Arquivo de janeiro, 2009

 

 

Madjini

escritório...

escritório...

 

Ultima sexta tivemos uma assembléia de estudantes e professores, onde se discutem assuntos gerais relacionados à escola, manutenção, classes e programação. Um dos temas era saúde. Falavam sobre transportes, acompanhantes para os doentes, quantos tinham ficado doente nas ultimas semanas, de que e qual o quadro atual dos doentes. E sempre falavam de Madjini. Como seria se alguém precisasse sair para tratar de Madjini, como pedir dispensa, ou como justificar.

         Encabulado e sem saber o que era, esperei a assembléia acabar e perguntei a um dos professores.

– O que é Madjini?

– Ah! Madjini são doenças mágicas! Quando alguém faz um feitiço contra você. Então é preciso ir tratar com um curandeiro, melhor se for com o da sua família. Por isso precisam de dispensa, às vezes têm que viajar para chegar até ele.

– Mas…

– É eu sei, para vocês “brancos” é difícil entender.

cotidiano...

cotidiano...

 

Vocabulário Emakhuwa

 Olá = Hai!

Como vai? = Hai Salama?

Tudo bem? = Salama? ou Muhavo? ou Ehaly?

Tudo bem e você? = Salama Kahini nyuwo

Boa Dia! = Mocheleliwa!

Boa Tarde! = Mochecueliwa!

Boa Noite! = Mohileliya

Aonde vai? = Munrowa vayi?

Atrasado! = Ocheleliya

Moça Bonita = Muthiana Orera

Qual o seu nome? = Nsina nanyo ti pani

Obrigado! = Koxukaru, Assante (Yao), Tankhuta (Cena), Tamboga (Ndau), Kothamala (Elómuè), Zikomo Kwambiri (Nyanja)

 Livro

 

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da Terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me porque faço parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti…”

John Donne

No início de “por quem os sinos dobram” de Ernest Hemingway

 

Musicas

 A Long December

If it Kills Me

Musicas bônus!

 Algumas pessoas me perguntaram o que é passada e marrabenta, bom, ae vai…

 Neyma – Kina Marrabenta

 Irmãos Verdades – Isabella

por do sol nos pinheiros...

por do sol nos pinheiros...

kendo em moçambique

kendo em moçambique

Anúncios

Sobre o ócio e a virada da maré…

Publicado: 27 de janeiro de 2009 em Sem Categoria

Acredito que uma das coisas mais difíceis em ser voluntário é achar o seu lugar. Além da falta de recursos, de conforto, da comida estranha (estranha no sentido de não habitual!), das línguas diferentes, dos hábitos; achar o seu lugar nisso tudo é uma missão difícil. A maioria dos trabalhos dos voluntários tem uma descrição bem precisa do que fazer, mas no campo, na prática a coisa é outra. Quando você chega ao seu projeto, as pessoas já estão trabalhando e tudo que precisa ser feito já está sendo, de uma maneira ou outra, por alguém. É fácil ser perder, pensar que não há nada a ser feito. E então, depois de perdido, duas ações são as mais comuns. Ou o voluntário imagina que está de férias e não faz nada de útil, ou pensa que tudo é uma merda e vai embora. Não é incomum encontrar as duas situações, não são a maioria, mas não chegam a ser raros os casos.

            Desde que voltei de Nacala meus sentimentos estavam entre um e o outro. Achar o que fazer no período de férias escolares me deixava angustiado, frustrado e ansioso ao mesmo tempo. Sem alunos, ou mesmo professores não havia nada a fazer. Quando os alunos voltaram, eu estava fora do quadro dos professores e tudo indicava que passaria os próximos quatro meses fazendo serviço de escritório, sem dar aulas ou qualquer outra experiência de campo.

professores

professores

            Mas a maré virou. No conselho de professores um professor notou minha ausência da grade de aulas, pediu se poderíamos ratificar isso, o conselho votou positivamente e agora sou professor de Língua Portuguesa e Ciências Sociais. 110 estudantes! Uma sala de aula! Infinitas experiências, trocas, construções e desconstruções!

