Out in Asheville

É quarta-feira a noite e Mike, 43 anos, pai de dois mas solteiro, tem seu telefone chamando a cada 10 minutos. OK, ele recebe muitas ligações do trabalho que realiza, mas essa noite, todas as noites, são na maioria ligações de meninas/mulheres que o convindam para esse ou aquele programa. Nessa quarta ele se prepara para sair com Sheina. Roupa limpa, barba feita, loção e tudo o mais. Até que ela liga e cancela tudo…

Mike entra num estado de frustração e desespero que chega a ser engraçado. “Hey man, I need to get out of here! Let’s go out tonight, huh? What you say?”. E eu digo “hell yeah! Let’s do it!”. É minha folga no dia seguinte, sem problemas então. É noite de chutar o balde!

Mo’s Daddy é o bar com musica ao vivo onde vamos. Samantha veio junto e Mike está dirigindo um caminhão de médio porte que ele usa na construção onde trabalha. Estou rindo de rachar. Mike é uma das melhores pessoas que conheci. Mas faz pensar em quão distorcida é essa imagem que temos da vida, de que ela, aos 30, aos 40, deveria já estar assim, formatada. Uma casa, filhos, familia, emprego e rotina. Não digo aqui que a rotina seja por ela mesma, ruim. Para muitos rotina significa segurança, para alguns é até uma necessaria medida de ordem. Mas ver Mike passando por entre as pessoas no bar, e cumprimentando a muitos e sendo cumprimentado, pessoas dizendo “Hey man, what pleasure to see you here!”, me faz realizar que ainda há muito tempo, e que querer colocar tudo numa caixa é besteira. É bom, reconfortante sentir que estamos entre amigos, e é a primeira vez que sinto, em solo americano, que todos se gostam.

A banda que toca se chama Ralph, ou esse o nome do cara que canta, não percebi. É uma boa mistura de rock balada com um toque cowntry music e soul music, não sei, está bem balanceado e toma conta do hambiente. A muita gente dançando, muitas meninas, há mais meninas que homens. É a primeira vez que vejo gringos dançando de forma tão natural. Não é como numa disco, ou outro tipo de festa. Estão livres, são livres. As roupas são outras, as maneiras, os sorrisos. É fácil se apaixonar aqui!

Deixamos o palco e vamos ao bar. Mike diz que a rodada é dele, e eu chamo meu amigo Jack para animar minha noite e ele não me desaponta. Voltamos ao palco. A banda tem um violão, um violino, um outro instrumento de seis cordas que não sei qual é e o baterista. Um vocal masculino e um feminino. O tom está perfeito e a musica nos leva facilmente. As pessoas conhecem as letras e cantam juntos, dançam, rodopiam, pulam, suam, se tocam e se abraçam. Alguns casais se beijam. Todos se amam. E estou em casa!

Mike me apresenta Heder, uma amiga, da amiga da namorada oficial dele! Ela é linda, cabelos negros, na altura do queixo, com uns olhos, ah uns olhos de ressaca. Ela está um pouco bebada e completamente fumada e seus olhos semi-abertos me encantam profundamente. Ela dança solta, louca, rodopiante, sem parar. Logo percebo que nada vai se passar, mas apenas olhar aquele espetáculo despretencioso me deixa feliz. Com meu copo de Jack e com um pouco de swing latino, deixo a noite correr solta, sem expectativas! É lindo estar alí.

Saimos para fumar, eu e Mike. Uma pessoa se aproxima, e por um momento penso que um mendigo. “Hey Mike, how are you brotha?”. É mais um conhecido/amigo de Mike. “Hey Jorge, qual é o nome que voce está usando agora?” pergunta Mike. “Eu tenho muitos nomes. Meus filhos me chamam ‘PaPa’ e você também pode me chamar assim se quiser!”.

Voltamos para dentro. Duas lindas meninas estão no palco. Uma canta e toca o violão, outra toca banjo e faz a segunda voz. Divino! É suave e vivo, é belo e envolvente. Sem perceber estou me movendo numa espécie dança que não me atreveria a descrever e nem a repedir em outro lugar! O cara do violino volta a tocar com elas e tudo fica ainda melhor. Encantado vejo as duas decerem do palco e já não me surpreendo quando elas veem falar com Mike.

A noite no bar se caminha para o fechamento e nós começamos a planejar o que vem depois. Mike conversa ali e aqui com varias pessoas. Parece que vai haver uma festa na casa de alguém. Ele  Heder, mas era claro que ela declinaria. Porém outras pessoas topam.

