Arquivo de dezembro, 2008

Depois de dias trabalhando, chegou o esperado dia da Graduação! Os estudantes perfilados na entrada da escola, com vestimentas sociais brancas e pretas, cantavam desde cedo canções, hinos e contribuiam com o sol para fazer um amanhecer perfeito. A medida que passava entre eles para lehs tirar fotografias cantavam sorrindo para mim “O Mauricio nunca mais esquecerei, suas fotos nunca mais esquecerei, suas musicas nunca mais esquecerei” e eu sorria de volta grato por uma recordação tão sem interesses. A vasta maiorias desses rostos não voltarei a ver a não ser por essas fotografias que tirava naquele momento.
graduandos
graduandos

 A escola estava lotada de autoridades. Algumas oficiais, outras tribais, ritualisticas. Chefes de porções de terra do tamanho de uma bairro, responsavel por dez ou quinze familias. Uma honra que só os homens idosos conseguem. Contrastando com a juventude do representante do governo provincial.

Durante a entrega dos diplomas, as familias e amigos do graduado esperam pelo instante em que ele recebe o papel nas mãos, para logo em seguida abraça-lo, dar-lhe presentes, dinheiro, agrados! As mulheres gritam de alegria, e com orgulho exibem os diplomas que levantam alto para todos verem. É emocionante. Para essas familias, esse diploma representa segurança economica! Esse que agora é professor vai poder cuidar de dez ou mais pessoas na familia. Os anos que demoraram para juntar 5 mil meticais (equivalente a + ou – 416 reais!), custo de dois anos e meio de formação, tem agora a sua recompensa assegurada.

No dia seguinte a montanha me chamou. Ela já estava me paquerando desde que cheguei aqui. E naquele domingo piscou, sorriu, assobiou até que decidi ir vê-la mais de perto. Pemba é nome dessa menina que fica aqui do lado da escola. Quando esta sol ela brilha verde com alguns toques de rocha nua, e quando esta frio, ela fica timida e se esconde atras de nuvens e neblina. A mochila com pão e água, frutas, o canivete, musica e a camera que logo na primeira foto mostrou não ter pilhas! consegui uma carona com o padre local até a sua paroquia, próxima ao pé da montanha. Foram duas horas caminhando por trilhas solitárias. Vez ou outra cruzava um machamba (horta) que os camponeses fazem no meio da mata. Marcas de animais, vi pegadas de macaco, grandes! Insentos diversos. Duas chuvas cairam. E por fim uma vista maravilhosa se extendendo por kilometros! Cadeias de montes, vilas, outras vilas, machambas, aldeias! Tudo se espalhava lá de cima. Fiquei por cerca de uma hora, me sentido parte da montanha, integrado àquela masjestade.

minha namorada...

minha namorada...

Uma hora e meia para descer. Com passos talvez mais leves, embora com os pés pesados de matope.

Dois dias depois o diretor da escola me pediu que fosse a Mandimba, para aplicar o exame de admissão para os alunos que estudarão aqui ano que vem. Mandimba é uma vila famosa por dois motivos. O primeiro é que fica a na fronteira com o Malawi, e esse primeiro motivo é a razão do segundo, a saber, Mandimba é um centro de diversão e entretenimento.Um centro, no entanto, pequeno, e digo novamente, pequeno. embora realmente movimentado à noite, Mandimba é um lugar bastante humilde. Há muita prostituição, as meninas chegam a bater na porta do quarto oferecendo-se. Jovens, algumas meninas, mas já mães, coisa comum por aqui. Por fim resolvi conversar com Julia. Ela me pediu 500 meticais para termos sexo, eu perguntei quando ela queria só para conversar, disse cem meticais, aceitei. 22 anos, mãe de uma menina de 2 anos e sete meses, ela estudava para poder ter um emprego. De que, eu pergunto, ela diz, qualquer, só não quero ficar assim pro resto da vida. Quem toma conta dela, agencia, sei lá, é o tio, Mataka, chefe dos garçons do restaurante mais famosos da cidade. Ela insiste em chama-lo de Papa, papai. No fim, diz que esta com pressa, oferece novamente o serviço, nego, ela diz que não vai querer os cem meticais de conversa e vai embora.