            Ainda começamos aulas de Kendo, e um clube de leitura na sexta à noite. Estamos lendo O Mundo de Sofia. E como responsável pelas atividades noturnas da Escola, montei quatro jogos de luzes coloridas e mais uma lâmpada negra, para que as festas de sábado à noite fiquem mais animadas! No último ficamos até 3 da madrugada ao som de marrabentas e passadas!

jogo de luz ou semáforo..?!

jogo de luz ou semáforo..?!

E ontem, 26 de janeiro de 2009 foi meu primeiro dia de aula, como professor! Língua Portuguesa. Primeira aula do dia. Uma cara amarrotada de quem não dormiu nada preocupado com a aula do dia seguinte. Um frio na barriga, as mãos levemente tremendo, o coração na boca. Até que sai a primeira frase e ai, estamos em casa no nosso contar e ouvir histórias. A pergunta “O que é Língua!?” nos guia por uma hora numa conversa gostosa que nos fez rir e pensar bastante. E passou voando! E fiquei feliz com o resultado!

sala de aula

sala de aula

E ainda recebi a notícia de que meu passaporte chega essa semana, vou poder seguir as andorinhas, atravessar o Malawi, chegar ao Téte, ao Oeste!

A maré virou…

musicas pra embalar um sonho…

Publicado: 27 de janeiro de 2009 em Sem Categoria

eu-blog

o que tenho ouvido…

além do que se vê

o velho e o moço

o que tenho feito…

pra lhe entregar

nao confunda alhos com bugalhos. o que ouço está além de mim…

Moçambique é o 175º país dos 179 listados no Human Development Index (Índice de Desenvolvimento Humano), documento elaborado pela ONU, publicado em 2008 com base em dados colhidos em 2006. O documento classifica os países em três grupos, Alto, Médio e Baixo Desenvolvimento. Moçambique esta no ultimo grupo, é claro. O Brasil é o 70º país da lista. Está no grupo do Alto Desenvolvimento. O Índice leva em consideração a expectativa de vida, alfabetização, educação e qualidade de vida dos paises analisados. Mas o que separa de fato o Brasil e Moçambique nesta lista? Qual a diferença entre eles, o que acontece entre essas 105 posições que separam os dois?

lucro acima do povo?

lucro acima do povo?

Moçambique tornou-se independente de Portugal em 25 de junho de 1975. Logo em seguida entra em guerra civil, onde duas forças políticas, hoje partidos, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) esquerda socialista e a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana) centro-direito neoliberal, se enfrentaram pelo controle do país. As duas forças assinaram um tratado de paz em 1995. Mas por conta de dificuldades econômicas, ainda 1987 (logo após o “acidente aéreo” que matou Samora Machel, primeiro presidente do país), Moçambique assinou acordos com o Banco Mundial e o FMI. O que condicionava o país a abandonar definitivamente o caráter socialista de seu governo. Primeiro veio a desindexação dos preços dos produtos de consumo e mais tarde a privatização de empresas estatais. Nos anos mais recentes o País, para poder cumprir com a cartilha do FMI e banco Mundial, tem feito, além de constantes cortes orçamentários nos serviços públicos, reformas nestes para que os mesmos possam alcançar números. Na educação, por exemplo, a reforma curricular dos cursos de magistério estipulou a redução da duração destes cursos de dois e meio, para apenas um ano.

O numero de professores necessários é enorme, e o governo pretende atingi-lo em quatro anos! A corrida pela quantidade desconhece o mínimo de qualidade. As escolas primárias, de primeira a sétima classe, usam sistema de aprovação semi-automática. Aqueles que conhecem o sistema de educação do Brasil têm uma idéia do que isso causa na qualidade dos estudantes aprovados. Alunos mal preparados, professores desqualificados! Um ciclo que daqui a quatro anos, no meu entender, vai estar maior e pior. As escolas privadas, cobrando absurdos da população pobre, começam a aparecer mesmo nas zonas mais remotas, como onde estou, e já arrebatam os filhos de quem pode pagar.

