21 dias…

Publicado: 8 de março de 2009 em Sem Categoria

Quando cheguei em Lichinga, ainda era dia. Duas da tarde. Estava cansado, com fome, e devendo 95 meticais para o motorista do caminhão que me trouxe até a cidade. Estava feliz. 21 dias atrás, quando sai daqui não esperava encontrar tudo o que encontrei nessa jornada. 21 um dias atrás. Estava frio, eram quatro da manha e minha mala já estava pronta.
Eu acordei com o alarme. Tudo pronto para sair, fui acordar Jackson, um professor da escola que iria fazer o trecho N’sauca-Lichinga de moto comigo. Ele precisava ir comigo pois iríamos juntos ao banco em Lichinga, onde eu pegaria dinheiro para a minha viagem de cinco dias. Ao ligarmos a moto, a primeira surpresa, os faróis não funcionam muito bem. Esta escuro ainda, e o frio me surpreende, mas decidimos que podíamos ir. A menos de 400 metros da escola, o primeiro susto. Não pude ver a poça de água e caímos na lama. Ninguém machucado, mas sujos. Na da grave, levantamos a moto e prosseguimos. São 45 minutos de moto até Lichinga, o vento cortando e congelando. Na estrada, trabalhadores rurais carregam pesados fardos de lenha, varas de madeira, sacos de carvão. Assustadoramente surgindo do nada no escuro e com o farol avariado. Tenho que encontrar um carro para Mandimba, de lá até a fronteira com o Malawi são menos de cinco quilômetros. E atravessando o Malawi chego no Teté no mesmo dia. Assim, os dois e quatrocentos meticais que iria trazer comigo eram mais que suficiente. Então, depois de passarmos num banco eletrônico, fomo à paragem de carros. Estava vazia, algumas pessoas esperando as chapas. Jackson não é de muita conversa, mas certifica-se de que me lembro do caminho, das cidades que devo passar, se estou com o dinheiro bem guardado. Me diz que estou em Moçambique, que é diferente do Brasil e que o Malawi é perigoso.
Logo aparece uma van. Não parece o tipo que faz chapa, é nova e bem cuidada. O motorista pergunta se alguém vai para Mandimba, eu digo que sim. Ele diz que esta indo para o Téte e quer levar alguém até Mandimba para ajudar no combustível. Digo que estou indo para o Téte pelo mesmo caminho que ele estava indo e pergunto se posso seguir com ele todo o caminho. Por oitocentos meticais ele diz que sim. È um funcionário publico. É comum usar as viagens do trabalho para faturar algum. Ele diz “ajudar no combustível” como eufemismo para “meu lucro”, já que as viagens e combustível das mesmas são pagos pelo governo. A lição aqui, ao lidar com funcionários públicos é, eles sempre são muito importantes, são uma autoridade, e você deve tratá-los como tal. Algo que ainda não consigo fazer, em especial ao lembrar que essas “autoridades” são sempre os mais corruptos.
Disse adeus a Jackson, e a Lichinga. Saímos por volta das cinco da manhã, com a promessa de chegarmos aos Téte até às três da tarde. Perfeito. Me sentei e relaxei acompanhando a paisagem. No amanhecer as luzes do sol pintavam de um laranja roseado as nuvens que estavam bem baixas. E uma neblina que subia da floresta fazia as montanhas flutuarem num mar de nuvens. Terceiro azar do dia, as pilhas que comprei para a câmera não funcionam muito bem, e não tenho nenhuma foto decente das montanhas. Como já conheço o caminho, e o carro esta passando rápido demais para que eu possa captar qualquer outro detalhe, aproveito para dormir. A conversa com o motorista não era legal o suficiente para me manter acordado também. Nada de novo, “sou funcionário publico, tenho dinheiro, duas famílias, uma aqui outra no Téte… blábláblá”, coisa que a gente escuta em toda esquina aqui.

