Arquivo de março, 2009

Enxertos

Publicado: 28 de março de 2009 em Sem Categoria

Algumas coisas que tenho lido e que me deixam com a cabeça no lugar. Conversei com algumas pessoas sobre o desânimo e como luto contra ele. Certos textos são minha principal arma contra ele. Espero que gostem.

Todas as línguas derivadas do latim formam a palavra “compaixão” com o prefixo com – e a raiz passio, que originariamente significa “sofrimento”. Em outras línguas, por exemplo, em tcheco, em polonês, em alemão, em sueco essa palavra se traduz por um substantivo formado com um prefixo equivalente seguido da palavra “sentimento” (em tcheco: soucit; em polonês: wspol-czucie; em alemão: Mitgefühl; em sueco: méd-känsla).
Nas línguas derivadas do latim, a palavra compaixão significa que não se pode olhar o sofrimento do próximo com o coração frio, em outras palavras: sentimos simpatia por quem sofre. Uma outra palavra que tem mais ou menos o mesmo significado: piedade (em inglês pity, em italiano pietà.etc), sugere mesmo uma espécie de indulgência em relação ao ser que sofre. Ter piedade de uma mulher significa sentir-se mais favorecido do que ela, é inclinar-se, abaixar-se até ela.
É por isso que a palavra compaixão inspira, em geral, desconfiança; designa um sentimento considerado de segunda ordem que não tem muito a ver com o amor. Amar alguém por compaixão não é amar de verdade.
Nas línguas que formam a palavra compaixão não com a raiz “passio:sofrimento”, mas com o substantivo “sentimento”, a palavra é empregada mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que ela designa um sentimento mau ou medíocre. A força secreta de sua etimologia banha a palavra com uma outra luz e lhe dá um sentido mais amplo: ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com alguém sua infelicidade, mas é também sentir com esse alguém qualquer outra emoção: alegria, angustia, felicidade, dor. Essa compaixão (no sentido soucit, wspol-czucie, Mitgefühl, méd-känsla) designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afetiva – a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo.

Milan Kundera

Sim, volta as costas à doce luz do sol. Rasga os portões de que outros evitam aproxirma-se. Chegou o tempo de mostrar através dos teus atos que em coragem moral o homem é igual dos deuses, suficientemente audacioso para enfrentar essa escura e horrível caverna e para abrir o caminho até à estreita passagem, rodear-se com as chamas do inferno, e fazê-lo serenamente, mesmo com o risco de cair no nada.

Fausto, Goethe.

Ja, Kehre nur der holden Erdensonne
Entschl deinen Rücken zu!
Vermesse dich, die Pf orten auf zureiβen,
Vor denen jeder gern vorüberscleicht!
Hier ist es Zeit, durch Taten zu beweisen,
Das Manneswürde nicht der Götterhöhe wiecht,
Vor jener dunkeln Höhl e nicht zu beben.
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21 dias… parte V

Publicado: 27 de março de 2009 em Sem Categoria

Quando cheguei à cidade do Téte a primeira coisa que notei foi que era realmente uma cidade, a segunda coisa foi o calor. A temperatura média é acima dos 35º. A cidade é rodeada por uma cadeia de montes, na baixada de um rio, o Zambezi, e isso causa a sensação de estar numa panelada abafada. Muita pessoas na rua, muitos carros. Almoçamos num restaurante logo em frente a parada do ônibus, chamado Pik Nik. Dali cruzamos parte da cidade a pé, chegamos à ponte sobre o rio e cruzamos esta andando também. ponte-do-teteDo outro lado, entramos num bairro a direita para nos aproximarmos de uma formação rochosa que chama atenção de longe. O bairro crescia e se espalhava em torno dessas rochas. Centenas de casas de tijolo ou barro, com telhados de zinco o palha. Animais silvestres presos às árvores e crianças correndo para cima e para baixo.tete

Infelizmente as rochas eram usadas como latrina publica. Apesar do cheiro nada agradável, a vista era espetacular.vista-de-tete

Dali voltamos à estrada e pedimos carona até o ponto do próximo carro que nos levaria até à escola onde iríamos ficar. Uma pequena camionete parou e subimos, poucos quilômetros à frente descemos. Muitos carros esperavam pessoas para seguir ou para o Malawi, Zâmbia ou mesmo Zimbábue. Ficamos esperando o carro para Chiuta. Nenhuma novidade, uma van branca, superlotada e quente. Sentamos no ultimo banco. Brancos são colocados normalmente ou no banco da frente ou neste último. Ali esperamos. O carro partiu, voltou até perto de ponte procurando passageiros e depois seguiu na direção que queríamos ir. Chegando no cruzamento se fossemos em frente chegaríamos ao Malawi, virando a esquerda iríamos para Zâmbia, mas antes chegaríamos à escola. Fomos pela esquerda.placa

No caminho a vegetação é farta, verde, abundante. Montes, vilas e alguns rios cruzando o caminho. Muitos córregos secos. Cruzamos uma ponte sobre um largo rio e em seguida passamos por uma vila que estava se transformando em cidade. Uma das pessoas comentou que um padre italiano estabeleceu ali uma escola e que isso trouxe certo desenvolvimento para o lugar, pudemos ver a escola à beira da estrada.

Quase uma hora e meia depois chegamos na vila de Milange, mais alguns quilômetros, dois ou três estaríamos na escola. Fiquei com um certo receio quando o motorista disse que iria deixar todos os passageiros e depois nos deixar na escola. Estar com as meninas sempre me trazia essas preocupações. Por fim ele não deixou todos e havia no carro ainda uns cinco passageiros quando ele nos deixou na porta da escola. Deixando a estrada e entrando numa estrada de chão por dois quilômetros chegamos.

A escola da ADPP ali está em construção e o projeto é diferente de todos os outros que visitei. As casas dos estudantes me lembraram quiosques de veraneio. Mais arejadas e confortáveis do que os outros. O prédio principal ainda está em construção, mas já podia se ver como ficara. No entanto, as casas dos professores e dos voluntários eram pequenas casas de barro, chapiscadas de cimento e cobertas com telhados de zinco. Não havia banheiros também. Cinco latrinas a céu aberto, cercadas por estruturas de paus e lona preta, dividindo a lugar do banho da latrina em si, ficavam alinhadas ao fundo das casas. No calor do Téte um banho de balde era extremamente bem vindo.

A voluntária que estava ali nos esperava, mas no momento estava ocupada e então nos levaram para uma pequena varanda circular, coberta de palha e com algumas cadeiras onde tomamos água e esperamos. Lucia (Lutchia) a voluntária local, surgiu sorrindo. Nós conhecíamos do natal passado e foi um reencontro muito feliz.

Ela nos guiou até sua casa. Toda decorada com fotos e capulanas nas paredes, esteiras de bambu pelo chão. Ela dividiu a casa em uma sala de estar e duas camas com mosquiteiros que faziam a “outra peça”. Lucia é italiana e tem esse espírito de “mama” italiana não deixando nada nos faltar e preocupada em nos fazer sentir o mais confortável possível. Deixamos as coisas ali em sua casa. Ela nos mostrou o local para o banho e disse que depois do banho o jantar nos esperava. Era sábado a noite, dia de “Noite Especial” uma atividade comum a todas as escolas da ADPP que é um baile para os estudantes, com alguns jogos e brincadeiras.

Depois do banho e do jantar (frango assado!) esperamos pela baile. Houve teatro, depois danças locais e coral. É tudo muito amador, mas feito com genuína vontade de entreter e eu ficava, como sempre fico sorrindo e aplaudindo. Depois a musica e a dança. Passadas e marrabentas, bem ao gosto dos jovens. Contrariando os costumes, uma das estudantes se adiantou e me tirou para dançar, apenas para causar o riso geral. Anna e Laura ficavam meio deslocadas, olhando de longe. Lucia e eu estávamos já suando na roda de dança. Por fim puxei as duas para dentro do baile.