O teste em si foi revelador, ao menos para mim. O secretario de educação local, extremamente politico, nos bajulou dezenas de vezes e colocou um funcionário à nossa disposição. 46 alunos faziam a prova naquela localidade. A escola se chamava Samora Machel, como quase todas as escola secundarias aqui. Quando se iniciou a prova foi que ficou evidente o disparate entre o nivel dos estudantes e o nivel da prova. A diferença era enorme. Duas provas, uma de português e uma de matemática demoram mais de 4 horas para serem feitas. Passando os olhos sobre as provas que me eram entregues, as duvidas que perguntavam e maneira como se comportavam, colando de todas as formas possiveis, mostrava que não sabiam o que estavam fazendo. Triste.

O carro quebrou na ida e na volta. A viagem que deveria ter durado dois dias durou tres. A ida e a volta, de três horas cada, se tornaram seis e oito horas respectivamente.

Na volta, disfunção intestinal, dores pelo corpo. Sinais de malária. Primeiro pensei que poderia ser a água de Mandimba, mas quando acordei à noite com o corpo extremamente dolorido, não tive duvidas, eu estava com Malária. Pedi para ir ao hospital. Aprovetei que um grupo de pessoas ia à cidade e fui junto para o hospital provincial. A consulta custava um metical, oito centavos de real. Fui atendido rapitamente, e acredito que não pelo fato de ser branco ou brasileiro, pois passei por todos os processos, que não levaram cinco minutos. O médico logo me pediu um exame de sangue que feito gratuidamente ficou pronto em meia hora. HIV negativo, Malária negativo. Era a água mesmo. De qualquer forma o doutor me recomendou um anti-malária caso eu continuasse a sentir dores no corpo. me deu o o numero de seu celular, pegou o meu e disse que vem me visitar no final de semana para ver se estou bem! Incrível!

Hoje de manhã o misterioso roubo na casa de uma funcionária da escola foi solucionado. Dois alunos graduados foram os ladrões de uma rádio que ela tinha em casa e que lhe ameaçaram de morte durante o roubo. Como eu tinha tirado foto de todos os graduandos as fotos dos dois já estão na policia e com os arquivos da escola vão chegar às casas dos mesmos ainda hoje.

A Sonia, a secretaria que foi roubada só dizia, São uns malandros, uns mafiosos…

na africa selvagem...

na africa selvagem...

 eu voltarei a postar contos zen, mas antes, mesmo com a possibilidade de perder leitores, recomendo que leiam esses dois textos aqui…

texto 1

texto 2

 

 

Curiosidades…

Publicado: 15 de dezembro de 2008 em Sem Categoria
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Maningue Nice = Muito Legal
Muito Fish = Muito Legal
Sorry Lá = Desculpa
Mata Bicho = Café da Manhã, com direito ao verbo Matabichar. “Já matabichou hoje?”
Senhor Formador = Professor
Ninguem usa MSN ou Orkut, ok, niguem não, mas é muito dificil encontrar quem use.
Leonardo é o maior representante da musica brasileira aqui.
A dança mais popular é a Passada, muito sensual, quando se quer! Mas Marrabenta e Cuduro fazem sucesso tambem.
Não há McDonalds, porque as pessoas comem mais frango, por isso tem KFC!
Nescau = Milo, Nescafé = Ricoffe e Ninho = Nido.
Não ten gerundio, então é assim “estou a ire a escola, e você, o que esta a fazere?”
Fanta de Abacaxi.
Os homens andam de mão dadas. Se abraçam, digo, ficam abraçados sem nenhum constrangimento.
A “cantanda” mais usual é “Ei vem aqui e me dá o numero do seu telefone!”. Sim, funciona…
Matope é o solo barrendo da maior parte do pais, gruda no seu sapato e você pode ficar com até 5cm embaixo dos pés a medida que anda!
Direção dos carros é no lado direito.
Quando pedir feijoada num restaurante não espere Feijoada Brasileira, a feijoada aqui é de feijão claro, com legumes e dobradinha de boi.
Sandes de Tudo, é como se pede um X-Tudo por aqui.

duas semanas… Niassa.

Publicado: 11 de dezembro de 2008 em Sem Categoria

Eu amanheci na rua com meus amigos brasileiros, moçambicanos e portugueses. O vôo estava marcado para as 06h45min, então, por que dormir? Vemos o sol nascer lá no meio do mar. Dizem que da para ouvir o sol encostando no oceano, fazendo aquele barulho de quando colocamos algo bem quente na água. Eu não ouvi. Mas foi absolutamente lindo.