Subimos no caminhão e vamos outra vez…

Jack Daniel’s, sotaque e o chamado da mochila…

São quase cinco da tarde quando passo pela placa de boas vindas ao estado do Tenesse. Mais de dez horas depois de cruzar a fronteira entre Massachusetts e o estado de Nova York chego ao estado que a casa de um grande amigo meu, Jack Daniel’s. Atravessando Pensilvânia, Maryland, West Virginia, Virginia, e depois de mais algumas horas chego à Carolina do Norte, destino final dessa viagem de 14 horas de volante e pé na estrada.

No carro estão Shermel e Samantha, norte americanas, e Leila, sul coreana. Estamos fugindo. Fugindo da Montanha, fugindo do frio e da neve, fugindo da dor do adeus para aqueles que vão para a África. Estamos fugindo e em toda fuga, não se pensa muito, apenas vamos.

À medida que avançamos ao sul a paisagem muda, a neve fica para trás, o frio também. Ah, mas a saudade está ali, no rosto de Leila, sempre que olho no retrovisor, uma lagrima é testemunha fiel de que ainda vai levar alguns dias para esquecer o adeus na porta da casa dos voluntários. Mas é assim quando se decide pela vida de mochileiro/voluntário/viajante/impermanente. Saberá alguém medir até aonde deixar os laços se estreitarem para não sofrer na partida? Acredito que não. Colocamos o coração em cada amizade transeunte que fazemos, em cada amor passageiro que vivemos e a intensidade destes, não é menor do que daqueles que deixamos no que outrora chamávamos de lar. Com a memória ainda viva, olho para trás, para os “adeuses” que dei e recebi; cada um com sua dor. Lembro das lagrimas, algumas tão alegres que se confundiam no sorriso, outras nem tanto.

Chegando à Carolina do Norte uma cadeia de montes e montanhas no recebem de cara feia. Chove, mas já sentia saudades da chuva e assim paro o carro num mirante para olhar as montanhas e me molhar na chuva fria. É bom estar na estrada novamente. Cada vez que vejo algo, alguém, e uma novidade. E olhos transbordam de êxtase inundados de novas paisagens e pessoas. Toda vez que penso em voltar para casa, me pergunto o que colocaria no lugar desse prazer de ver o novo, de viver o novo. Talvez caísse numa nada produtiva busca de novos prazeres, talvez alguns nada construtivos. E assim olho para o futuro próximo e procuro portas que digam “bem-vindos viajantes insaciáveis!”.

Chegamos à Asheville, chove muito. A cidade parece triste e encolhida. Há muitas sombras e cada esquina parece tão ameaçadora que as meninas começam a se arrepender da escolha do local de fundraising. Em meio à água e às sombras seguimos as direções na folha de papel que nos levam até à casa onde passaremos a noite e o resto da semana. No escuro a casa parece assustadora, há moto-serras por toda parte, coisas espalhadas pelo chão ao redor de todo o lugar. Mais tarde vou saber, são memórias no chão, na parede, nas estantes, no teto. Algumas bem mais antigas que a própria casa, ou que Mike, nosso anfitrião.

Mike nos recebe com grande sorriso, abraço e um forte sotaque sulista. E me perdoem aqui os sulistas brasileiros, aqui, ao contrario de lá, quando mais vamos ao sul, mas amigáveis são as pessoas. Logo estamos em casa. Seu casal de filhos o está visitando. Um menino de treze anos, que toca violão e teclados, e uma menina de onze que pinta quadros. Coincidência ou não, são todos piscianos. Derramamos as nossas bagagens pela casa e logo, pouco depois de uma rodada de sanduiches de salada de frango, estou me esforçando muito para acompanhar Mike e seu filho num Jam Sesion. São as musicas dele, e as uma vez ou outra, uma minha, outra venezuelana e assim, passamos do frio nortista, para o calor aconchegante do sul.