No Brasil, programas como Brasil Alfabetizado continuam produzindo números, e o descaso com a educação publica faz com que a educação seja um dos negócios mais lucrativos que alguém possa ter. O numero escalabroso de universidades privadas que pipocaram no país depois dos acordos assinados com BM e FMI mostra que o cenário moçambicano não é único. Vale lembrar aqui que o ultimo acordo de 30 bilhões de dólares entre o Brasil e o FMI ocorreu em pleno período eleitoral de 2002, e que o fato de Lula concordar com este acordo permitiu a classe-média, a pequena burguesia brasileira, se sentisse confortável em votar num candidato que não era nem a sombra daquele que em 1994 foi boicotado pela edição do debate na TV global.

Outro fato curioso em Moçambique, no aspecto sóciopolítico, é que os “intelectuais” e a juventude “politicamente engajada” são de direita. Uma amiga que estava na Venezuela me disse que o mesmo ocorre lá. A FRELIMO (socialista) é o partido majoritário, algo em torno de 95% das cadeiras das assembléias, congressos, prefeituras e por ai vai. Mas a RENAMO, Resistência Nacional, (neoliberal) agrega os “pensadores”, os “revolucionários”. Dizem que mesmo integrantes do Partido Nacional, FRELIMO, votam na oposição, já que o voto é secreto. Recentemente o líder da RENAMO, Afonso Dhlakama, em uma entrevista ao vivo, brincava de responder um repórter da TV Moçambique, obviamente da FRELIMO. As perguntas com intuito de desmoralizar a pessoa de Dhlakama e seu partido eram respondidas com uma sagacidade digna das velhas raposas políticas internacionais. Assim, há um espectro de democracia no país. A FRELIMO domina tudo e todos. Abusa da máquina do estado durante campanhas. Pessoas para exercerem cargos públicos, como diretor de escolas, chefes hospitalares, administradores públicos, qualquer função, precisam ter a carteira do partido, precisam ser filiados. O partido tem uma grife, lojas no shopping em Maputo. E mesmo no interior, as lojas de decido vendem uma capulana, rouba tradicional para mulheres, com estampas de Samora e Josina Machel, ou mesmo, com os brasões do partido. Na verdade não há opção. A FRELIMO é o único partido a ser votado! E como todo eleitor não quer perder seu voto, vota naquele que sabe que vai ganhar. Num país em a média de analfabetismo chega a 51,9% da população e 66,7% das mulheres, não é espanto algum encontrar analfabetismo político.

Não defendo o neoliberalismo da RENAMO, mas tão pouco apoio o pseudo-socialismo da FRELIMO. Nenhum e nem o outro traz verdadeira esperança de libertação para um povo que está acostumado, depois de séculos de colonização, a ser dominado e que infelizmente continua a baixar a cabeça para lideranças incapazes e corruptas.

No Brasil, analfabetismo político, campanhas com o uso da máquina e do dinheiro publico, somada às campanhas publicitárias que dão a impressão da existência de apenas três ou duas opções, montam um quadro no mínimo semelhante.

Há ainda mais a ser dito, corrupção política e policial, saúde pública, comércio externo, agricultura. As semelhanças vão crescendo, mas a novelas, especialmente a juvenil global, pinta uma figura distorcida da realidade e alimenta esperanças nos corações inocentes dos que acreditam que é realmente assim como aparece na TV. Brasil, o primo rico, está mais para o primo mais velho que comete erros à nossa frente. Oportunidade de aprender com os erros dele!

 

frente de libertação?!

frente de libertação?!