         Depois do adeus, o vôo sai pontualmente. Por alguma razão que desconheço meu assento é na primeira classe. No vôo vem também o presidente da assembléia de Moçambique e de principio achei que era algum religioso, já que as pessoas o cumprimentavam com tanta deferência. Em direção ao norte, primeiro pousamos em Beira, a segunda maior cidade de Moça. Depois Nampula, um aeroporto cercado por uma formosa cadeia de pequenos montes, de topos arredondados, indicando que estão ali há muito tempo! E por fim, após seis horas aproximadamente, Niassa!

         O aeroporto e pequeno, bem pequeno. Niassa é uma das províncias mais afastadas. Província = Estado. A capital, Lichinga é uma cidade com todo o ar de uma cidade que poderíamos encontrar no interior do Mato Grosso, ou em outras regiões pouco habitadas do Brasil. As pessoas se conhecem e sem cumprimentam na rua. Obviamente, mesmo dentro do carro, causo espanto. As pessoas me seguem com o olhar e tento sorrir simpático, acenar para alguns. Não sei se dá certo.

         A escola fica a 35 km da cidade. Chego a ficar um pouco apreensivo com a demora. São tantas as historias que começo a imaginar se Floriano, o motorista que foi me buscar no aeroporto é mesmo Floriano, o motorista da escola. Mas é, e logo vejo um sinal indicando o caminho para a escola. Cruzamos umas seis pequenas vilas, as casas têm teto de palha, construídas de pau a pique. Algumas são de blocos de concreto, mas o telhado é o mesmo. Cabras cruzam as ruas, o sertão me vem à memória. As casas, as pessoas vendendo alguns frutos na beira da estrada, crianças que correm atrás do carro, tudo parecido com os nossos sertões.

         Cheguei. E qual é mesmo a sensação de chegar ao desconhecido? Eu não estava empolgado, nem nervoso. Acho que calmo é a melhor palavra. E só explico isso pela sensação que me acompanha desde que em África cheguei, essa sensação de voltar para um lugar conhecido. Sorrisos acompanhados de olhares inquisidores me cercavam. Mãos eram estendidas, ajuda para as malas, abraços. Sem perceber eu chegava a casa.

         Já estou aqui a quase duas semanas. E como é? Dizer “paradoxal” seria me repetir, mas não há outra coisa a dizer. O moderno e o arcaico convivem lado a lado, a riqueza e a pobreza andam de mãos dadas. Há computadores modernos, telas de LCD, mas os alunos preferem jogar damas num tabuleiro feito por eles mesmo e peças de tampinha de garrafas. Há internet via satélite, mas a comida tem três variações, a saber, feijão com arroz, feijão com chima (uma massa feita de farinha de milho branca) e chima com peixe salgado. Há apresentação de TCC para os formandos, mas a maioria precisa de ajuda para salvar o arquivo de trabalho. São professores de muito, que na verdade pouco sabem. Sinto que estes estudantes estão perdidos entre o passado e o futuro, e esse presente lhes é muito confuso. Alguns pensam em fazer mestrado, e eu os incentivo, mas ao mesmo tempo se apegam às tradições que lhes amarram. Não sabem mais suas historias, mas ainda não conhecem o mundo moderno que lhes foi apresentado. Estão entre lá e o cá, sem outras indicações.

         A realidade difere muito dos planos. Eu gostaria de fazer um clube de leitura, mas a biblioteca esta fechada por conta de furtos. Não há mais o data show, então os filmes que trouxe para as “noites no cinema” ou todos os PowerPoint’s sobre temas diversos são inúteis. Há uma particularidade que me bastante incomoda. A relação professor-aluno aqui. Um professor é quase um deus na terra. Os alunos colocam a mão para trás para falar comigo. Não conseguem me olhar nos olhos. Alguns falam com o rosto virado para o lado, outros para o chão. Mas ao mesmo tempo, quando abri uma via de comunicação com alguns, eles imediatamente passaram a me ver como uma fonte de benefícios materiais. Alguns chegam a pedir dinheiro diretamente, outros objetos, roupas, empregos, passagens para o Brasil, etc. Uma situação que primeiro constrange e depois irrita. Mas é preciso ver com outros olhos. Por que essas pessoas me vêem assim? Por que me tratam assim? Um branco aqui é antes de qualquer coisa uma oportunidade. Se sou branco tenho dinheiro, logo, posso dispor de meus objetos, porque tenho recursos para comprá-los novamente. Essa é a lógica de quem viveu séculos sob o domínio branco. Tenho o direito de zangar-me com eles?

