a muito tempo…

São Paulo ficou para trás. Três meses já se passaram, ainda me lembro da madrugada em que cheguei, da senhora que vinha visitar sua filha e neta e que me pagou um café na rodoviária, me lembro de tocar o violão no metrô. Na manhã seguinte me lembro da festa boliviana em frente à Catedral da Sé, e das roupas coloridas e dos brocados, dos sorrisos com ouro, das canções simples.
Mas isso ficou para trás e também meus planos de voltar ao Brasil em novembro para morar na grande metrópole sul-americana. E agora os planos se voltam para outras opções fora da pátria mãe.
São três meses de volta aos EUA, de volta à montanha. O que passou?
Os planos de trabalhar no recrutamento se mostraram inúteis quando as diferenças de gênios entre eu e a diretora desse departamento se mostraram grandes demais. Mesmo assim trabalhei lá por dois meses, até que pudesse assumir uma vaga como Team Leader.
Estar na montanha como funcionário é uma experiência muito diferente de estar aqui como voluntário. Embora a maioria dos voluntários não perceba isso, fazer parte dos que trabalham gera muito mais conflitos internos do que o período de voluntario, ao menos é o que acontece comigo. Por quê?
Um voluntário pode sentir livre para ser el@ mesm@. Enquanto trabalho aqui sinto que estou sob constante vigilância e essa sensação de viver num Big Brother me tira a liberdade de ser o que sou. Às vezes, carregado de obrigações, percebo que poderia fazer tudo ao meu modo em um quinto do tempo, mas não posso, tenho que seguir as regras e isso me frustra. Talvez seja apenas meu gênio, meu jeito de ver as coisas que me faz sentir falta de colocar as mãos no trabalho, de suar trabalhando no campo, e esse trabalho aqui; um intermédio entre esse mundo “normal nosso de cada dia” e o campo de trabalho na África e na América do sul; me parece às vezes tão vazio, sem perspectiva.
O que torna a montanha suportável, o que nos mantêm aqui são, e sempre foram, dois fatores. Primeiro, a perspectiva do futuro, o trabalho em outro país, na África, na América do Sul, para a maioria dos que aqui estão, é uma força tão grande que nos guia e puxa e empurra durante todo o programa. Segundo, as pessoas. O encontro com pessoas de diferentes passados, com diferentes histórias e a oportunidade de compartilhar com elas esses sentimentos, criando laços de amizade que em alguns casos vão perdurar por anos, é outra força que nos compele. No meu caso acho que esta ultima é a principal.

De Cuiabá a São Paulo, uma alma que deseja.

Dia 18, meu ultimo dia em Cuiabá, cidade onde nasci e cresci. Minhas raízes estão lá, mas o vento balança minhas folhas em muitas direções. Me encontro com alguns amigos e sinto falta de alguns rostos, mas todos os corações estão ali, para mais uma vez me dar adeus, até logo! Eu os amo e a cada vez que posso vê-los, posso vê-los ainda mais. Além das cortinas, além do véu e de coração puro, com o ego vazio, digo a um que seus passos estão certos, digo a um que aceite mudar, digo a uma que vá devagar e a outra que procure se encontrar. Digo a um menino que ainda há muito por viver e a uma menina que o amar é saber esperar. Digo a uma moça que tudo acontece ao seu tempo e que o acaso nos guia. Ao meu pai digo que no caminho que escolhi, ando com os passos que ele me ensinou e digo aos meus irmãos que nunca lhes dei motivos para não se orgulharem da família.
É noite, dou até mais para aqueles corações generosos e entro no ônibus sorrindo e com 8 reais no bolso. Uma alma leve, um coração cheio e um bolso vazio.
São onze e quarenta da noite e o ônibus começa a se mover. Está frio e lento. Por algum motivo a idéia que o sonho da áfrica acabou volta a minha mente. Os lugares já serão os mesmos, ou serão as pessoas e o tempo suficientes para torná-los novos?
No ônibus não há jovens. Acho que sou o jovem aqui, a maioria já dorme, cobertos e com seus travesseiros. Eu vejo a cidade passar na janela devagar. Minha mente divaga. Quando voltarei aqui? Quem sentirá minha falta? O que deixei de fazer? O que fica para trás? O passado, o presente é o ônibus indo embora. Melancólico, durmo.
Acordo em Campo Grande, lembro dos amigos aqui, companheiros de viagens, companheiros de lutas. Tenho simpatia por este lugar e nunca entendi a rivalidade entre os dois estados. E me encantam as ruas largas e avenidas limpas da cidade. Não descemos e ficamos pouco tempo na rodoviária. Tomei um copo de café na próxima parada e na seguinte, por volta das uma e trinta da tarde, comprei uma esfiha e uma cream cracker. E guardo o troco para o metro quando em São Paulo.
Na viagem a tarde, olhando a paisagem do cerrado que sempre achei parecidas com as matas lá do outro lado. Pensando no numero enormes de pessoas que poderiam, me assusto com o pequeno numero das que realmente se doam ao próximo. E penso que a nossa pequena burguesia se acha mais perto da elite ao doar materialmente, o fato de dar dinheiro não lhes parece humilhante como lhes parece trabalhar gratuitamente. Na lógica capitalista lhes parece idiota trabalhar sem retorno, mas dar dinheiro aos pobres lhes afasta desse pesadelo e os aproxima do sonho burguês, assim pensam!
Continua…