Obs: minhas noites solitárias na savana produziram isso aqui:

 – pra lhe entregar

uma sombra balzaquiana

Publicado: 17 de janeiro de 2009 em Sem Categoria
Tags:,

Seis anos atrás saí de casa. Meu primeiro passo no mundo sozinho foi à noite, dois amigos me ajudaram a levar minhas coisas para um sobrado que eu tinha alugado perto da universidade.

Hoje à noite, no espelho vejo três brincos, duas pulseiras, um anel. Lembro dos óculos que esqueci. Um dente que perdi. Fios de cabelo a menos. Uma marca de expressão do lado do nariz. Uns cabelos brancos, uns cinco ou seis de cada lado. A tatuagem que nunca acaba. Minha fita do Bom Fim. Minhas indiscutíveis olheiras. 29 anos!

Meu ultimo dos vinte! E continuo jogando videogame, lendo meus livros, assistindo meus filmes, internet. Sem o meu lar, sigo viajando por quase um ano. Amigos que vão, amigos que vem; amigos que sempre trago comigo. Saudades, lembranças. Tantas histórias. Tantas coisas para contar. A procura constante, perene, por alguém com o coração no lugar certo. Chamo de menina uma mulher de 20 e tantos anos.

Vejo os amigos que se tornam professores, diretores, produtoras, médicas, jornalistas, músicos, fotógrafos. Aqueles que casam, aqueles que se tornam pais. Uma inveja medrosa. Uma preocupação desleixada. Alguém aqui em Moçambique me perguntou com quantos anos se casava um rapaz no Brasil, e dei a resposta que sempre usei, “por volta dos trinta”, sem perceber que é nessa volta que estou.

Sinto o tempo passando. Não sei a diferença entre geek e nerd. Parei no e-mule e tenho saudades de ICQ. Fico lendo sobre relacionamentos. All-star, jeans, camiseta. Do samba, do rock, do reggae, do folk. Danço, canto e sonho. Um menino velho. Que se assusta ao pensar que chegando aos trinta imaginava estaria mais velho.

Musashi sama uma vez falou sobre fazer do mundo o seu quintal. Às vezes de longe, às vezes de perto, é por esse caminho que tento andar.

my shadow comes with me...

my shadow comes with me...

na folha do caderno

Publicado: 15 de janeiro de 2009 em Sem Categoria

Numa folha rabisco pensamentos.
Engesso a forma livre.
Aprisiono pássaros.
Fecho portas, jogo fora as chaves.

Como colocar aqui a alegria de um coração leve,
se ele pula e rodopia no meu peito
mais feliz do que a mão que escreve?

Num suspiro, fecho os olhos.
Abro Janelas.
Liberto vôos.
Viajo sobre águas, ao oeste.

De Lichinga a Nampula, 45 minutos de vôo. Isso aconteceu no dia 23. Estava calor, muito calor em Nampula. Um aeroporto pequeno, um taxista que me cobrou três vezes o valor da corrida, um chapa que demorou um hora ou mais para começar a andar, pessoas sentadas em todos os lugares possíveis, um truque para passar pelos guardas e lá fomos nós para as quase 4 horas de Nampula para Nacala.