A escola não tem energia corrente, apenas um gerador e assim sendo a festa acabou às onze da noite. Ainda ficamos conversando. Anna e Laura foram dormir. Eu e Lucia ficamos até mais tarde conversando. Lucia é dessas que fala com as mãos, sempre entusiasmada com o que diz. E a conversa corria fácil. Por fim, era hora de dormir. O céu do Téte à noite é só estrelas, uma visão inesquecível!

Me dirige para o meu quarto, onde dormi mais Laura e Anna. Demorei onze dias para dormir no meu local de destino. Estava muito feliz.eu

21 dias… parte IV

Publicado: 20 de março de 2009 em Sem Categoria

Na Young me recebeu com um carinho terno, um abraço longo, aconchegante. E me senti a salvo. Estava escuro e ficamos ali trocando pequenas frases de quem não se via há muito tempo. Me conduziu então até a casa dos voluntários. Foi feliz reencontrar amigos com os quais tinha passado o natal passado. A casa na verdade eram casas, três casinhas redondas, em cada qual viviam dois voluntários. Ficamos na ultima, onde moravam Laura e Noemi, ambas italianas. Era como chegar em casa novamente. A casa me lembrava a minha casa, com tudo espalhado numa bagunça jovial, numa desordem que me acalmava. Livros, papeis, capulanas, roupas, sapatos, malas, tudo ali, despojadamente organizado em caos. Há ali dois beliches em cada quarto, a meninas dormiam nas camas debaixo, Na Young na de cima e eu no chão.

Laura é uma mulher de 33 anos. Lúcida, organizada no seu modo, ativa. Morena, de cabelos negros, um corpo esguio e um sorriso largo. Ela estava sempre atarefada, o que me deu um inveja saudável, uma vontade de fazer igual. Ela trabalha recolhendo crianças de rua e encaminhando para a escola de alfabetização. Leva dois ou três meses com cada criança até que elas tenham confiança suficiente para acompanhá-la até a escola. Um trabalho bonito e comovente.

Noemi é o oposto. Loira, alta, corpulenta. De uma lucidez louca, falando de tudo ao mesmo tempo, pulando de um assunto para o outro sem pormenores e sem métodos. Uma torrente fluente de tudo. Impropérios e bênçãos saindo ao mesmo tempo. Não encontrei conversa mais instigante do que as que tive com ela. Ela trabalha na construção de escolas e poços de água. Quando está trabalhando é séria e leva tudo como uma chefe de obras das mais exigentes e justas. Mas ali, na intimidade do quarto era santa louca vertendo sabedoria insana. Numa das primeiras noites, passei seis dias em Chimoio, ela tocou violão e cantava musicas populares de seus país. Me atrevi a tocar com ela uma das minhas duas canções e levados os dois pela musica e outras coisas, compomos um arranjo todo novo, uma melodia toda nova e foi assim que passamos as noites, cantando e falando até um sono além de nós nos arrebatar.

Durante o dia andava pelo projeto com Na Young. Conversando, relembrando e vivendo um algo novo. Mas algo tinha se perdido e embora ficássemos juntos o tempo todo, percebia que não estávamos no mesmo lugar e momento. Mesmo assim, foram dias felizes.

No terceiro dia que estava ali, Junior e Lívia, amigos que conhecia desde os EUA vieram para uma visita surpresa e por fim, fomos todos, eles mais eu e Na Young para a cidade deles, Gôndola, a 15 minutos de carro de Chimoio, para passar a noite e um dia.

Gôndola era um importante entreposto comercial da linha do trem. A arquitetura portuguesa está por todo lado, e as casas me lembravam antigos subúrbios do Rio de Janeiro, com casas de janelas largas e altas e varandas que circundavam toda a casa. O centro, a parte principal da cidade é toda assim, portuguesa. Há até um clube com piscina olímpica, um estádio de futebol e uma quase imponente estação de trem. Mas após o fim do período colônia, tudo foi abandonado. A piscina é cheia de sapos, o estádio exceto pelo campo, virou latrina e a estação de trem não funciona como nos tempos passados. É um passado que morre em vida.

Fizemos “vaca atolada”, carne com mandioca cozida, para celebrar e me deliciei com esse sabor de casa. Conversar com Junior é sempre uma experiência divertida e apaga as preocupações da vida. Um bom rapaz, com um bom coração, um bom amigo.

De regresso a Chimoio, encontramos todos os outros voluntários. Gerard, Laura, Anna, Sandra e João. Gerard é um alemão jovem, 21 anos, cheio de energia. Empolgante, todo sorriso e gestos. Com braços e pernas longas, cada movimento seu tinha um que de caricato, mas autentico, só dele. Um sotaque estranho para inglês e português. Português que mesmo não dominando não tinha medo de usar. Laura é uma menina da Polônia, estava no fim do seu período. Calada, religiosa, meiga e atenciosa. Não falava muito de si e por motivos óbvios não dava muita abertura para conversas mais intimas. Anna é russa, magra e pequena, olhos azul cobalto, cabelos de um loiro escuro e sardas no rosto, tímida, mas que quando a vontade podia falar de tudo, e discutimos livros e constelações com a mesma facilidade. Foi engraçado como passamos de 1984 para o zodíaco como se tudo fosse uma coisa só. Sandra e João são um casal português. Mais velhos e adultos, eram também mais sérios e calados. Sandra sorria e trocava algumas frases amigáveis, já João apenas os cumprimentos normais do dia a dia. Talvez por não falarem inglês se mantinham a parte, já que entre russos, poloneses, alemães, coreanos e italianos ou falávamos inglês ou caminhávamos escorregando pelo português.

Na Young foi embora. Tínhamos tentado que ela viesse para o mesmo projeto que eu estou, plano que tínhamos desde os EUA, mas aqueles dias nos mostraram que não seria uma boa idéia. Por fim foi para Gaza, numa escola a 2 horas de Maputo. Foi uma despedida triste, mas realista. Era claro que éramos queridos um pelo outro, mas amigos além de qualquer outra coisa.

Eu fiquei. Ainda esperava pelo dinheiro para poder continuar a viagem. E esses dias foram ainda muito felizes, pois passava as noites com Noemi, Anna e Laura – a italiana – a cantar e contar. Noemi contava seus amores e elucidava os amores alheios, Anna devaneava filósofos russos e suas revoluções e Laura nos observava com um olhar de quem admirava a loucura alheia calando a sua própria. Durante o dia me agarrava a um livro que encontrei ali, George Orwell, Recordando a Guerra Civil. Um primor para entender as razões por trás do famoso 1984. E quando o pôr do sol aparecia, era o sinal de que logo estaríamos todos ali, bebendo de mais uma noite de extravagâncias filosóficas.

Quando por fim recebi o dinheiro para continuar, não tinha tanta certeza de querer ir. Ficar com mais voluntários naquele ambiente tão rico de trocas era tentador demais para quem ficava todos os dias a espera de uma boa conversa. Mas fui.

De madrugada, Laura – a polonesa -, Anna e eu pegamos uma carona com o carro da escola e fomos até a paragem de ônibus. Lembro que os telefones não funcionavam e por isso desde a noite anterios tentávamos desesperadamente uma maneira de ir até a paragem, já que Anna já havia comprado os bilhetes de passagem para viagem entre Chimoio e Téte. Entre ir a pé e correr o risco de um assalto quase certo e acordar os professores da escola, decidimos por acorda-los, mas por sorte um deles estava ali ainda acordado e decidiu nos dar a carona pessoalmente quando fosse o horário. Às três e meia da madrugada.

Ficamos, eu, Laura (ITA), Anna e Noemi acordados até aquele horário, trocando as ultimas palavras, as ultimas gargalhadas e jogando fora as ultimas certezas das conversas despropositadas mais coerentes que levávamos. Chegada a hora, saímos.