         Niassa ainda esta se abrindo para mim. Espero poder entender mais do que me rodeia aqui.

crianças do niassa, expontaneas, elas correram atras do fotografo...

crianças do niassa, expontaneas, elas correram atras do fotografo...

 

Maputo

Publicado: 5 de dezembro de 2008 em Sem Categoria
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flores nas ruas de maputo

flores nas ruas de maputo

Passei uma semana em Maputo, mais um dia. É vã a tentativa de descrever o que se vê ao caminhar pelas ruas dessa cidade, tentarei colocar a minha impressão, que será diferente da sua quando cá vier. Pois Maputo é assim, uma confusão de sensações, opiniões, visões. Há quem se apaixone num primeiro olhar, há os que não querem nem olhar. Durante meses esperei pelo dia que chegaria aqui, e quando esse dia chegou percebi que nada poderia ter me preparado para esse encontro.

 

 

            No primeiro dia passamos de ônibus pelas ruas principais. Não há novidade nesse passeio. As ruas são apinhadas de carros velhos, e vans que fazem o transporte público, chamadas de Chapas. Há pessoas nas ruas, vendedores de tudo. Logo que se entra há um pedágio, depois uma rotatória. Em direção ao centro, na sua esquerda há um mercado, uma feira, uma centena mais ou menos de barracas que vendem verduras, ovos, roupas, sapatos, etc. Não espere ver um branco por aqui. Muitas crianças andam para lá e para cá nas calcadas, e atravessam as ruas, cruzando um transito não muito, mas um pouco bagunçado. Aqui dirigem do lado direito, e isso também assusta um pouco.

            Quando chegamos ao centro podemos ver alguns edifícios abandonados desde a guerra. Há em cada esquina, roupas de segunda mão penduras num varal, sapatos na calçada e um ou dois vendedores de créditos de celular pré-pago. Eu procuro marcas da guerra, furos na parede, algo quebrado… não vejo nada, apenas os prédios abandonados. Há um clima revolucionário nas paredes. Símbolos e frases socialistas estão em todo lugar, nos muros, nas casas, nos carros e nas roupas. A cidade estava também em período de eleições municipais, aqui chamadas de Eleições Autárquicas. A Frêlimo, quase um partido único com seus 96% dos candidatos inscritos, tem cartazes e faixas colocadas em toda parte.

            A Frêlimo foi a força revolucionaria que lutou contra a outra frente, a Rênamo, durante a guerra civil. As promessas foram as de sempre, igualdade para todos, educação, saúde e o tudo o que vem nesses discursos prontos. Mas, alguns anos depois do fim da guerra, não vejo nada disso nas ruas. Não que eu seja contra um e a favor do outro, é mais provável que a Rênamo fizesse o mesmo se tivesse vencido a guerra. O que dói é ver o que sobrou das promessas.

            Quando o ônibus para não há uma rodoviária, a parada final é no inicio da Av. 24 de Julho, uma das principais. Somos cercados por dezenas de taxistas, taxeiros aqui. A luta por um cliente é grande, truculenta, por vezes violenta, de modo que a dona da empresa de ônibus tem que vir a rua e colocar um pouco de ordem na balburdia. Mas qual a realidade por traz do fato? Miséria, pobreza, necessidade. Por 400 meticais, algo em torno de 30 reais o motorista nos levou para o nosso destino, cerca 30 minutos.

            Chegamos a Machava. Um bairro periférico, numa cidade onde periferia e centro se confundem nas condições de vida. Na Machava estão estradas de terra, cortadas por água de esgoto correndo a céu aberto. Na rua onde fica a casa dos voluntários, já esperando por esses voluntários, existem pequenas vendas. Algumas construídas vendas, outras no quintal da casa, mesinhas de madeira com um sombreiro por cima. Tomates, pimentões, arroz, ovos, sardinhas em lata, e é claro, coca-cola. É mais fácil conseguir coca-cola do que água, e mais barato também.