violão e estrada

na estrada sempre surge um momento prá tirar o violão da sacola…

dourados 01

dourados 02

dourados 03

dourados 04

Cuiabá 01

Cuiabá 02

todos pro buteco…

Há uns meses criei um outro espaço virtual para trocar idéias com os amigos. O Dharma’s Pub é um blog de troca de idéias, opiniões, músicas, livros e afins. Leia, comente, recomende e faça seus pedidos, a despesa sempre é por conta da casa!

capa

de volta pra casa…

Dia 01 de maio eu saía da áfrica rumo à minha casa. Deixava para trás amigos, laços, memórias, sentimentos, pessoas, lugares, coisas, momentos. Enquanto eu estava só, vivendo na remota região do Niassa, o desejo de ver e conversar com pessoas do mesmo contexto que eu, me fazia desejar voltar para casa. Mas ali, no momento de entrar no ônibus e sair de Maputo, já não estava tão certo de partir. E prometi a mim mesmo que iria voltar a pisar aquelas terras. Mais cedo ou mais tarde. As praias azuis de Nacala, o por do sol colorido de Téte, o frio aconchegante de Niassa, a urbanidade paradoxal de Maputo, as plantações de chá de Guroé. E posso ouvir, num fechar de olhos, todas as canções que costumava ouvir quando a luz se ia, as fogueiras se acendiam e as pessoas cantavam noite adentro nas suas pequenas casas de barro e palhas, nas suas vilas de sete ou oito casinhas iguais.

Quando me sentei ali, no final do corredor do avião, numa poltrona com janela, eu olhei por ela e de coração e com ele, dei adeus àquela terra, assim como disse olá, sentindo que ali era; de alguma forma, em algum tempo e de alguma maneira, minha casa, minha terra, meu berço. Acompanhei o solo atravessando verdes planícies, desertos, rochas, montes, areia e por fim, praias, o mar dançava lá embaixo.

Pisando em São Paulo, reencontrando amigos, revendo uma cidade, reconhecendo uma multidão. Estar no Brasil foi uma vontade contraditória durante os últimos meses. Isa, uma menina que era voluntária em Macuze me disse que “as pessoas têm medo de sair de casa, mas quem já saiu, tem mais medo de voltar!”. E estar novamente naquilo que já chamou de “seu” dá medo. Reencontrar os amigos preocupa. Abraçar sua família lhe aflige.

Tive crise de pânico, fiquei trancado no AP do Leandro e da Rosa, amigos que me receberam nesse período de “reassentamento”. Aos poucos fui caminhando pelo bairro, algumas quadras, depois mais longe e por fim, peguei o metrô. E São Paulo, com sua delicadeza peculiar me mostrou que já não estava entre aqueles rostos sorridentes, que não adiantava saudar as pessoas e que aquela inocência tinha ficado para trás. Ainda assim, São Paulo me chama, e se lá morasse, lá seria feliz.

Ainda não faltava chegar em casa. Fui para Campo Grande, depois Dourados, depois para o Paraguai e voltando mais uma vez Campo Grande, onde Kleomar e Fernanda me receberam como irmão, e só depois descobri que eu seria o irmão mais velho, bem mais velho. E de lá a ultima noite de viagem para Cuiabá. Onde nasci, mas que não ouso chamar de minha terra, já que nada é meu. eu

No reencontro com os amigos, um alívio. No abraço da família, uma paz! Estava em casa, em paz, tranqüilo, sereno. Vejo o por-do-sol da janela do quarto onde durmo e sei que não é o mesmo que via um mês atrás, e me lembro que cada um deles é único, e que lá, como cá há cores demais! Umas tristes, tantas alegres.

pôr do sol da universidade

pôr do sol da universidade