saindo de lichinga

saindo de lichinga

Chegamos a Mandimba antes das oito da manha, nesse ritmo vamos chegar ao Téte por volta da uma da tarde. Chegamos à fronteira Moçambicana. Os moradores só precisam apresentar um pedaço de papel, onde é carimbada a saída do país, depois a entrada no Malawi, ou vice e versa. Quando apresento o meu passaporte começa mais um teatro. A lição novamente. Autoridades! Tentando encontrar um meio de receber uma propina dois guardas começam a procurar defeitos no meu visto, me fazendo esperar vinte vezes o tempo normal. Ligam para a central em Maputo, ou fingem ligar. Não sei ao certo. Por fim carimbam minha saída. Atravessamos então a terra de ninguém. Essa área de uns quatro quilômetros de extensão, onde não é nem Moçambique e nem Malawi. Algumas casas e uma situação bastante precária.
Na borda do Malawi, rapidamente sou rodeado por cambistas. O mercado negro entre dólares, euros, kwatchas e meticais acontece assim, a luz do dia, sem problemas. O sol já saiu, esta tudo muito claro, mas ainda um pouco frio. Um jovem oficial é o responsável do posto, ele tem um rosto bastante honesto. E, quarto azar do dia, ele me diz não. Não posso entrar no país, deveria ter um visto emitido pela embaixada em Maputo, blábláblá. Sem outras possibilidades, faço a então a pergunta que abre portas em Moçambique, “como podemos resolver isso?”. Mas ele não morde. 21 dias depois vou descobrir que ele não era honesto, só era meio burro. O motorista do carro diz que não pode me esperar e parte. Tento argumentar mais uma vez, e nada. O que me resta é voltar para a fronteira Moçambicana. Dessa vez, de bicicleta-taxi.
Quando chego, a peça de teatro começa novamente. Sempre procurando um meio de você oferecer algum, sempre um problema. Isso cansa. Depois de uns belos trinta minutos eles cancelaram a minha saída do país. Então perguntei se dando a volta no Malawi, sem sair de Moçambique, chegaria no mesmo dia ao Téte. A resposta foi sim. Aí está a segunda lição dessa viagem. Nunca confie em informações relativas ao tempo de uma viagem, da saída de um carro, da espera de algo. O tempo aqui é outro.
Bom acreditando na informação resolvi seguir viagem. Voltei a Mandimba de bicicleta. Entrei no primeiro carro para Coamba. Um pequeno caminhão azul, com umas quinze pessoas encima. Terceira lição dessa viagem. Jamais sente-se na parte de trás de um caminhão. O caminhão demorava a sair, alguém comprando comida e uma pequena discussão no meio da rua impedia de sairmos. Vendedores cercam o carro, como de costume, oferecendo ovo cozido, bolachas, sucos e refrigerantes. Coisa normal no Brasil também. Apenas a insistência aqui é maior. Já são umas nove e meia quando saio de Mandimba.
Um ponto importante aqui é que o Norte do país foi abandonado durante o período colonial, e mesmo agora na republica, ainda carece de investimentos. Um dos pontos que mais salta os olhos é a falta de estradas pavimentadas. A estrada para Coamba esta horrível nesse período de chuvas. No inicio, chega a ser engraçado os sacolejos do carro, as pessoas pulando, o calor, as crianças chorando. Mas depois de umas horas a graça acabou. Minhas costas doíam desesperadamente, batendo constantemente na lateral da carroceria do caminhão. Era impossível mover um músculo, esticar a perna. Perna que eu nem sentia mais. A criança fazendo manha, chorava e gritava sem parar por um suco que a mãe dizia, iria lhe dar em casa. Eu já estava naquele ponto onde a dor vira raiva, irritação e me perguntava quando ela iria dar um “sossega” naquele menino. Não deu. Deu o suco no final. No caminho procurei saber como ir ao Téte. Me disseram, “basta subir num carro para Mecanhelas” e assim, mal o carro parou, desci para um outro, agora uma van, que saía para aquela direção.
Coamba é um ponto estratégico. Dali se vai para Nampula, Malawi, Zimbábue, Chimoio, Maputo, Niassa. Há um confusão de gente em volta da paragem, mas isso é normal em toda paragem, algumas mais, outras menos. O carro saiu, lotado. Uma constante aqui, o carro não sai enquanto na estiver lotado. Lotado quer dizer 4 pessoas em cada banco para 3, sem contar bolsas, malas e crianças. Mal saímos da cidade, o pneu estava furado. La ficamos parados esperando o concerto, que demora. Aqui eu já começava a realizar que eu não iria chegar no Téte no mesmo dia, mas não tinha idéia do quão distante eu estava na realidade.