            À noite saí com um amigo que mora aqui em Maputo, e foi ai que os contrastes começaram a aflorar. Maputo tem bares, restaurantes, festas badaladas e tudo mais que uma cidade rica tem. Há carros importados, mais caros do que os que vi no Brasil, alguns que nem na América vi. Fomos a uma recepção num centro de cultura brasileira, pessoas ricas, filhos de embaixadores, empresários. Há dinheiro aqui. Muitos estrangeiros, italianos, portugueses, outros europeus e muitos brasileiros. E brasileiro aqui tem status, muito status. São símbolo de uma vida melhor, são o primo que ficou rico, e muitos querem ser iguais a nós. Pedem para que eu fale com sotaque de brasileiro, e pedem para que eu ensine sotaque de brasileiro. Comida farta na mesa. Diferentes tipos de bebidas. Iluminação e musica eletrônica dão o tom da festa.

            Foi engraçado encontrar aqui, no meio disso tudo um amigo de Cuiabá, Wesley, musico da banda 47 Cromossomos, de uns idos 8 anos atrás. Conversamos sobre estes tempos, aqueles tempos e obviamente sobre o tamanho do mundo. É como dizia a canção do Bolseiro, depois que se coloca o pé na estrada, nunca se sabe até aonde ela te levará.

            Na manha seguinte fui convidado para um churrasco. Imagina! Churrasco na África! Carne de primeira, carneiro, picanha… essas coisas todas, num apartamento que se não era de tudo chique, era ao menos cobertura de frente pro mar. Era a casa de um voluntária dos Médicos sem Fronteiras. Uns seis ou sete deles estavam lá e me pareciam tristes e solitários. Dali, ao fim da tarde outro restaurante a beira mar, com musica ao vivo, um brasileiro, com a camisa da seleção, cantava aqueles clássicos de voz e violão dos barzinhos brasileiros. E a noite moçambicana, no restaurante moçambicano era toda dos brasileiros que se divertiam, e eram aplaudidos pelas pessoas presentes.

            No outro dia saio cedo para voltar a casa dos voluntários. Caminho pelas ruas, a diferença de se passar por aqui de carro é gritante. Percebe-se um ar melancólico nas pessoas. Boa parte bem vestida, homens de camisa e gravata e mulheres em seus vestidos coloridos bem arrumados. Mas há algo por trás dessa boa aparência, um não sei que, que não me deixa em paz. Obviamente as pessoas me olham como um animal de zoológico, mas não é esse o problema. Vou até a avenida para apanhar a Chapa. São carros velhos, microônibus e vans em péssimas condições. Entro e esta vazio agora. Descendo a avenida passamos pela mesma feira que passei quando cheguei. O motorista parou para abastecer, e o carro foi cercado por pessoas vendendo tomates, frutas e créditos de celular. E o ônibus começou a encher, a ficar lotado e logo não havia mais espaço para ninguém, embora o motorista parasse para colocar mais pessoas. O cobrador começou a empurrar as pessoas para trás, apertando a todos. O senhor ao meu lado conversa comigo. Primeiro diz que pelo meu olhar sabe que não sou daqui e que é a primeira vez que venho a Moçambique, com o que tenho que concordar. Depois as perguntas são as de sempre, futebol, rio de janeiro, são paulo e novelas.

            Na frente passou uma outra chapa, um menino cobrador pendurado na porta com o corpo para fora do veiculo gritava “Liberdade, Liberdade, Liberdade!” e eu demorei a perceber que ele chamava o destino do carro e não outra coisa. Se soubesse o significado do que clamava, talvez gritasse mais forte!

30 horas…

Publicado: 3 de dezembro de 2008 em Sem Categoria
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barracas de boas-vindas...

barracas de boas-vindas...

Começo sentado na poltrona do avião. É ainda uma da manha no Brasil quando vejo pela primeira vez o sol se levantar em solo africano. Um sol de um laranja fulgurante, que nasce devagar, como se soubesse que não precisa de pressa para mostrar a que veio. Quando sobrevôo Johanesburg, ou Josi como dizem aqui, sinto que estou voltando para casa, lá no intimo, uma parte de mim sabe que daqui todos nos viemos.

 

            Mas em Josi, no aeroporto de Josi, não vejo a África que esperava. Vejo uma África branca, com clientes brancos e empregados negros. Alguém disse “ah! e’ um começo!” , mas não posso concordar. Para mim e’ apenas mais do mesmo, a mesma relação hierárquica de sempre. Ainda pior agora que estamos em solo negro.

            No caminho para a rodoviária nosso motorista nos diz que somos bem vindos `a Terra Mãe, me lembro da canção brasileira que canta Mama África, mas sinto que essa mãe deve estar muito triste com a relação entre seus filhos mais velhos e esses mais novos.