Chegamos e esperamos. O carro já tinha pessoas sentadas e dormindo também a esperar a partida. Subimos também e abracei a mochila no meu colo e adormeci, quando acordei, estávamos a uma hora do Téte. Era o dia 21 de fevereiro, décimo dia de estrada.

joão, laura (pol), sandra, noemi, laura (ita), na young e eu.

joão, laura (pol), sandra, noemi, laura (ita), na young e eu.

gondola

gondola

noemi

noemi

A situação “de facto que se vive em Madagáscar corresponde a um golpe de Estado”, disse ao PÚBLICO o director do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais, de Lisboa, Fernando Jorge Cardoso, a propósito da demissão do Presidente Marc Ravalomanana, que entregou o poder ao vice-almirante Hyppolite Ramaroson.

Na véspera, os militares tinham anunciado o seu apoio à oposição e tomado o palácio presidencial. Ontem, Ravalomanana anunciou que se afastava. “Dada a ingovernabilidade a que se chegou nos últimos dias, a tomada do poder pelas Forças Armadas poderá ser justificada, desde que tal não corresponda à colocação no poder do antigo presidente da câmara de Antananarivo, Andry Rajoelina”, acrescentou Fernando Jorge Cardoso. Este analista defende “a criação de condições para o regresso à ordem institucional, através de eleições”.

Só que as chefias militares, incluindo o vice-almirante Ramaroson, a quem o Presidente passou o poder, tencionam mesmo apoiar Rajoelina, confirmou a agência Reuters.
É cedo ainda para se perceber se as Forças Armadas se encontram ou não unidas, numa altura em que correm na capital os mais desencontrados rumores, incluindo os que referem divisões nas Forças Armadas.

Depois do aviso feito pela União Africana (UA) de que não aceitaria o derrube inconstitucional do Presidente, o investigador português defendeu que esta mesma organização deve ser convidada a participar ou a supervisionar o processo de retoma da legalidade.

Legitimidade

Kissy Agyeman-Togobo, do grupo Global Insight, com sede em Londres, afirmou à Reuters que Rajoelina poderá ser criticado pela forma como está a assumir o poder sem ter sido democraticamente eleito: “A questão é de legitimidade”.
A UA avisou mesmo que tomará medidas duras contra Madagáscar se a situação se agravar nesta ilha do oceano Índico, descoberta em 1500 por Diogo Gomes, irmão de Bartolomeu Dias. “Recordamos o compromisso de respeitar a ordem constitucional, especialmente quanto à sucessão do Presidente”, afirmou Bruno Zidouemba, representante do Burkina Faso na Etiópia e na União Africana.
“Depois de profunda reflexão, decidi dissolver o Governo e ceder o poder, de modo a que se possa estabelecer uma junta militar. Esta decisão foi muito difícil e muito dura, mas teve de ser tomada.

Necessitamos de calma e paz para desenvolver o país”, explicou Ravalomanana em declarações transmitidas pela rádio. Horas antes, o Presidente ainda se declarara disposto a resistir “até à morte”, depois de os militares terem ocupado instalações da Presidência da República (mas ele estava noutro palácio)

Algum tempo depois da comunicação presidencial de renúncia, a oposição afirmou que Rajoelina dirigiria agora uma “autoridade de transição” e trataria de organizar eleições presidenciais e legislativas dentro dos próximos dois anos. Mas ao fim do dia a situação continuava algo confusa e com muitos aspectos a esclarecer.
“Não pensamos que alguém tenha o direito de afastar pela força um Governo eleito”, disse à BBC o ministro dos Negócios Estrangeiros do Botswana, Phando Skelemani, que falava em nome da Comunidade para o desenvolvimento da África Austral (SADC).

Mas a União Africana “está a deparar-se com levantamentos militares num número crescente de países”, comentou ao PÚBLICO o investigador britânico Stephen Ellis, do Afrika Studiecentrum, na cidade holandesa de Leiden.

A actual Constituição de Madagáscar impõe para qualquer candidato à presidência a idade mínima de 40 anos, quando o antigo disc jockey Andry Rajoelina, organizador de eventos entre 1994 e 2000, só tem 34.

Fonte: Publico

Quarta-Feira, 18 de Março de 2009

 

obs: uma pausa no relato dos 21 dias por uma causa nobre…

21 dias… parte III

Publicado: 15 de março de 2009 em Sem Categoria

O despertador toca e abro olhos num segundo seguinte. Parece não dormia tanto, mas estava revigorado. O irmão de Eliseu já estava acordado e em minutos saímos da casa. O caminho até a estrada é meio um labirinto, há uma pequena ponte de madeira, casas de barro e telhado de palha. O irmão nos guia sem o menor esforço.

Quando chegamos na estrada há luzes. Aquelas amarelas dos postes. A cidade ainda não acordou. Mas não há um silêncio. Há um murmurar no ar. E logo percebo que vem do rio que atravessa a cidade. Vamos cruzar a ponte, que com emblemas de portugal nas duas cabeceiras diz que a sua construção é de 1960 e alguma coisa. Enquanto atravessamos a ponte os dois me contam sobre os crocodilos que habitam o rio. Parece que uma menina foi morta há pouco tempo por um desses animais. Quando pergunto se os ataques sçao freqüentes a resposta é incrível. Eles dizem que depende dos feiticeiros e dos feitiços. Há dois tipos de crocodilos. Os crocodilos encantados, que obedecem às ordens de do feiticeiro. Estes apenas buscam a pessoa que o feiticeiro chama. Para que as pessoas não se afoguem debaixo da água, o crocodilo coloca a cabeça da pessoa debaixo de axila e ali ela consegue respirar. O outro tipo são as pessoas encantadas, que se transformam em crocodilo a noite. Essas pessoas não têm muito controle sobre suas ações quando na forma do animal. Mas conseguem se lembrar do que fizeram quando transformados. O irmão me diz que recentemente, coisa de semanas atrás, um homem foi morto por uma turba depois de confessar ser um crocodilo que tinha matado três pessoas. Eu escuto tudo num misto de dúvida e credulidade. Mais tarde, quando já estava em Chimoio, ouvi no rádio a notícia de que a policia investigava três assassinatos em Mocuba causados por um crocodilo mágico.

A cidade me parece perigosa. Entramos numa rua cheia de pequenos comércios e pequenos hotéis. É a rua da paragem dos carros. Há pessoas dormindo nas calçadas. Fogareiros ainda queimando carvão da noite passada, onde assavam pedaços de frango na ponta de um espeto de madeira. Alguns cães sem dono andando sem rumo. E por fim, chegamos a paragem. Me sinto aliviado, estava com medo de andar pela rua.

A paragem aqui é algo mais organizado. A bem da verdade desde Guroe as coisas mudaram um pouco. Há asfalto nas estradas e as paragens são fechadas, os carros saem em seqüência, numa fila. Você compra o bilhete de sua passagem. Mas as condições de viagem não mudam muito. Ainda carros lotados, velhos e assim por diante. Encontramos um carro que vai direto para o rio Zanbezi. É uma camionete azul, com uma cobertura de madeira na parte de trás. Há bancos na traseira. O cobrador tenta me vender o bilhete, mas – sétima lição desta viagem – não compro. Se outro carro sair mais cedo vai ser muito difícil, quase impossível ter meu dinheiro de volta para troca de carro. Então espero o carro sair. Era no máximo quatro trinta quando chegamos. Há um bar dentro da paragem e algumas pessoas continuam fazendo a festa. Algumas moças e rapazes. O dia vai clareando e eles começam a deixar o lugar. As moças passam bem perto de mim, e posso sentir o perfume misturado com o álcool. Uma delas é bem bonita. E passa sorrindo já encima de um carro.

Um menino passa vendendo pão. Esta quentinho e tiro umas moedas do bolso para comprar alguns. Mas Eliseu e seu irmão não aceitam, acabo comprando apenas um. Por fim, já são quase sete e o carro ainda não saiu. Um dos rapazes bêbados do bar se aproxima e começa a falar com um sotaque peculiar, mais arrastado, mais chiado. É de Maputo, capital do país. Esta muito embriagado e diz que vai conseguir ainda hoje uma carona para voltar para sua cidade. Fala alto, reclama de Mocuba, e tenta conversar comigo. Mas não estou no espírito de conversar com bêbado logo de manhã. Então peço licença e saio de perto. Ele ainda vai e volta umas três vezes mas, por fim desiste.

