Arquivo de fevereiro, 2009

Sobre ser grato e agradecer.

Publicado: 10 de fevereiro de 2009 em Sem Categoria

coral

coral

No ir e vir do dia, tenho deixado a mente se acalmar e passear por campos tranqüilos. E no que ela vai e retorna traz consigo um sorriso que me acompanha então o dia todo. É uma flor amarela, com quatro pétalas grandes com um perfume doce. Um presente que alguém lhe traz do campo, com um quê bucólico. Que na sua simplicidade te faz feliz. Leve. Suave.

 

E me perguntei o porquê desse sorriso bobo. E num sopro de vento que passou pela varanda essa noite, enquanto olhava a noite e suas luzes, uma voz sussurrou de leve a palavra “gratidão”. E senti o meu coração bater num passo de valsa, de bossa, feliz! Dizer obrigado de coração, sentir gratidão, estar e ser grato.

Para e penso na oportunidade que tenho de viver aqui, na imensa experiência open mind de viver aqui. E meu espírito em silêncio agradece a cada mão que me foi estendida nessa estrada. Aos bons amigos que tiraram do seu bom coração o seu bom tesouro pra dividir comigo. Aos bons livros que aquele me emprestou, aos bons conselhos que aquele me deu. Um trabalho quando se precisa de grana. Uma mesa de bar quando se precisa conversar. Uma noite a toa pra vadiar e conversar. Uma conversa de olhos nos olhos na sala de jantar.

Grato a cada uma das mulheres que tive a dádiva de dividir pedaços de vida. Cada uma bela à sua maneira, divina, Afrodite encarnada, que me mostrava um mundo onde queria morar para sempre. As amigas, algumas amantes, todas amadas. Cada uma bailarina, passista da roda de sambada vida, linda! Cada uma louca, mulher, espontânea em cada piscar dos olhos. Derramando luz e vida. Luz e vida! D. Sueli, minha rainha! Obrigado!

Grato ao meu pai. O melhor amigo de alguém deveria ser sempre seu pai. Sou grato por poder dizer que é assim comigo.

Cada sorriso. Cada andorinha que passa; cada nota que sai do violão. Cada bom-dia traz consigo um “obrigado” abraçado. Aos músicos e suas músicas, aos escritores e seus livros, aos poetas e suas vidas!

Pela perspectiva de um futuro feliz, obrigado! Por alimentarem meu sorriso otimista, obrigado! Por derramarem o seu bocado na tigela deste monge urbano. Obrigado!

De um coração feliz, para cada coração no lugar certo. Agradecido.

pantalonas

pantalonas

 

Anúncios

Ontem, dia 3 de fevereiro, foi um feriado nacional de Moçambique. Dia do Herói Moçambicano, uma referencia ao primeiro presidente da Frelimo, Eduardo Mondlane. É como um 7 de setembro brasileiro, não, na verdade esta mais para um 4 de julho americano. Já por algumas semanas os estudantes ficavam até tarde da noite ensaiando musicas e danças para o dia especial. E alguns dias antes foram distribuídos tecidos com estampas e cores iguais para as meninas fazerem suas capulanas, e cores e estampas diferentes para os meninos fazerem faixas para trazerem passadas ao peito.

Amanheceu um pouco frio, mas o céu estava azul, algumas nuvens e, parecia, não ia chover. O programa era fazer um desfile por toda a comunidade, cantar músicas de homenagem ao herói, e após o desfile apresentações culturais.

Assim, às oito da manha saíamos pelas ruas da vila. As estudantes com camisetas brancas e capulanas em tons de azul, e os meninos camisetas brancas, calças pretas e suas faixas em tons de verde. Cantávamos uma musica chamada “Tyende pamozi ni ntima umozi” algo como “Caminhamos juntos com o mesmo coração”, segundo a tradição, a preferida de Samora Machel. As crianças logo se juntaram a nós. Algumas pessoas saudavam das janelas ou mesmo da frente de suas casas. Alguns cantavam juntos batendo palmas. As senhoras trajavam capulanas com imagens de heróis moçambicanos, ou com o emblema do partido.

Demos assim a volta pela vila e por fim chegamos a um descampado, onde disseram no discurso, construirão uma praça em homenagem ao herói. Flores foram depositadas num marco, e cantamos o hino nacional moçambicano. “milhões de braços, uma só força”.

Retornamos à escola e debaixo da sombra de um abacateiro os grupos culturais formados pelos estudantes apresentaram suas coreografias para musicas tradicionais. Letras extremamente políticas ou sociais. Uma dizia assim “mataram Mondlane, pensaram que venceram, o povo respondeu, ‘a luta continua!’”. Misturando línguas locais e português as musicas empolgavam a platéia que gritava, dançava e batia palmas com enorme alegria nas faces. Não preciso dizer o que qual extasiado, feliz e agradecido eu estava por estar ali, me arriscando a dançar no meio dos grupos. E ao mesmo tempo, me sentindo totalmente estranho ao meio, como se estivesse invadindo um espaço que não é meu.

Uma peça de teatro amador contava a historia do herói, num tom pícaro, infantil. O motivo é duplo. É do moçambicano um humor simples, infantil, inocente, a peça apenas seguia o estilo do país, e também por conta das crianças que assistiam à peça. A maioria não pode se comunicar em português, logo não tem acesso a livros de história, jornais ou qualquer outra publicação impressa. O teatro é logo um método pedagógico nesses eventos.

            Depois das apresentações, teríamos futebol de onze. Mas a chuva que caiu à tarde foi capaz de transformar nosso jardim em lago artificial.

            Numa conversa com um dos estudantes perguntei com qual idade alguém era considerado adulto aqui, ele disse 60 anos.

– tem certeza? 60 anos não é idoso?

– sim, estou certo, jovem até os 35 anos, idade do meio até 60, e depois adulto.

– e velho? E idoso? – perguntei.

– ah! Só depois dos 70!

            Eu saí sorrindo e aposto que ele não sabe por que…

platéia

platéia

futuros professores

futuros professores

 
abacateiro

abacateiro

senhoras/mamas

senhoras/mamas

passando na vila

passando na vila

céu azul

céu azul