Enquanto o carro estava parado uma pessoa se aproximou. Era um negro, que pela aparência das roupas e jóias, tinha um dinheiro a mais. Então, esse se aproximar de mim é mais do que um gesto de simpatia, ou curiosidade. Esse se aproximar de mim quer dizer “vejam, tenho dinheiro, sou mais rico que vocês, e por isso posso chegar próximo ao branco e conversar com ele!”. Para piorar insistia em falar em inglês. Podia ser um Malawiano, mas era mais provável que fosse um estudante universitário de algum pai rico naquela localidade. Então, não conversei. Desconversei. Brinquei com umas crianças que surgiram curiosas com o carro quebrado e com o branco perdido. O cara ainda ficou me seguindo, mas logo desistiu. Passou um outro carro, aberto, camionete. Fiz sinal, paguei uma parte para o que ficava e parti no novo carro.
Um grupo de pescadores estava nesse carro. Conversamos em português, e um deles me pediu para ouvir o radio que trazia comigo, um mp3. Assim fomos indo. Conversando por alguns minutos, até que o assunto em comum morreu. Havia na carga uns cadernos, e um dos passageiros surrupiava alguns cadernos, rapidamente lançando-os na sua bolsa. Então alguém falou numa conversa em língua local, Malawi. Perguntei o que falavam, disseram que não iriam entrar no Malawi hoje, pois a fronteira estaria fechada quando chegássemos lá. O que?! Malawi?! Sim, o destino desse carro era uma segunda entrada mais ao sul do Malawi. Desci no meio do caminho, numa espécie de mercearia de beira de estrada, um dos poucos lugares onde se podia encontrar pão naquela área. Pedi carona a um caminhão que voltava no mesmo caminho para Coamba. Antes de sairmos, o carro em que eu estava – o primeiro carro – passou pela estrada, e os passageiros me saudaram.
O caminhoneiro me diz que sua esposa esta na cabine com ele e que por isso devo ir atrás, na carroceria. Então subo e um malawiano também de carona me cumprimenta sorrindo. Diz que esta indo visitar a mãe que mora algumas vilas antes de Coamba. Futebol vem a seguir, depois língua inglesa. Esta ficando frio e saco minha jaqueta de dentro da mochila. Ele veste uma capa de chuva. O motorista para comprar lenha, bananas e sei lá mais o que. Na ultima parada me disse para ir na cabina. O rapaz desceu mais a frente e então começou a chuva. Que ia durar até o dia seguinte. O motorista me pergunta de cara qual a minha religião. Disse que não tinha nenhuma religião. Então ele me passou um sermão mulçumano. Me contando como a religião lhe deu educação, quando os colégios católicos da época colonial não aceitavam mulçumanos depois da quarta classe. A mulher esta ali sentada, mas o silêncio dela é total, um dia ainda escrevo sobre as mulheres africanas, é algo de impressionante. Chegamos a Coamba com umas garotas na carroceria do caminhão, uma carona até a escola. Já estava escuro, o motorista deixou a mulher em casa, um bairro de pequenas casinhas, afastado do centro, o caminhão passando umas seis crianças correndo atrás. Filhos do casal. Depois vamos ao centro. No caminho ele da carona para uma moça, algo que com certeza vai ser mais que essa carona. Ele me deixa na paragem de carros e me cobra a carona. Diz que são oitenta, peço um desconto, ele não dá, lhe estendo uma nota de cem, ele diz que não tem troco e fecha a porta do caminhão. Filho da puta. Quarta lição, não deixe verem que você tem dinheiro, todos já pensam que você realmente tem, então não dê motivos.
O hotel é daqueles lugares de filme. Numa cidade de cruzamentos, estrada de chão, esta escuro e chovendo. Aquela luz amarela, nas paredes com a pintura já velha e foscas. Mesinhas de bar numa varanda estreita e comprida, homens bebendo e me olhando. Algumas prostitutas, também me olhando. É hora de limitar os movimentos, pensar rápido, reconhecer um rosto amigo e ficar calmo. Coamba é uma cidade da qual sempre ouço falar não muito bem. Então consigo meu quarto e me fico lá, saindo para comer e comprar créditos de telefone. Quando saio uma das moças vem falar comigo no bar. Bem educada e simpática pergunta se pode pedir uma cerveja para nós dois. Peço desculpas, agradeço o convite e volto para o meu quarto.
Chego ao quarto, conto o dinheiro. Pelas informações que tenho com o motorista do caminhão percebo que tenho dinheiro suficiente para voltar, ou, bem apertado, chegar ao destino final. É arriscar, mas eu posso bancar mais uns dois dias de viagem. Então mando uma mensagem para a minha escola dizendo que continuo na estrada. Pergunto ao rapaz da hospedagem que horas sai o carro para Guroe, ele diz quatro da manhã. Volto para o quarto, leio um pouco, escuto musica. Minha costa tem uma faixa roxa na altura da lombar. Por conta das batidas no caminhão azul essa tarde. É a primeira vez que trago gelol numa viagem. Como uns biscoitos com coca, fumo, relaxo e vou dormir. Estou quebrado.

mozatripmapcontinua…

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comentários
  1. Jr Silgueiro disse:

    Massa.
    Tua historia, tua experiência, o que você se tornou (sempre foi).
    Admirável, empolgante, motivante!
    Avoa!
    Forte Abraço

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