam em crocodilo a noite. Essas pessoas não têm muito controle sobre suas ações quando na forma do animal. Mas conseguem se lembrar do que fizeram quando transformados. O irmão me diz que recentemente, coisa de semanas atrás, um homem foi morto por uma turba depois de confessar ser um crocodilo que tinha matado três pessoas. Eu escuto tudo num misto de dúvida e credulidade. Mais tarde, quando já estava em Chimoio, ouvi no rádio a notícia de que a policia investigava três assassinatos em Mocuba causados por um crocodilo mágico.

A cidade me parece perigosa. Entramos numa rua cheia de pequenos comércios e pequenos hotéis. É a rua da paragem dos carros. Há pessoas dormindo nas calçadas. Fogareiros ainda queimando carvão da noite passada, onde assavam pedaços de frango na ponta de um espeto de madeira. Alguns cães sem dono andando sem rumo. E por fim, chegamos a paragem. Me sinto aliviado, estava com medo de andar pela rua.

A paragem aqui é algo mais organizado. A bem da verdade desde Guroe as coisas mudaram um pouco. Há asfalto nas estradas e as paragens são fechadas, os carros saem em seqüência, numa fila. Você compra o bilhete de sua passagem. Mas as condições de viagem não mudam muito. Ainda carros lotados, velhos e assim por diante. Encontramos um carro que vai direto para o rio Zanbezi. É uma camionete azul, com uma cobertura de madeira na parte de trás. Há bancos na traseira. O cobrador tenta me vender o bilhete, mas – sétima lição desta viagem – não compro. Se outro carro sair mais cedo vai ser muito difícil, quase impossível ter meu dinheiro de volta para troca de carro. Então espero o carro sair. Era no máximo quatro trinta quando chegamos. Há um bar dentro da paragem e algumas pessoas continuam fazendo a festa. Algumas moças e rapazes. O dia vai clareando e eles começam a deixar o lugar. As moças passam bem perto de mim, e posso sentir o perfume misturado com o álcool. Uma delas é bem bonita. E passa sorrindo já encima de um carro.

Um menino passa vendendo pão. Esta quentinho e tiro umas moedas do bolso para comprar alguns. Mas Eliseu e seu irmão não aceitam, acabo comprando apenas um. Por fim, já são quase sete e o carro ainda não saiu. Um dos rapazes bêbados do bar se aproxima e começa a falar com um sotaque peculiar, mais arrastado, mais chiado. É de Maputo, capital do país. Esta muito embriagado e diz que vai conseguir ainda hoje uma carona para voltar para sua cidade. Fala alto, reclama de Mocuba, e tenta conversar comigo. Mas não estou no espírito de conversar com bêbado logo de manhã. Então peço licença e saio de perto. Ele ainda vai e volta umas três vezes mas, por fim desiste.

Eu digo aos meninos que eles podem ir embora se desejarem. E após uns minutos eles aceitam e partem. Agradeço imensamente por tudo, e digo que nos encontraremos em Lichinga.

O carro não sai. Os passageiros começam a se revoltar. Alguns me disseram que o segundo dia que esperam esse carro sair, mas ontem ele não lotou e por isso não saiu. Isso me preocupa e começo a procurar alternativas. O motorista do carro sumiu e isso não é bom sinal. Um dos passageiros me oferece um bilhete que ele tinha a mais. Digo que aceito, mas só pago quando o carro sair. Ele concorda.

Começo a andar pela paragem. Algumas dezenas de carros estão ali, saindo e entrando. Paro na entrada e para cada carro que sai pergunto para onde vai. Por fim alguém me pergunta para onde vou e depois de ouvir meu destino e a situação do carro que estou esperando me diz que a melhor coisa a fazer é pegar uma carro para Quilimane, que saem com regularidade, descer em Nicoadala e de lá apanhar um outro carro até o rio. De lá outro carro até Inchope e depois mais um até Chimoio. É isso que faço. Procuro o carro para Quilimane, ainda não está lotado e por isso não compro o bilhete. Espero na porta e compro o penúltimo bilhete. É um microônibus, lotado, absolutamente lotado. Mas sai.