no caminho

no caminho

O caminho entre as duas cidades é cheio de vida. A mata é exuberante. Baobás gigantes, dando sombra e algo mais para famílias desprovidas. Montes formados por apenas uma rocha enorme. Topos arredondados, formas leves e graciosas. Na estrada há um sem numero de pessoas que transitam de um lado para o outro. O motorista apontou uma senhora na rua e disse que ela fazia o caminho nampula-nacala todos os dias a pé. Se verdade ou não, não sei, mas a distancia é de uns 200 km. Há também muito caju! Muitos! Embora não tenha visto nenhum fruto, algumas centenas de pessoas na estrada estavam vendendo castanhas de caju torradas. O carro parou varias vezes e era comumente cercado por vendedores. Frutas, refrigerantes, biscoitos, comida, galinhas, tudo entrava pelas janelas e era quase que lançado no colo dos passageiros. A senhora ao meu lado compra um pouco de tudo, vai jogando as coisas no chão, no colo e quando não cabe mais pede se posso carregar. Enfim, carrego. Ela diz que é fã de novelas brasileiras, adora brasileiros, já teve amigos brasileiros. Eu sorri diante da inocência dela, reflexo de toda uma nação que vê o Brasil como uma esperança de algo melhor.
Chegamos ao fim da tarde a Nacala, mais uns 30 minutos de táxi e estou na escola. Já está escuro e as pessoas estão preparando o jantar. Naquela penumbra alguns sorrisos se aproximaram, me abraçaram, me disseram bem-vindo e me beijaram. Eu estava conhecendo as pessoas com as quais passaria os próximos dias. Natal e Ano Novo. E fiquei feliz de poder fazê-lo!
A escola de Nacala fica a poucos km da praia. Dois ou três. A casa dos voluntários fica numa encosta na beira da praia. Eu estava de férias, mas me perguntava como deveria ser trabalhar lá. Com tanta beleza a nos convidar a só ficar de olhos abertos e sentados. Nacala, praias de areia clara e águas de variados tons de azul. Lindo. Os próximos dias, de 23 a 30 de dezembro, passei ali, em companhia de excelentes pessoas. Estávamos em 25 voluntários. Brasileiros eram nove, depois italianos com seis, portugueses dois, japoneses dois e outros… pessoas diferentes, com motivos diferentes, mas com o coração no lugar certo.

nacala

nacala

Música, teatro, e comida foram a atração do natal. Eu fiz um peixe do mar do jeito que meu pai costumava fazer lá meio do mato grosso com os peixes de água doce. Deu certo. A festa foi animada e com alguns fui à praia de madrugada. Por conta de um plâncton as águas brilhavam fosforescentes quando agitadas. Impressionante. Eu, que nunca tinha passado muito tempo junto ao mar, via agora, à luz da lua, as ondas trazendo milhares de pequenas estrelas. Andar, correr na água se tornou mágico. Alguém perguntou “por que as águas brilham?” alguém respondeu “por conta do plâncton.” Mas alguém retrucou, “não, não é plâncton, é simples mágica!”.

nacala

nacala

Na manha seguinte, cinco pessoas com malária. Mesmo dormindo na varanda da casa não tive malaria. Meu canal inflamou, doeu muito e quando a maioria saiu para a Ilha de Moçambique, no dia 27, eu fiquei com os doentes, os sem grana e os sem folga. Foi ótimo poder ficar e conhecer mais de perto os que ali estavam. Francesca, Lucia, Joana, Noemi, Brusco, Érika, Isabela e Isadora. Pessoas muito queridas, das quais trago boas lembranças.
No dia 30, cedo, fomos à ilha. Num pequeno caminhão, sentamos todos. E onde deveriam ir doze pessoas, foram umas 25. Espremidos entre malas e sacos de comida, sentado sobre um saco de peixe, ou sobre mochilas, com chapéus ou capulanas, passamos pelas 3 horas de viagem debaixo do sol.

ilha de moçambique

ilha de moçambique

Para chegar à ilha há uma comprida ponte de mão única. Se outro carro vem na direção contrária, existem pequenas áreas de estacionamento ao longo da ponte, de modo que um dos carros deve parar ali. A ilha é patrimônio histórico da humanidade, tombado pela UNESCO e de primeira vista já impressiona. Cruzando a ponte você passa por uma extensa aérea de águas azuis turquesa, alguns botes, alguns barcos a velas, dezenas de pescadores. A arquitetura é colonial, mas a maior parte esta em ruínas, marcas da guerra civil por todo lado. A ilha foi a primeira capital do país, há a casa de Camões aqui, de Vasco da Gama, um palácio imperial, um hospital enorme, uma catedral, porém tudo corroído pelo tempo, pela guerra, pela ganância. Andar no hospital da ilha hoje é fonte de desespero e tristeza.
Alguns brancos já perceberam o potencial turístico da ilha, existem, pois, alguns bares e restaurantes, lojas e hotéis que embora não tragam nenhuma placa dizendo “só para brancos!”, deixam claro quem é o seu público pelos valores que cobram. E assim acontece de se encontrarem todos os dias as mesmas pessoas, nos mesmos lugares, se você se comportar como um mucunha. Mas se estiver disposto, como nós estávamos a conhecer a ilha, pelos olhos de quem nela vive, há muitas surpresas a esperar.