Eu digo aos meninos que eles podem ir embora se desejarem. E após uns minutos eles aceitam e partem. Agradeço imensamente por tudo, e digo que nos encontraremos em Lichinga.

O carro não sai. Os passageiros começam a se revoltar. Alguns me disseram que o segundo dia que esperam esse carro sair, mas ontem ele não lotou e por isso não saiu. Isso me preocupa e começo a procurar alternativas. O motorista do carro sumiu e isso não é bom sinal. Um dos passageiros me oferece um bilhete que ele tinha a mais. Digo que aceito, mas só pago quando o carro sair. Ele concorda.

Começo a andar pela paragem. Algumas dezenas de carros estão ali, saindo e entrando. Paro na entrada e para cada carro que sai pergunto para onde vai. Por fim alguém me pergunta para onde vou e depois de ouvir meu destino e a situação do carro que estou esperando me diz que a melhor coisa a fazer é pegar uma carro para Quilimane, que saem com regularidade, descer em Nicoadala e de lá apanhar um outro carro até o rio. De lá outro carro até Inchope e depois mais um até Chimoio. É isso que faço. Procuro o carro para Quilimane, ainda não está lotado e por isso não compro o bilhete. Espero na porta e compro o penúltimo bilhete. É um microônibus, lotado, absolutamente lotado. Mas sai.

A cidade já está inteira acordada, são quase nove quando saio de Mocuba. O sol esta quente e cidade brilha num tom de amarelo da luz e da poeira. Não vejo nada cidade há não algumas ruas, falo com o cobrador que quero descer em Nicoadala e adormeço.

Acordo no meio do caminho. Apertado, sem sentir direito as minhas pernas. Tento move-las e o esforço para trocar de posição é grande. Há uma moça do meu lado, um casal de idosos depois dela, em pé, à minha frente vai o cobrador. Ninguém se move ou fala. Esta quente e apertado demais para achar alguma graça aqui. Graças ao divino a viagem é curta, uma e meia aproximadamente. O cobrador me diz “Nicoadala”, e vejo algumas casinhas brancas em torno de um cruzamento. Seguindo em frente, Quilimane, virando a direita, Rio Zanbezi. Eu desço e procuro o carro para o rio. Há uma van parada, mas o motorista diz que só sai depois das treze e isso é muito tarde pra mim. Ele diz que devo andar um pouco e procurar um posto de gasolina, ali poderei encontrar carros saindo toda hora.

Não é longe, alguns metros e já chega alguém gritando “boss, boss!” e se oferecendo para carregar minha mochila. Pergunto quanto é o carro e eles vão me colocando dentro de uma velha camionete vermelha, no banco da frente. Pergunto quando o carro sai e a resposta é obvia, “logo” ou “daqui a nada!”. Logo o motorista aparece e diz que já temos passageiros e me cobra a passagem. Pediu 250 meticais, acabou aceitando 135. Mas o carro não sai. Está muito quente lá dentro e saio para esperar do lado de fora. Um rapaz puxa conversa, está indo para Maputo e quer encontrar um carro que vá direto. Acho difícil, ainda falta um dia de viagem até lá e agora já são quase meio dia. Mas ele esta otimista e por isso não digo nada. E então a segunda maior sorte dessa viagem acontece.

Um caminhoneiro, carreteiro eu diria, para e pergunta quem está indo para Chimoio. Só eu estava indo. Ele diz apenas “sobe”. E agora? Como conseguir meu dinheiro de volta? Parei em frente ao motorista do carro e como se fosse a coisa mais normal pedi meu dinheiro. Ele me olhou desconfiado, eu não podia vacilar, tinha que manter a serenidade. Ele enfiou a mão no bolso e me devolveu o dinheiro, quase todo, ficou com dez meticais. Mas, vá lá, dez meticais não era grande problema.

A carreta é grande, importada da África do Sul, o que não diz muito, já que quase tudo é importado de lá. Na cabine, há dois lugares, e mais atrás uma cama, quase um quarto, com TV e geladeira. O rapaz que vai para Maputo sobe também e mais um outro. Antes de sair, um rapaz que estava conseguindo passageiros para esse carro começa a cobrar a passagem. Ouço ele dizer ao motorista que para me levar até Chimoio deveria me cobrar 450 meticais e me preparado para arriscar mais uma vez. Digo que não tenho toda esse dinheiro, que estou viajando em dificuldades e que posso pagar trezentos meticais. Acontece uma pequena negociação, um silêncio por parte do motorista, e por fim ele aceita.

O motorista é filho de português, tem pai português. E isso já muda completamente a forma com que ele trata os demais moçambicanos. Além é claro do fato de ter dinheiro e no caso, ser o motorista. Ele não conversa comigo, apenas alguns comentários. Mas o silêncio impera na maior parte do tempo. Chega há ser um pouco constrangedor. Mas estou cansado e não simpatizei o motorista. Fico calado.

Ele trata mal os outros rapazes. Eles estão atrás, sentados na cama. Quando um dos rapazes encosta o cotovelo para se apoiar no colchão o motorista reage como se tivessem jogado lixo no seu lençol. Dá um sermão no menino, e este fica obrigado a ir numa posição desconfortável pelo resto da viagem. Não temos opção, nem eu e nem eles podemos dizer nada. Foi uma sorte encontrar esse carro e não podemos perder essa oportunidade de chegar a Chimoio ainda hoje.

Por volta das duas da tarde chegamos ao Rio Zanbezi. É imenso, águas barrentas e silenciosas. Corre caudaloso por conta das chuvas, arrastando nas águas pedaços de margem cobertos de plantas. Grandes pedaços! Chego a pensar que se eu nadasse até um deles poderia ficar em pé ali.

O motorista nos manda descer do carro. Diz que a segurança não gosta de pessoas atravesando dentro do carro, pois cada pessoa paga hum metical na travessia. Não há ponte ainda. Esta em construção uma enorme ponte de uns 5 km, não sou muito bom em distâncias. Construída por um conjunto de paises da União Européia mais o Japão. Deve ficar pronta em maio. Enquanto isso as pessoas e carros atravessam de balsa, aqui chamado de batelão. Mas chegamos no intervalo da balsa. É dia 14, dia dos namorados, e a folga ainda vai ser um pouco maior o jeito é esperar.

Há algumas barracas na beira da estrada. Compro uma coca, estando certo de que o motorista não está por perto, afinal, eu não tenho dinheiro teoricamente. E ali me sento esperando. A empresa que esta construindo a ponte tem duas balsas que atravessam com certa freqüência o rio. É a mesma balsa, no mesmo tamanho, mas so atravessa pessoas e carros da empresa. Enquanto esperamos, vemos a balsa trazer um carro, levar outro, na balsa vazia. As duas balsas que fazem a travessia estão do outro lado.

Quero comprar um cigarro, um cigarro mesmo, aqui dizem um palito. Custa um metical. Quando peço a senhora da barraca, ela se levanta e vê que a caixa tem apenas mais um, e me diz “pode finalizar”, e economizo um metical (dez centavos de real). Há um grupo de mulatos no bar, mestiços entre indianos e negros, ou portugueses e negros. Estão ouvindo musica eletrônica que toca deles, um caminhão, provavelmente para levar passageiros quando atravessarem de lá para cá. Sorriem muito, risadas altas, me parecem embriagados e nada amigáveis.