A cidade já está inteira acordada, são quase nove quando saio de Mocuba. O sol esta quente e cidade brilha num tom de amarelo da luz e da poeira. Não vejo nada cidade há não algumas ruas, falo com o cobrador que quero descer em Nicoadala e adormeço.

Acordo no meio do caminho. Apertado, sem sentir direito as minhas pernas. Tento move-las e o esforço para trocar de posição é grande. Há uma moça do meu lado, um casal de idosos depois dela, em pé, à minha frente vai o cobrador. Ninguém se move ou fala. Esta quente e apertado demais para achar alguma graça aqui. Graças ao divino a viagem é curta, uma e meia aproximadamente. O cobrador me diz “Nicoadala”, e vejo algumas casinhas brancas em torno de um cruzamento. Seguindo em frente, Quilimane, virando a direita, Rio Zanbezi. Eu desço e procuro o carro para o rio. Há uma van parada, mas o motorista diz que só sai depois das treze e isso é muito tarde pra mim. Ele diz que devo andar um pouco e procurar um posto de gasolina, ali poderei encontrar carros saindo toda hora.

Não é longe, alguns metros e já chega alguém gritando “boss, boss!” e se oferecendo para carregar minha mochila. Pergunto quanto é o carro e eles vão me colocando dentro de uma velha camionete vermelha, no banco da frente. Pergunto quando o carro sai e a resposta é obvia, “logo” ou “daqui a nada!”. Logo o motorista aparece e diz que já temos passageiros e me cobra a passagem. Pediu 250 meticais, acabou aceitando 135. Mas o carro não sai. Está muito quente lá dentro e saio para esperar do lado de fora. Um rapaz puxa conversa, está indo para Maputo e quer encontrar um carro que vá direto. Acho difícil, ainda falta um dia de viagem até lá e agora já são quase meio dia. Mas ele esta otimista e por isso não digo nada. E então a segunda maior sorte dessa viagem acontece.

Um caminhoneiro, carreteiro eu diria, para e pergunta quem está indo para Chimoio. Só eu estava indo. Ele diz apenas “sobe”. E agora? Como conseguir meu dinheiro de volta? Parei em frente ao motorista do carro e como se fosse a coisa mais normal pedi meu dinheiro. Ele me olhou desconfiado, eu não podia vacilar, tinha que manter a serenidade. Ele enfiou a mão no bolso e me devolveu o dinheiro, quase todo, ficou com dez meticais. Mas, vá lá, dez meticais não era grande problema.

A carreta é grande, importada da África do Sul, o que não diz muito, já que quase tudo é importado de lá. Na cabine, há dois lugares, e mais atrás uma cama, quase um quarto, com TV e geladeira. O rapaz que vai para Maputo sobe também e mais um outro. Antes de sair, um rapaz que estava conseguindo passageiros para esse carro começa a cobrar a passagem. Ouço ele dizer ao motorista que para me levar até Chimoio deveria me cobrar 450 meticais e me preparado para arriscar mais uma vez. Digo que não tenho toda esse dinheiro, que estou viajando em dificuldades e que posso pagar trezentos meticais. Acontece uma pequena negociação, um silêncio por parte do motorista, e por fim ele aceita.

O motorista é filho de português, tem pai português. E isso já muda completamente a forma com que ele trata os demais moçambicanos. Além é claro do fato de ter dinheiro e no caso, ser o motorista. Ele não conversa comigo, apenas alguns comentários. Mas o silêncio impera na maior parte do tempo. Chega há ser um pouco constrangedor. Mas estou cansado e não simpatizei o motorista. Fico calado.

Ele trata mal os outros rapazes. Eles estão atrás, sentados na cama. Quando um dos rapazes encosta o cotovelo para se apoiar no colchão o motorista reage como se tivessem jogado lixo no seu lençol. Dá um sermão no menino, e este fica obrigado a ir numa posição desconfortável pelo resto da viagem. Não temos opção, nem eu e nem eles podemos dizer nada. Foi uma sorte encontrar esse carro e não podemos perder essa oportunidade de chegar a Chimoio ainda hoje.