a muito tempo…

São Paulo ficou para trás. Três meses já se passaram, ainda me lembro da madrugada em que cheguei, da senhora que vinha visitar sua filha e neta e que me pagou um café na rodoviária, me lembro de tocar o violão no metrô. Na manhã seguinte me lembro da festa boliviana em frente à Catedral da Sé, e das roupas coloridas e dos brocados, dos sorrisos com ouro, das canções simples.
Mas isso ficou para trás e também meus planos de voltar ao Brasil em novembro para morar na grande metrópole sul-americana. E agora os planos se voltam para outras opções fora da pátria mãe.
São três meses de volta aos EUA, de volta à montanha. O que passou?
Os planos de trabalhar no recrutamento se mostraram inúteis quando as diferenças de gênios entre eu e a diretora desse departamento se mostraram grandes demais. Mesmo assim trabalhei lá por dois meses, até que pudesse assumir uma vaga como Team Leader.
Estar na montanha como funcionário é uma experiência muito diferente de estar aqui como voluntário. Embora a maioria dos voluntários não perceba isso, fazer parte dos que trabalham gera muito mais conflitos internos do que o período de voluntario, ao menos é o que acontece comigo. Por quê?
Um voluntário pode sentir livre para ser el@ mesm@. Enquanto trabalho aqui sinto que estou sob constante vigilância e essa sensação de viver num Big Brother me tira a liberdade de ser o que sou. Às vezes, carregado de obrigações, percebo que poderia fazer tudo ao meu modo em um quinto do tempo, mas não posso, tenho que seguir as regras e isso me frustra. Talvez seja apenas meu gênio, meu jeito de ver as coisas que me faz sentir falta de colocar as mãos no trabalho, de suar trabalhando no campo, e esse trabalho aqui; um intermédio entre esse mundo “normal nosso de cada dia” e o campo de trabalho na África e na América do sul; me parece às vezes tão vazio, sem perspectiva.
O que torna a montanha suportável, o que nos mantêm aqui são, e sempre foram, dois fatores. Primeiro, a perspectiva do futuro, o trabalho em outro país, na África, na América do Sul, para a maioria dos que aqui estão, é uma força tão grande que nos guia e puxa e empurra durante todo o programa. Segundo, as pessoas. O encontro com pessoas de diferentes passados, com diferentes histórias e a oportunidade de compartilhar com elas esses sentimentos, criando laços de amizade que em alguns casos vão perdurar por anos, é outra força que nos compele. No meu caso acho que esta ultima é a principal.

De Cuiabá a São Paulo, uma alma que deseja.

Dia 18, meu ultimo dia em Cuiabá, cidade onde nasci e cresci. Minhas raízes estão lá, mas o vento balança minhas folhas em muitas direções. Me encontro com alguns amigos e sinto falta de alguns rostos, mas todos os corações estão ali, para mais uma vez me dar adeus, até logo! Eu os amo e a cada vez que posso vê-los, posso vê-los ainda mais. Além das cortinas, além do véu e de coração puro, com o ego vazio, digo a um que seus passos estão certos, digo a um que aceite mudar, digo a uma que vá devagar e a outra que procure se encontrar. Digo a um menino que ainda há muito por viver e a uma menina que o amar é saber esperar. Digo a uma moça que tudo acontece ao seu tempo e que o acaso nos guia. Ao meu pai digo que no caminho que escolhi, ando com os passos que ele me ensinou e digo aos meus irmãos que nunca lhes dei motivos para não se orgulharem da família.
É noite, dou até mais para aqueles corações generosos e entro no ônibus sorrindo e com 8 reais no bolso. Uma alma leve, um coração cheio e um bolso vazio.
São onze e quarenta da noite e o ônibus começa a se mover. Está frio e lento. Por algum motivo a idéia que o sonho da áfrica acabou volta a minha mente. Os lugares já serão os mesmos, ou serão as pessoas e o tempo suficientes para torná-los novos?
No ônibus não há jovens. Acho que sou o jovem aqui, a maioria já dorme, cobertos e com seus travesseiros. Eu vejo a cidade passar na janela devagar. Minha mente divaga. Quando voltarei aqui? Quem sentirá minha falta? O que deixei de fazer? O que fica para trás? O passado, o presente é o ônibus indo embora. Melancólico, durmo.
Acordo em Campo Grande, lembro dos amigos aqui, companheiros de viagens, companheiros de lutas. Tenho simpatia por este lugar e nunca entendi a rivalidade entre os dois estados. E me encantam as ruas largas e avenidas limpas da cidade. Não descemos e ficamos pouco tempo na rodoviária. Tomei um copo de café na próxima parada e na seguinte, por volta das uma e trinta da tarde, comprei uma esfiha e uma cream cracker. E guardo o troco para o metro quando em São Paulo.
Na viagem a tarde, olhando a paisagem do cerrado que sempre achei parecidas com as matas lá do outro lado. Pensando no numero enormes de pessoas que poderiam, me assusto com o pequeno numero das que realmente se doam ao próximo. E penso que a nossa pequena burguesia se acha mais perto da elite ao doar materialmente, o fato de dar dinheiro não lhes parece humilhante como lhes parece trabalhar gratuitamente. Na lógica capitalista lhes parece idiota trabalhar sem retorno, mas dar dinheiro aos pobres lhes afasta desse pesadelo e os aproxima do sonho burguês, assim pensam!
Continua…

violão e estrada

na estrada sempre surge um momento prá tirar o violão da sacola…

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