O rapaz que estava no carro comigo me oferece água. Aceito. Ele é fiscal do INSS, a mesma sigla para o mesmo serviço aqui. Conversamos um pouco. Ele é estudado, tem universidade, mora em Maputo. Conhece bem seu país e, portanto conversamos mais sobre isso. E no meio dessa conversa, três moças chegam até a beira do rio para lavar roupas. Estou há uns cem metros ou menos. Vão lavando e a conversa continua. Então as moças tiram as suas roupas. Não é algo erótico, elas querem tomar banho enquanto lavam a roupa. No entanto o efeito é diverso. A conversa para, os homens no bar se agitam e pronto, em segundos tínhamos uma platéia observando o desenlace do caso. Nada acontece no entando, digo, ninguém se levanta, ninguém faz menção de ir até lá. Apenas olham em silencio. Até que um mais bêbado se levanta e anda até as meninas. Elas se cobrem rapidamente, arrumam suas trouxas de roupa e saem.

ponte sobre o rio zambezi

ponte sobre o rio zambezi

E o batelão começa a atravessar o rio.

 

Há uma fila de carros, pessoas, bicicletas e tudo o mais para atravessar. Apenas uma carreta por vez o que significa que o meu carro vai demorar, pois é o quarto da fila. Cada ida de volta do batelão é coisa de vinte minutos ou mais. Eu vou no primeiro. A balsa chega na minha margem lotada. Não sei precisar, talvez trezentas pessoas, mais ou carros. São funcionários públicos que fazem esse serviço, mas usam uniforme to exército. Talvez para intimidar, talvez por que sejam mesmo militares. Primeiro sobe a carreta, depois carros menores, pessoas e por fim bicicletas. Vou lá atrás, atrás ainda das bicicletas. O barco treme todo e volta e meia jatos de água surgem de buracos no piso, molhando um pedaço da minha calça que já esta em estado lastimável. Cheia de barro desde o primeiro tombo na saída da escola.

Do outro lado nada muito diferente. Barracas de madeira vendendo os mesmos produtos, com exceção de uma tenda para passageiros, onde podemos nos sentar e esperar pela balsa. Eu fico parado ao lado da margem. Vendo o rio passar, alguns pescadores se aproximam em suas canoas vendendo peixe. Crianças banhando-se, um vento forte trazendo chuva do norte. Escolho sete pedras, das sete escolho uma e atiro no rio para dar sorte. Acho que funciona, pois na viagem seguinte trazem duas carretas ao invés de uma, e isso quer dizer que a minha carreta vem logo em seguida.

Quando ele chega faz um sinal de que vai para mais a frente e eu sigo correndo atrás do carro. Começo a pensar se foi mesmo uma boa idéia deixar a mochila no caminhão, mas o pensamento é passageiro. Subimos todos e mais alguns. O motorista apanhou mais três pessoas do lado de cá do rio, mas este vão na carroceria. A estrada está vazia, o asfalto é bom, a viagem segue tranqüila sob a luz do fim da tarde.

O motorista esta mais amigável. Conversa um pouco. Mas ainda mantêm certa postura. A verdade é que ele não quer se mostrar muito aberto em frente dos outros passageiros. Mas com o tempo vai falando mais. Conversamos, com participação de todos, sobre política moçambicana, os efeitos do pós-revolução sobre as condições de vida. Ele anti-frelimo, o rapaz do INSS frelimista, mas é claro, como carona não discutiu muito. Falamos sobre sua família, ele diz que todos moram Portugal, diz que ficou, pois o clima de lá não lhe faz bem à saúde. É bastante provável que sejam outros motivos, mas ficamos com esse mesmo. Depois vem o futebol. E não seu se para me provocar, já que a essa altura já sabe que sou brasileiro, ele diz que atualmente a melhor seleção de futebol é a de Portugal. Talvez apenas reflexo da importância que se dizer “português” tem para ele.

Chega a noite e ainda estamos rodando. Os outros passageiros ficam em Inchope. É cruzamento que vai Beira, ou Maputo, ou Chimoio. Sehuimos para Chimoio. O motorista ficou bastante amigável. Comprou dois pacotes de bolacha Maria e me deu um. Percebendo essa nova situação comprei um coca em lata. Foi tranqüilo. Estava com medo dele desistir e parar para dormir em alguma vila no meio do caminho, já eram quase dez da noite. Então comecei a falar muito, a fazer perguntas e assim deixar o cara acordado. Ele era bem de vida pelo que dizia. Três carros, dois micro ônibus, uma oficina onde o gerente era seu genro. Tudo em Maputo, seu destino final.

Chegamos numa cidade, penso que é Chimoio, mas não. Como é dia nos namorados há festas ocorrendo em todo lugar. O motorista vê duas moças andando no acostamento, elas fazem sinal de carona e ele para. As moças sobem, sentam na cama e ao contrário do que pensei, ficam quietas, caladas. Começa a chover de leve e ao longe vejo as luzes da cidade. É Chimoio finalmente. As moças não sabem onde fica a ADPP, logo não tenho como pedir que o motorista me leve até lá. No caminho já havia ligado e falado com amigos que mês esperavam lá, disseram que haviam chamado um táxi para me buscar na parada. Mas a parada que me esperam chegar é a de ônibus e não a de caminhões. O motorista encosta ali. Já bastante amigo, me oferece um espeto de frango com coca, agradeço sem aceitar. Espero pelo táxi.

O lugar onde paramos é em frente a um hotel/bordel. Assim disse um senhor que se apresentou a mim como chefe de bairro. Há muitas pessoas no bordel, digo, no hotel. E como o dia é especial creio ser um movimento fora do normal. Na rua muitas meninas, e o chefe me diz que são malawianas. Diz isso num tom não muito elogioso. Ligo mais uma vez para os amigos, Na Young me atende e numa mistura de inglês e português me diz que o motorista se chama Cecílio e que ele foi para a paragem de ônibus mas esta vindo no lugar correto agora.

eu e Na Young

eu e Na Young

 

De fato, uns cinco minutos depois ele aparece. É fácil me identificar, o único muzungo na rua. Ele para abre a porta e diz “Mauricio?” e eu digo “Cecílio?”, de longe dou adeus ao caminhoneiro e ao chefe do bairro, subo no táxi sorrindo e logo chegarei na casa dos voluntários de Chimoio. Me restam cinqüenta meticais no bolso, não posso nem ir a frente e nem voltar para o Niassa.