ilha de moçambique

ilha de moçambique

Quando era dia 31 à tarde, meu nome já era um pouco conhecido na ilha, e ao caminharmos alguns gritavam de longe, outros vinham para um abraço. Recebemos convites para as festas de Ano Novo, todos os bairros, pequenos guetos, preparavam sua festa, pintando os muros com frases felizes, colocando fitas coloridas, tocando passadas e marrabentas e alguns já dançando. Nós fomos a uma festa preparada por alguns jovens locais, Gito e Hand. Alguns desses jovens falavam francês, italiano, inglês. E desesperadamente tentavam impressionar as garotas brasileiras, italianas, brancas em geral. Alguns, com efeito, conseguiam. Embora não tenha visto nenhum contato além dos já comuns abraços e beijos no rosto, era claro que algumas meninas estavam deslumbradas. A província de Nampula, dizem, tem a população mais bonita de Moça. As meninas são realmente lindas aqui. O gosto moçambicano é para as meninas mais cheias, com carne! Mas na ilha e em Nacala a maioria é magra, de quadril largo, seios generosos e cabelos longos de tranças finas. São lindas. Com roupas coloridas, capulanas, combinando sempre os seus padrões de cor e desenho.
Na hora da virada, estávamos na praia, água nas canelas e fizemos a contagem juntos. Não houve fogos, não houve gritaria, baderna. Apenas musica e a alegria genuína de pessoas mais felizes por estarem juntas do que por uma data qualquer. Nós saímos de festa em festa, felicitando pessoas nas ruas, nas casas. Por fim ficamos numa festa popular, gratuita, onde ouvimos de tudo um pouco. Um dos pontos altos da noite foi Bon Jovi, do qual fiz um vídeo da explosão de alegria com a musica tocando. Quando começou a amanhecer fomos à beira da praia para ver o sol nascer no primeiro dia do ano. Enquanto estávamos contemplando a aurora, alguns meninos pulavam no mar do alto de uma murada de uns cinco metros. Caminhamos pra casa felizes. Abraçávamos-nos sorrindo, beijos entre amigos que se encontravam pela primeira vez. E conversamos ainda até que começamos um por um a dormir. Felizes e gratos.
O dia primeiro passou num vôo, a ultima noite juntos, conversamos até de madrugada. Rimos, de um riso com um que de triste, já nostálgico. Saímos todos juntos, os últimos 60 km juntos, a primeira turma de dividiu no cruzamento para Nacala, outros em outro carro, e fui com esses outros, por mais dez minutos, e por fim, antes do meio dia eu já estava sozinho novamente.
Não demorou muito para sentir o peso do silêncio e da solidão novamente. No hotel, ouvia as musicas que ouvia com os novos amigos, lembrava as conversas e as risadas, as boas histórias. Ria sozinho, e sabia, ou melhor, e sei que vai ser assim por um bom tempo agora.
No dia 3, quando cheguei à escola, encontrando todos novamente, e contanto como foram as minhas férias, eu sentia muita falta do pessoal de Nacala, da Ilha, dos novos amigos. E talvez eu me sinta mais só agora do que antes. Mas esta tudo bem, pois na memória, trago motivos pra sorrir novamente. Sempre.
Eram cinco e trinta hoje quando vi andorinhas brincando no vendo depois da chuva, indo em direção ao oeste, vão cruzar o lago Niassa, o Malawi, e passarão por cima do Tete, queria ir com elas.