Por volta das duas da tarde chegamos ao Rio Zanbezi. É imenso, águas barrentas e silenciosas. Corre caudaloso por conta das chuvas, arrastando nas águas pedaços de margem cobertos de plantas. Grandes pedaços! Chego a pensar que se eu nadasse até um deles poderia ficar em pé ali.

O motorista nos manda descer do carro. Diz que a segurança não gosta de pessoas atravesando dentro do carro, pois cada pessoa paga hum metical na travessia. Não há ponte ainda. Esta em construção uma enorme ponte de uns 5 km, não sou muito bom em distâncias. Construída por um conjunto de paises da União Européia mais o Japão. Deve ficar pronta em maio. Enquanto isso as pessoas e carros atravessam de balsa, aqui chamado de batelão. Mas chegamos no intervalo da balsa. É dia 14, dia dos namorados, e a folga ainda vai ser um pouco maior o jeito é esperar.

Há algumas barracas na beira da estrada. Compro uma coca, estando certo de que o motorista não está por perto, afinal, eu não tenho dinheiro teoricamente. E ali me sento esperando. A empresa que esta construindo a ponte tem duas balsas que atravessam com certa freqüência o rio. É a mesma balsa, no mesmo tamanho, mas so atravessa pessoas e carros da empresa. Enquanto esperamos, vemos a balsa trazer um carro, levar outro, na balsa vazia. As duas balsas que fazem a travessia estão do outro lado.

Quero comprar um cigarro, um cigarro mesmo, aqui dizem um palito. Custa um metical. Quando peço a senhora da barraca, ela se levanta e vê que a caixa tem apenas mais um, e me diz “pode finalizar”, e economizo um metical (dez centavos de real). Há um grupo de mulatos no bar, mestiços entre indianos e negros, ou portugueses e negros. Estão ouvindo musica eletrônica que toca deles, um caminhão, provavelmente para levar passageiros quando atravessarem de lá para cá. Sorriem muito, risadas altas, me parecem embriagados e nada amigáveis.

O rapaz que estava no carro comigo me oferece água. Aceito. Ele é fiscal do INSS, a mesma sigla para o mesmo serviço aqui. Conversamos um pouco. Ele é estudado, tem universidade, mora em Maputo. Conhece bem seu país e, portanto conversamos mais sobre isso. E no meio dessa conversa, três moças chegam até a beira do rio para lavar roupas. Estou há uns cem metros ou menos. Vão lavando e a conversa continua. Então as moças tiram as suas roupas. Não é algo erótico, elas querem tomar banho enquanto lavam a roupa. No entanto o efeito é diverso. A conversa para, os homens no bar se agitam e pronto, em segundos tínhamos uma platéia observando o desenlace do caso. Nada acontece no entando, digo, ninguém se levanta, ninguém faz menção de ir até lá. Apenas olham em silencio. Até que um mais bêbado se levanta e anda até as meninas. Elas se cobrem rapidamente, arrumam suas trouxas de roupa e saem.

ponte sobre o rio zambezi

ponte sobre o rio zambezi

E o batelão começa a atravessar o rio.

 

Há uma fila de carros, pessoas, bicicletas e tudo o mais para atravessar. Apenas uma carreta por vez o que significa que o meu carro vai demorar, pois é o quarto da fila. Cada ida de volta do batelão é coisa de vinte minutos ou mais. Eu vou no primeiro. A balsa chega na minha margem lotada. Não sei precisar, talvez trezentas pessoas, mais ou carros. São funcionários públicos que fazem esse serviço, mas usam uniforme to exército. Talvez para intimidar, talvez por que sejam mesmo militares. Primeiro sobe a carreta, depois carros menores, pessoas e por fim bicicletas. Vou lá atrás, atrás ainda das bicicletas. O barco treme todo e volta e meia jatos de água surgem de buracos no piso, molhando um pedaço da minha calça que já esta em estado lastimável. Cheia de barro desde o primeiro tombo na saída da escola.

Do outro lado nada muito diferente. Barracas de madeira vendendo os mesmos produtos, com exceção de uma tenda para passageiros, onde podemos nos sentar e esperar pela balsa. Eu fico parado ao lado da margem. Vendo o rio passar, alguns pescadores se aproximam em suas canoas vendendo peixe. Crianças banhando-se, um vento forte trazendo chuva do norte. Escolho sete pedras, das sete escolho uma e atiro no rio para dar sorte. Acho que funciona, pois na viagem seguinte trazem duas carretas ao invés de uma, e isso quer dizer que a minha carreta vem logo em seguida.