21 dias… parte II

Publicado: 10 de março de 2009 em Sem Categoria

Sexta-feira 13 de fevereiro. São quatro da manha quando acabo de pegar minhas coisas, jogar tudo na mochila e sair do quarto. A chuva caiu o tempo todo e está tudo molhado e alagado. Lá fora, debaixo de uma mangueira enorme, logo em frente à pousada fica a parada dos carros, e já se ouvem os gritos dos cobradores. A um caminhão para Guroe esperando passageiros. O motorista ainda dorme enquanto os cobradores chamam passageiros. Esta frio e molhado. Estou sentado com um casal, esperando. Um jovem de calças curtas e paletó, e ainda com uma boina, tipo para golfe, sobe no carro. Eu não sabia, mas esse rapaz, Eliseu, iria me salvar ainda hoje.
Esperamos no carro por quase uma hora, até que apareceu outro caminhão. Ouve uma pequena discussão em língua local, eu não entendi nada obviamente, mas o rapaz entendeu e como já tínhamos nos cumprimentado me disse, “vamos para o outro carro”. Pulamos no outro carro e este saiu ainda procurando passageiros pela cidade, mas é melhor esperar num carro que anda, do que num carro parado. Alguém carrega sacos de milho no caminhão, vários. Fica mais confortável para sentar, mais tarde alguém colocaria um colchão no qual todos sentamos, estava muito confortável. Supiu no carro uma mocinha miúda, Luzia. Quieta, um rosto amigável, mas calada. Eu não sabia, mas essa menina iria me salvar ainda hoje.
Eu não tinha nenhuma idéia da distancia, nem para onde estava indo. Guroe era apenas um nome e Zampezia apenas mais um estado/província de Moçambique. Mas a paisagem começa a mudar. As montanhas parecem, cada uma, feitas de uma única colossal rocha, uma só pedra que sai da terra, como um dente. Em algumas delas, pode-se ver de longe, manchas brancas escorrendo pelas paredes. São enormes quedas d’águas. O carro balança na estrada molhada, mas não lamacenta, o chão é uma terra arenosa e cascalhenta, que de certa torna a viagem mais suave.
Estou com fome, mas como não quero gastar, pois não sei onde vou chegar e nem quando vou chegar, não compro nada na rua. É então que a mão de Luzia aparece. Chocolate? Lógico que aceito. Biscoitos? Sim, claro! Frutas? Muito obrigado, muito obrigado! Meu café da manhã. Então percebem o meu sotaque. E a conversa vai bem. Luzia, Eliseu e um outro rapaz que não perguntei o nome conversam sem rodeios e com certa profundidade sobre língua portuguesa. É uma das poucas conversas que realmente gostei. Depois descubro, são todos professores. E assim vamos agora falando sobre educação, métodos, aulas, diferenças e similaridades. E então o carro começa a subir e passar no meios de enormes montanhas, que eu chamaria de pedras gigantes.
É manhã. O clima meio nublado, meio amanhecendo produz uma visão que faz de Guroe algo inesquecível. Logo após atingirmos certa altura, mas ainda bem abaixo dos cumes, extensos campos de plantação de chá, folhas de chá. Maravilha de verde, com reflexos dourados nas folhas, naquela luz serena da manhã. Guroe é linda. Cada uma das fazendas de plantação tem uma casa colonial, o que dar um ar pitoresco ao cenário. São casas brancas, telhadas à tradicional moda portuguesa. Os campos se estendem da beira da estrada até aos pés das montanhas. Os trabalhadores estão colhendo, e alguns se levantam entre as folhas para me saudar de longe.
Chegamos à cidade. Ainda estou cercado da herança portuguesa. Há sim uma confusão de gente e carros ao redor da parada de ônibus. Aqui também é uma rota de viagem, a cidade é um pouco ocupada com isso. Luzia vai ficar, ela troca números de telefone com Eliseu, eu não sabia, mas estes dois ainda teriam algo. Nos despedimos e ela se vai. 20 e poucos anos e um filho esperando por ela em casa. Solteira, é claro.
Chegamos a um bom tempo, tentamos uma carona com um amigo de Eliseu, mas este já saiu. Eliseu, a essa altura já sei, vai para Mocuba, lugar por onde terei que passar e então decidimos seguir juntos. O carro que vai para Mocuba vai demorar, deixamos nosso telefone com o motorista e saímos para conhecer a cidade. Eu não sabia, mas Eliseu tinha pago a minha passagem. Andamos um pouco, ele conhece a cidade e as montanhas. Me conta que para escalar algumas delas é preciso procurar autoridades locais, digo, tribais, feiticeiros, realizar certos rituais, deixar oferendas. Algumas das montanhas foram usadas como túmulos de antigos reis. E ele me diz que sim, no topo pode-se vê-los.
Podemos ver alguns brancos nas ruas, conversando em inglês. Uma moça americana pelo sotaque e uma menina indiana pela aparência. Um casal. Eliseu oferece um almoço. Nada demais, pão com ovo e suco parmalat. Refeição de rei para mim. Subimos e descemos a rua. Então fico sabendo que ele é filho de um doutor, e sua mãe é também professora. Ele dá aula na UP (universidade de pedagogia) em Lichinga e estava indo visitar a família, pois um tio havia falecido e o pai não estava nada bem.
O carro que iríamos não vai mais, passamos para um outro carro sem problemas de passagem. É algo parecido com uma pampa. Em péssimo estado. Mas o motorista é engraçado e nos faz rir de cada porcaria do carro. Ainda damos uma volta na cidade a procura de passageiros. Alguém sobe, com uma bicicleta, sacos de chá e esteiras de palha. Eliseu e eu vamos na cabine. Ainda vejo a igreja da cidade, construída à beira de um vale. A vista além é linda.
Esse carro não vai para Mocuba diretamente. Vai para Ile e de lá, dizem, poderemos pegar outro carro para Mocuba. O caminho é uma extensa área plana, marcada por formações rochosas similares, mas não tão altas, às de Guroe.
Quase no fim da tarde chegamos a Ile. Uma pequena cidade também no alto de um monte. Pacata, sossegada. Alguns estabelecimentos com nomes brasileiros. Alguém até comenta que as pessoas daqui falam com o sotaque do Brasil. Tento com um senhor na rua. Não parece nada, ao menos para mim.
Não há carro, ao menos não agora. Então tomamos uma coca, essa eu paguei. Dez meticais, um real. Conversamos até que alguém se aproxima e pergunta se queremos ir para Mocuba. Alguém tem um carro e esta procurando passageiros para pagar o combustível. Vamos até lá. Enquanto caminhamos o celular de Eliseu toca. Aquele seu amigo que estava em Guroe agora está aqui. A esperança de economizar cem meticais me anima. Cem meticais são uma refeição decente ou dormir num hotel de quinta. Mas não vai dar certo, o amigo não vai hoje. Vamos ao carro, e uns caras estão bebendo numa festa particular. É um carro de rico. Camionete cabine dubla, ar condicionado e tals. Esperamos eles saírem. São homens bebendo com algumas meninas em volta. Lógico que isso não foi rápido.
Por fim saímos. Os donos do carro são o dono de uma mina de pedras preciosas, o filho do prefeito de Mocuba e um funcionário publico. Então, era lembrar de quem eram e manter a conversa no nível.
A essa altura, Eliseu já tinha se apercebido que eu não tinha dinheiro para pagar um hotel em Mocuba e me ofereceu sua casa. Muito agradecido aceitei. Imaginei, reflexo da mente branca, que seria uma boa ficar na casa de um professor universitário, filho de um médico e com uma mãe também professora.
No caminho, os donos do carro, alcoolizados, com exceção do motorista, começaram a conversar comigo. Se apercebendo que eu era brasileiro as mesmas conversas de sempre recomeçam. Como faço para ir ao Brasil, no Brasil com um carro como esse sou rico, as mulheres de lá gostam de moçambicanos, etc. Perguntas desse nível, fazendo a conversa beirar o insuportável. Eu começo a falar sobre recolhimento de impostos e o que isso representa no desenvolvimento de um país. A conversa melhora um pouco. O funcionário publico, que aparentemente era o mais rico, me convida para dormir na casa dele, como se fosse um premio da loteria, diz que vai me levar para sair na noite e me apresentar para os amigos. A verdade por trás dessa bondade é que ele quer me usar como algo exótico para impressionar as pessoas e lógico, ele acha que eu tenho dinheiro para gastar com ele na noite.
Quando o carro pára para Eliseu descer, desço com ele, agradeço o convite e troco telefone. Já é noite, não vejo Mocuba. Percebo que é uma cidade grande e que nós descemos longe do centro. O irmão de Eliseu esta nos esperando, e então entramos num caminho no mato, passando por bairro sem energia elétrica e percebo que a idéia que eu tinha da casa não era bem a realidade. Talvez a sexta lição dessa viagem.
Quando chegamos, a família já sabia de minha vinda. A mãe cozinhava o jantar. Um balde com água me esperava para meu banho. As cadeiras foram colocadas de forma a eu me sentar ao lado de Eliseu, o mais velho, de frente para os demais. A mãe me cumprimenta com beijo na face, mas ela não me olha nos olhos. Não levanta a cabeça para mim. A irmã pega a minha mochila e guarda, o irmão me traz a água e um par de chinelos, dele provavelmente. Sou conduzido à casa de banho. Mas não houve nenhum silencio mórbido, tudo isso se passou num ar descontraído de conversas e sorrisos. Não havia cerimônia. Eu percebi isso por que sou de fora, mas para eles era o dia a dia se passando. Se algum moçambicano visse aquela cena nada perceberia demais, era o comum do cotidiano. Quando eu voltei a mesa estava posta. Era uma mesa pequena que servia de apoio apenas para eu e Eliseu. O demais tinham seus pratos na mão. A televisão tinha sido colocada para fora da casa, onde estávamos comendo.
Estávamos no fundo de uma casa azul, de tijolos. Atravessamos todo o bairro sem luz e chegamos à casa com eletricidade. Tinha uns cinco por oito? Não tenho certeza. Demos a volta pela direita, a cozinha era feita de madeira, galhos e tabuas, fora da casa. Um cubículo anexo ao final do lado direito. Rodeando a cozinha chegamos na área de trás da casa. Há uma porta e uma janela. Mais atrás, na direção do quintal, ainda do lado direito fica a casa de banho, e mais atrás passa o rio, largo, q cruza a cidade. A casa é modesta, mas aconchegante.
É nessa área do fundo que se passa o jantar. A mãe coloca as panelas na mesa, são pequenas porções, pois ela e os outros dois filhos, e um outro rapaz que morava na casa, vão se servir nas panelas dentro da cozinha. Nos servimos, e sempre me perguntam se como chima, uma polenta sem sal de milho branco, e sempre digo sim. Carne de cabrito acompanha. E eu posso sentir a energia voltando pro meu corpo. Alívio. A um quase imperceptível sinal da mãe a menina levanta e trás água para todos. Na mesa colocam uma fanta e uma coca. Eu sei que Eliseu prefere a coca, mas ele também sabe que prefiro e assim me faz aceitar a coca de qualquer maneira. Hospitalidade.
A novela brasileira ia passando. Falando de alzeimer. Meio fora de contexto eu peço para dormir. Estou muito cansado. Eliseu e o irmão me conduzem há um quarto, aparentemente o do irmão. É a primeira porta a direita, de modo que a janela que dava para os fundos da casa é a janela do quarto. Há uma cama. Ajeito minhas coisas e eles saem do quarto. Como não estou certo se a cama é para mim, coloco meu saco de dormir no chão, amarro meu mosquiteiro e pego uma almofada da cama e deito. Sem saber estava sendo extremamente rude. A cama tinha sido preparada para duas pessoas. Em Moçambique é absolutamente normal dois amigos andarem de mãos dadas, ficar abraçados e, obviamente, dormir na mesma cama. A cama do irmão de Eliseu tinha sido honrosamente sido ofertada a ele, e ele, honrosamente me oferecia dormir na mesma cama. Diferenças culturais. Fiquei no meu saco de dormir mesmo. Combinamos o horário, três e meia da manhã, ele e o irmão vão me levar na parada de ônibus para seguir viagem. Acerto o relógio, digo boa noite e adormeço. Gratidão.