            Na rodoviária os sentimentos são diversos. Há a apreensão num ambiente que aparenta ser hostil, ao mesmo tempo em que fico maravilhado ao sentir que estamos cada vez mais em África, e estamos falando português com moçambicanos, apenas a algumas horas de entrarmos no pai’s.

            E’ sim um povo de sorriso fácil, mas com um olhar triste, de uma tristeza que ate então não sabia de onde via. E essa coisa triste se espalha por outras facetas da vida, da’ uma falta de vontade que se sente toda vez se precisa de algo, de um serviço. Um desanimo que só sente quem tem a certeza de que não há nada melhor esperando por você, não importa o que se faca.

            O ônibus estava lotado. São muitos os moçambicanos que estão voltando pra casa, fugindo dos massacres xenofóbicos que ocorreram e que podem voltar a acontecer a qualquer momento. São na maioria homens, jovens, que tentam trazer dinheiro suficiente para comprar um terreno e construir uma casa, como disse Paito, um rapaz mais moço que eu, que viajou ao meu lado. Surpreso, ele ouviu atento aos meus relatos sobre a realidade brasileira. Ao final disse “não vejo nada disso na novela”. Conversamos sobre a guerra civil, sobre Renamo, Frelimo e o terror de se esconder para não ser capturado pelos exércitos.

            Viajamos toda a noite cruzando a África do Sul. O caminho para Moçambique também não e’ condizente com retrato da África que temos. O país e’ rico, e embora haja sim pobreza, as cidades e suas estruturas, como rodovias, viadutos, lojas, são bem melhores do que no Brasil por exemplo. Mas as 5 da manha, quando o dia estava raiando e o ônibus parava na fronteira, Moçambique da uma mostra do que vem por aí.

            A fronteira só abriria as 6, de modo que tínhamos que esperar por volta de uma hora. A principio estava com medo de descer do ônibus, mas por fim sai para ver mais de perto o que de dentro já me impressionava. Algumas dezenas de barraquinhas, do que parecia ser algum tipo de carne assada na brasa, estavam ali apinhadas numa leve ribanceira. Para chegar ate’ elas era preciso cruzar pequenas pontes, que passavam sobre uma água escura e parada que não havia de ser menos do que esgoto. Algumas pessoas estavam comendo, mas a maioria das barracas estava vazia, com uma senhora de vestido colorido e olhar vazio a abanar as moscas. Há uma fila de carros, vans, camionetes e ônibus, todos esperando a abertura da fronteira. Entre eles uma pequena multidão de ambulantes tenta vender um pouco de tudo. E ali, entre eles, começa uma discussão. Falando em dialeto, eles cercam um rapaz e começam a espancá-lo brutalmente. Ele e’ surrado ate’ cair, e depois de tombado os outros cospem nele. Eles cercam outro jovem, os braços agitados para o alto e os gritos em uma língua que eu não entendia continuavam. Este ultimo deu sorte, a multidão violenta vê que o primeiro se levantou e começou a correr. Eles então, correm para apanhá-lo mais uma vez, não conseguindo atiram-lhe pedras, mas em vão, não o acertam e o menino consegue escapar. Ao redor varias pessoas assistiam como que sem se importar. Foi a primeira vez que me vi sozinho, sem nenhuma possibilidade de comunicação verbal. E assim, me sentindo um tanto perdido, voltei ao ônibus.

            A fronteira fica numa região bastante pobre, isolada, há ali, do lado de Moçambique, uma vila onde o silencio só era interrompido pelo som de um facão cortando madeira e o balido de pequenas cabras.

            Primeiro se carimba a saída da África do Sul, então cruzamos a fronteira a pe, uns 400 mts, ate dar-mos entrada em Moçambique. Na pequena multidão que cruza a borda só os voluntários são brancos. Há um casal branco, converso com eles e descubro que são voluntários do Peace Corp. Acho graça que no meio de tudo isso, da miséria, da sujeira, desse desespero velado, exista ali uma loja Duty Free.

São 100 km ate Maputo. Extensas áreas rurais com uma ou outra casinha de palha. Paito diz que essas casas tem apenas um cômodo, mas posso ver famílias inteiras trabalhando nas roças ao redor da casa. Ele me pergunta se esse tipo de moradia existe no Brasil, digo que sim, e ele diz que não vai mais ver novelas.

            São 11 da manha quando chegamos a Maputo.