Quando ele chega faz um sinal de que vai para mais a frente e eu sigo correndo atrás do carro. Começo a pensar se foi mesmo uma boa idéia deixar a mochila no caminhão, mas o pensamento é passageiro. Subimos todos e mais alguns. O motorista apanhou mais três pessoas do lado de cá do rio, mas este vão na carroceria. A estrada está vazia, o asfalto é bom, a viagem segue tranqüila sob a luz do fim da tarde.

O motorista esta mais amigável. Conversa um pouco. Mas ainda mantêm certa postura. A verdade é que ele não quer se mostrar muito aberto em frente dos outros passageiros. Mas com o tempo vai falando mais. Conversamos, com participação de todos, sobre política moçambicana, os efeitos do pós-revolução sobre as condições de vida. Ele anti-frelimo, o rapaz do INSS frelimista, mas é claro, como carona não discutiu muito. Falamos sobre sua família, ele diz que todos moram Portugal, diz que ficou, pois o clima de lá não lhe faz bem à saúde. É bastante provável que sejam outros motivos, mas ficamos com esse mesmo. Depois vem o futebol. E não seu se para me provocar, já que a essa altura já sabe que sou brasileiro, ele diz que atualmente a melhor seleção de futebol é a de Portugal. Talvez apenas reflexo da importância que se dizer “português” tem para ele.

Chega a noite e ainda estamos rodando. Os outros passageiros ficam em Inchope. É cruzamento que vai Beira, ou Maputo, ou Chimoio. Sehuimos para Chimoio. O motorista ficou bastante amigável. Comprou dois pacotes de bolacha Maria e me deu um. Percebendo essa nova situação comprei um coca em lata. Foi tranqüilo. Estava com medo dele desistir e parar para dormir em alguma vila no meio do caminho, já eram quase dez da noite. Então comecei a falar muito, a fazer perguntas e assim deixar o cara acordado. Ele era bem de vida pelo que dizia. Três carros, dois micro ônibus, uma oficina onde o gerente era seu genro. Tudo em Maputo, seu destino final.

Chegamos numa cidade, penso que é Chimoio, mas não. Como é dia nos namorados há festas ocorrendo em todo lugar. O motorista vê duas moças andando no acostamento, elas fazem sinal de carona e ele para. As moças sobem, sentam na cama e ao contrário do que pensei, ficam quietas, caladas. Começa a chover de leve e ao longe vejo as luzes da cidade. É Chimoio finalmente. As moças não sabem onde fica a ADPP, logo não tenho como pedir que o motorista me leve até lá. No caminho já havia ligado e falado com amigos que mês esperavam lá, disseram que haviam chamado um táxi para me buscar na parada. Mas a parada que me esperam chegar é a de ônibus e não a de caminhões. O motorista encosta ali. Já bastante amigo, me oferece um espeto de frango com coca, agradeço sem aceitar. Espero pelo táxi.

O lugar onde paramos é em frente a um hotel/bordel. Assim disse um senhor que se apresentou a mim como chefe de bairro. Há muitas pessoas no bordel, digo, no hotel. E como o dia é especial creio ser um movimento fora do normal. Na rua muitas meninas, e o chefe me diz que são malawianas. Diz isso num tom não muito elogioso. Ligo mais uma vez para os amigos, Na Young me atende e numa mistura de inglês e português me diz que o motorista se chama Cecílio e que ele foi para a paragem de ônibus mas esta vindo no lugar correto agora.

eu e Na Young

eu e Na Young

 

De fato, uns cinco minutos depois ele aparece. É fácil me identificar, o único muzungo na rua. Ele para abre a porta e diz “Mauricio?” e eu digo “Cecílio?”, de longe dou adeus ao caminhoneiro e ao chefe do bairro, subo no táxi sorrindo e logo chegarei na casa dos voluntários de Chimoio. Me restam cinqüenta meticais no bolso, não posso nem ir a frente e nem voltar para o Niassa.

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