21 dias…

Publicado: 8 de março de 2009 em Sem Categoria

Quando cheguei em Lichinga, ainda era dia. Duas da tarde. Estava cansado, com fome, e devendo 95 meticais para o motorista do caminhão que me trouxe até a cidade. Estava feliz. 21 dias atrás, quando sai daqui não esperava encontrar tudo o que encontrei nessa jornada. 21 um dias atrás. Estava frio, eram quatro da manha e minha mala já estava pronta.
Eu acordei com o alarme. Tudo pronto para sair, fui acordar Jackson, um professor da escola que iria fazer o trecho N’sauca-Lichinga de moto comigo. Ele precisava ir comigo pois iríamos juntos ao banco em Lichinga, onde eu pegaria dinheiro para a minha viagem de cinco dias. Ao ligarmos a moto, a primeira surpresa, os faróis não funcionam muito bem. Esta escuro ainda, e o frio me surpreende, mas decidimos que podíamos ir. A menos de 400 metros da escola, o primeiro susto. Não pude ver a poça de água e caímos na lama. Ninguém machucado, mas sujos. Na da grave, levantamos a moto e prosseguimos. São 45 minutos de moto até Lichinga, o vento cortando e congelando. Na estrada, trabalhadores rurais carregam pesados fardos de lenha, varas de madeira, sacos de carvão. Assustadoramente surgindo do nada no escuro e com o farol avariado. Tenho que encontrar um carro para Mandimba, de lá até a fronteira com o Malawi são menos de cinco quilômetros. E atravessando o Malawi chego no Teté no mesmo dia. Assim, os dois e quatrocentos meticais que iria trazer comigo eram mais que suficiente. Então, depois de passarmos num banco eletrônico, fomo à paragem de carros. Estava vazia, algumas pessoas esperando as chapas. Jackson não é de muita conversa, mas certifica-se de que me lembro do caminho, das cidades que devo passar, se estou com o dinheiro bem guardado. Me diz que estou em Moçambique, que é diferente do Brasil e que o Malawi é perigoso.
Logo aparece uma van. Não parece o tipo que faz chapa, é nova e bem cuidada. O motorista pergunta se alguém vai para Mandimba, eu digo que sim. Ele diz que esta indo para o Téte e quer levar alguém até Mandimba para ajudar no combustível. Digo que estou indo para o Téte pelo mesmo caminho que ele estava indo e pergunto se posso seguir com ele todo o caminho. Por oitocentos meticais ele diz que sim. È um funcionário publico. É comum usar as viagens do trabalho para faturar algum. Ele diz “ajudar no combustível” como eufemismo para “meu lucro”, já que as viagens e combustível das mesmas são pagos pelo governo. A lição aqui, ao lidar com funcionários públicos é, eles sempre são muito importantes, são uma autoridade, e você deve tratá-los como tal. Algo que ainda não consigo fazer, em especial ao lembrar que essas “autoridades” são sempre os mais corruptos.
Disse adeus a Jackson, e a Lichinga. Saímos por volta das cinco da manhã, com a promessa de chegarmos aos Téte até às três da tarde. Perfeito. Me sentei e relaxei acompanhando a paisagem. No amanhecer as luzes do sol pintavam de um laranja roseado as nuvens que estavam bem baixas. E uma neblina que subia da floresta fazia as montanhas flutuarem num mar de nuvens. Terceiro azar do dia, as pilhas que comprei para a câmera não funcionam muito bem, e não tenho nenhuma foto decente das montanhas. Como já conheço o caminho, e o carro esta passando rápido demais para que eu possa captar qualquer outro detalhe, aproveito para dormir. A conversa com o motorista não era legal o suficiente para me manter acordado também. Nada de novo, “sou funcionário publico, tenho dinheiro, duas famílias, uma aqui outra no Téte… blábláblá”, coisa que a gente escuta em toda esquina aqui.

saindo de lichinga

saindo de lichinga

Chegamos a Mandimba antes das oito da manha, nesse ritmo vamos chegar ao Téte por volta da uma da tarde. Chegamos à fronteira Moçambicana. Os moradores só precisam apresentar um pedaço de papel, onde é carimbada a saída do país, depois a entrada no Malawi, ou vice e versa. Quando apresento o meu passaporte começa mais um teatro. A lição novamente. Autoridades! Tentando encontrar um meio de receber uma propina dois guardas começam a procurar defeitos no meu visto, me fazendo esperar vinte vezes o tempo normal. Ligam para a central em Maputo, ou fingem ligar. Não sei ao certo. Por fim carimbam minha saída. Atravessamos então a terra de ninguém. Essa área de uns quatro quilômetros de extensão, onde não é nem Moçambique e nem Malawi. Algumas casas e uma situação bastante precária.
Na borda do Malawi, rapidamente sou rodeado por cambistas. O mercado negro entre dólares, euros, kwatchas e meticais acontece assim, a luz do dia, sem problemas. O sol já saiu, esta tudo muito claro, mas ainda um pouco frio. Um jovem oficial é o responsável do posto, ele tem um rosto bastante honesto. E, quarto azar do dia, ele me diz não. Não posso entrar no país, deveria ter um visto emitido pela embaixada em Maputo, blábláblá. Sem outras possibilidades, faço a então a pergunta que abre portas em Moçambique, “como podemos resolver isso?”. Mas ele não morde. 21 dias depois vou descobrir que ele não era honesto, só era meio burro. O motorista do carro diz que não pode me esperar e parte. Tento argumentar mais uma vez, e nada. O que me resta é voltar para a fronteira Moçambicana. Dessa vez, de bicicleta-taxi.
Quando chego, a peça de teatro começa novamente. Sempre procurando um meio de você oferecer algum, sempre um problema. Isso cansa. Depois de uns belos trinta minutos eles cancelaram a minha saída do país. Então perguntei se dando a volta no Malawi, sem sair de Moçambique, chegaria no mesmo dia ao Téte. A resposta foi sim. Aí está a segunda lição dessa viagem. Nunca confie em informações relativas ao tempo de uma viagem, da saída de um carro, da espera de algo. O tempo aqui é outro.
Bom acreditando na informação resolvi seguir viagem. Voltei a Mandimba de bicicleta. Entrei no primeiro carro para Coamba. Um pequeno caminhão azul, com umas quinze pessoas encima. Terceira lição dessa viagem. Jamais sente-se na parte de trás de um caminhão. O caminhão demorava a sair, alguém comprando comida e uma pequena discussão no meio da rua impedia de sairmos. Vendedores cercam o carro, como de costume, oferecendo ovo cozido, bolachas, sucos e refrigerantes. Coisa normal no Brasil também. Apenas a insistência aqui é maior. Já são umas nove e meia quando saio de Mandimba.
Um ponto importante aqui é que o Norte do país foi abandonado durante o período colonial, e mesmo agora na republica, ainda carece de investimentos. Um dos pontos que mais salta os olhos é a falta de estradas pavimentadas. A estrada para Coamba esta horrível nesse período de chuvas. No inicio, chega a ser engraçado os sacolejos do carro, as pessoas pulando, o calor, as crianças chorando. Mas depois de umas horas a graça acabou. Minhas costas doíam desesperadamente, batendo constantemente na lateral da carroceria do caminhão. Era impossível mover um músculo, esticar a perna. Perna que eu nem sentia mais. A criança fazendo manha, chorava e gritava sem parar por um suco que a mãe dizia, iria lhe dar em casa. Eu já estava naquele ponto onde a dor vira raiva, irritação e me perguntava quando ela iria dar um “sossega” naquele menino. Não deu. Deu o suco no final. No caminho procurei saber como ir ao Téte. Me disseram, “basta subir num carro para Mecanhelas” e assim, mal o carro parou, desci para um outro, agora uma van, que saía para aquela direção.
Coamba é um ponto estratégico. Dali se vai para Nampula, Malawi, Zimbábue, Chimoio, Maputo, Niassa. Há um confusão de gente em volta da paragem, mas isso é normal em toda paragem, algumas mais, outras menos. O carro saiu, lotado. Uma constante aqui, o carro não sai enquanto na estiver lotado. Lotado quer dizer 4 pessoas em cada banco para 3, sem contar bolsas, malas e crianças. Mal saímos da cidade, o pneu estava furado. La ficamos parados esperando o concerto, que demora. Aqui eu já começava a realizar que eu não iria chegar no Téte no mesmo dia, mas não tinha idéia do quão distante eu estava na realidade.
Enquanto o carro estava parado uma pessoa se aproximou. Era um negro, que pela aparência das roupas e jóias, tinha um dinheiro a mais. Então, esse se aproximar de mim é mais do que um gesto de simpatia, ou curiosidade. Esse se aproximar de mim quer dizer “vejam, tenho dinheiro, sou mais rico que vocês, e por isso posso chegar próximo ao branco e conversar com ele!”. Para piorar insistia em falar em inglês. Podia ser um Malawiano, mas era mais provável que fosse um estudante universitário de algum pai rico naquela localidade. Então, não conversei. Desconversei. Brinquei com umas crianças que surgiram curiosas com o carro quebrado e com o branco perdido. O cara ainda ficou me seguindo, mas logo desistiu. Passou um outro carro, aberto, camionete. Fiz sinal, paguei uma parte para o que ficava e parti no novo carro.
Um grupo de pescadores estava nesse carro. Conversamos em português, e um deles me pediu para ouvir o radio que trazia comigo, um mp3. Assim fomos indo. Conversando por alguns minutos, até que o assunto em comum morreu. Havia na carga uns cadernos, e um dos passageiros surrupiava alguns cadernos, rapidamente lançando-os na sua bolsa. Então alguém falou numa conversa em língua local, Malawi. Perguntei o que falavam, disseram que não iriam entrar no Malawi hoje, pois a fronteira estaria fechada quando chegássemos lá. O que?! Malawi?! Sim, o destino desse carro era uma segunda entrada mais ao sul do Malawi. Desci no meio do caminho, numa espécie de mercearia de beira de estrada, um dos poucos lugares onde se podia encontrar pão naquela área. Pedi carona a um caminhão que voltava no mesmo caminho para Coamba. Antes de sairmos, o carro em que eu estava – o primeiro carro – passou pela estrada, e os passageiros me saudaram.
O caminhoneiro me diz que sua esposa esta na cabine com ele e que por isso devo ir atrás, na carroceria. Então subo e um malawiano também de carona me cumprimenta sorrindo. Diz que esta indo visitar a mãe que mora algumas vilas antes de Coamba. Futebol vem a seguir, depois língua inglesa. Esta ficando frio e saco minha jaqueta de dentro da mochila. Ele veste uma capa de chuva. O motorista para comprar lenha, bananas e sei lá mais o que. Na ultima parada me disse para ir na cabina. O rapaz desceu mais a frente e então começou a chuva. Que ia durar até o dia seguinte. O motorista me pergunta de cara qual a minha religião. Disse que não tinha nenhuma religião. Então ele me passou um sermão mulçumano. Me contando como a religião lhe deu educação, quando os colégios católicos da época colonial não aceitavam mulçumanos depois da quarta classe. A mulher esta ali sentada, mas o silêncio dela é total, um dia ainda escrevo sobre as mulheres africanas, é algo de impressionante. Chegamos a Coamba com umas garotas na carroceria do caminhão, uma carona até a escola. Já estava escuro, o motorista deixou a mulher em casa, um bairro de pequenas casinhas, afastado do centro, o caminhão passando umas seis crianças correndo atrás. Filhos do casal. Depois vamos ao centro. No caminho ele da carona para uma moça, algo que com certeza vai ser mais que essa carona. Ele me deixa na paragem de carros e me cobra a carona. Diz que são oitenta, peço um desconto, ele não dá, lhe estendo uma nota de cem, ele diz que não tem troco e fecha a porta do caminhão. Filho da puta. Quarta lição, não deixe verem que você tem dinheiro, todos já pensam que você realmente tem, então não dê motivos.
O hotel é daqueles lugares de filme. Numa cidade de cruzamentos, estrada de chão, esta escuro e chovendo. Aquela luz amarela, nas paredes com a pintura já velha e foscas. Mesinhas de bar numa varanda estreita e comprida, homens bebendo e me olhando. Algumas prostitutas, também me olhando. É hora de limitar os movimentos, pensar rápido, reconhecer um rosto amigo e ficar calmo. Coamba é uma cidade da qual sempre ouço falar não muito bem. Então consigo meu quarto e me fico lá, saindo para comer e comprar créditos de telefone. Quando saio uma das moças vem falar comigo no bar. Bem educada e simpática pergunta se pode pedir uma cerveja para nós dois. Peço desculpas, agradeço o convite e volto para o meu quarto.
Chego ao quarto, conto o dinheiro. Pelas informações que tenho com o motorista do caminhão percebo que tenho dinheiro suficiente para voltar, ou, bem apertado, chegar ao destino final. É arriscar, mas eu posso bancar mais uns dois dias de viagem. Então mando uma mensagem para a minha escola dizendo que continuo na estrada. Pergunto ao rapaz da hospedagem que horas sai o carro para Guroe, ele diz quatro da manhã. Volto para o quarto, leio um pouco, escuto musica. Minha costa tem uma faixa roxa na altura da lombar. Por conta das batidas no caminhão azul essa tarde. É a primeira vez que trago gelol numa viagem. Como uns biscoitos com coca, fumo, relaxo e vou dormir. Estou quebrado.

mozatripmapcontinua…